‘A única coisa permitida hoje é o que todo mundo está fazendo', diz o psicanalista Bruce Fink
Jacques Lacan, um dos nomes mais influentes da história da psicanálise, é tema de pesquisa e livros de Bruce Fink

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Maurice Rougemont/Getty Images
O mundo contemporâneo está saturado de supostas explicações sobre quem somos, imagens de uma felicidade idealizada e modelos de vida que dizem, o tempo todo, como deveríamos ser. Nas redes sociais, as pessoas não apenas observam e comparam, também são observadas, avaliadas e confrontadas permanentemente. Essa dinâmica focada em performance de alta voltagem tem aparecido cada vez mais nos consultórios na forma de queixas, segundo o psicanalista americano Bruce Fink. Para ele, a pergunta mais comum dos pacientes é: “Isso é normal?”.
Um dos principais divulgadores da obra de Jacques Lacan (1901-1981) no mundo anglo-saxão, Fink diz que esses imperativos de sucesso exacerbam a “falta estrutural”, uma condição de desamparo inerente a todos. Ele recorre à frase lacaniana “se Deus está morto, nada é permitido” e sugere uma analogia: “A única coisa permitida hoje é o que todo mundo está fazendo”. A observação, porém, embute uma proposta analítica. “O que acontece quando, em vez de perguntar quem deve ser, ele começa a escutar o que deseja?”
Parte do trabalho do analista, diz Fink, é questionar o peso dessas comparações. “A psicanálise hoje se concentra em trazer o desejo inconsciente para o primeiro plano, mesmo que ele esteja em desacordo com os costumes sociais”, diz. Isso é essencial, segundo o pesquisador, porque as pessoas tendem a não desejar de fato o que estão buscando e não estão de fato buscando o que desejam, seja em termos de carreira, artísticos ou relacionais.
Formado em Paris, onde fez doutorado na Universidade Paris VIII, Fink é tradutor de obras de Lacan para o inglês, professor, clínico e supervisor de analistas, além de autor de livros como “Introdução clínica à psicanálise lacaniana”, “O sujeito lacaniano” e “Introdução à clínica de Freud”, todos publicados no Brasil pelo selo Zahar.
Bruce Fink lança livro novo e visita o Brasil
Divulgação
Fink estará em São Paulo em novembro para uma série de atividades no Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), que incluem um curso e supervisões clínicas. Também no mês que vem ele lança, em inglês, seu livro “A Lacanian Approach to Autism”. Na entrevista a seguir, ele fala sobre as ilusões de uma “alma gêmea”, o culto ao desempenho, a febre de diagnósticos e o que muda quando alguém ouve a si mesmo dizer, em voz alta, o que deseja.
Valor: O que a psicanálise revela sobre a impossibilidade de termos relações completamente satisfatórias? A promessa da cultura contemporânea de encontrar o parceiro “ideal” intensifica o sofrimento produzido por essa impossibilidade?
Bruce Fink: Pode-se argumentar que as expectativas irreais sobre parceiros e relacionamentos começaram séculos atrás, com o desenvolvimento do romance no século XVI pelo menos, se não mil anos antes com a obra de Homero. Romances românticos e filmes da Disney só pioraram a situação, e poderíamos dizer que a promoção pela cultura contemporânea da ideia do parceiro “certo” ou “perfeito” espelha a crença de psicanalistas contemporâneos no “encaixe certo” entre analisando e analista. Em outras palavras, que análise só pode progredir proveitosamente se houver bom encaixe entre terapeuta e paciente. Ambas as ilusões parecem projetadas para ignorar o trabalho envolvido nos relacionamentos, enfatizando unicamente a harmonia do tempo passado juntos. Os casais de hoje frequentemente se separam ou se divorciam à menor dificuldade ou contratempo em um relacionamento, aos menores problemas de comunicação ou falhas em captar os motivos e desejos um do outro. A cultura contemporânea fomenta a crença na “alma gêmea”, acentuando o que Lacan denominou imaginário: encontrar outra pessoa exatamente igual a si mesma. Uma tarefa virtualmente impossível, naturalmente, mas também equivocada. A psicanálise enfatiza, em vez disso, o acerto de contas com o parceiro como radicalmente diferente ou Outro [com letra maiúscula] de si - exigência difícil, mas salutar.
Valor: Os sujeitos contemporâneos parecem mais confrontados com exigências de desempenhar, otimizar a si mesmos, manter-se produtivos e melhorar constantemente. Que subjetividade é produzida por esse imperativo de ter sucesso?
Fink: Tais imperativos exacerbam a sensação já existente de que nos falta alguma coisa. Também exacerbam ansiedades já existentes originadas na infância de que não somos bons o suficiente, masculinos o suficiente, femininos o suficiente, espertos o suficiente, atenciosos o suficiente.
Valor: Apesar das transformações tecnológicas e sociais, o que permanece fundamentalmente inalterado?
Fink: Muita coisa mudou ao nível do ego - daí a acusação onipresente dirigida a outras pessoas de “narcisismo” -, mas muito pouco mudou no que diz respeito à estrutura do sujeito. Os desejos conscientes e as fantasias foram sequestrados, em certo sentido, pelas redes sociais e por sites de pornografia, mas os desejos inconscientes e as fantasias inconscientes continuam vivos. Os últimos três quartos de século, entretanto, enfraqueceram consideravelmente a estrutura da família, de modo que a psicose e a psicose ordinária estão se tornando consideravelmente mais prevalentes.
Valor: O que significa clinicamente dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem?
Fink: Significa que o desejo não é esforço ou impulso vago, mas sim algo que é formulado na linguagem e que muitas vezes é muito surpreendente para o analisando que consegue articulá-lo em voz alta em uma sessão. Os neuróticos geralmente dizem que querem coisas que não desejam de verdade, mas que sentem que precisam da boca para fora para parecerem normais, não serem julgados negativamente e serem como todo mundo. Se tomarmos o que dizem querer pelo valor de face, acreditaremos que eles querem exatamente o que seus pais dizem que devem querer, o que seus professores dizem que devem querer e o que seus amigos dizem que devem querer. Se, por outro lado, prestarmos atenção ao que é expresso em seus atos falhos, sonhos, devaneios e fantasias, perceberemos que o que eles realmente querem é frequentemente diametralmente oposto ao que dizem querer. Não deve ser surpreendente, portanto, que isso se torne uma das principais causas de conflito em suas vidas: eles não desejam de fato o que estão buscando e não estão de fato buscando o que desejam, seja em termos de carreira, artísticos ou relacionais. As coisas começam a mudar consideravelmente para os pacientes quando eles se ouvem articular o que realmente querem e percebem que o que vinham dizendo a si mesmos e aos outros a vida toda equivale a um monte de mentiras.
Valor: O que distingue neurose, perversão e psicose como estruturas clínicas na psicanálise?
Fink: As pessoas entram na linguagem de maneiras diferentes. Algumas nunca chegam a existir, estritamente falando, na linguagem -aqui me refiro à quarta estrutura psicanalítica, o autismo -, e outras entram apenas de maneira parcial, nunca assimilando a estrutura metonímica e metafórica completa da linguagem. Por mais de 100 anos, os clínicos notaram diferenças muito significativas entre a maneira como os paranoicos e os esquizofrênicos falam e compreendem o discurso de outras pessoas e a maneira como os neuróticos falam e compreendem o discurso de outras pessoas. Discuto longamente como as pessoas entram na existência na linguagem no meu livro mais recente, “A Lacanian Approach to Autism: Dilemmas of Giving and Receiving” (Uma abordagem lacaniana do autismo: dilemas do dar e do receber, em tradução livre), que será lançado em novembro. Em termos breves, os clínicos frequentemente acham que a fala dos psicóticos é o que chamam de “concreta” e até “chata”, sendo os psicóticos geralmente incapazes de reconhecer qualquer ambiguidade ou duplo sentido em sua fala, ou qualquer significado em seus raros atos falhos. E eles geralmente não entendem piadas baseadas em trocadilhos ou interpretações psicanalíticas que envolvem polivalência. Os clínicos frequentemente focam apenas nos chamados indicadores ou sintomas de psicose, como delírios e alucinações, ao tentar formular um diagnóstico, enquanto delírios e alucinações genuínos costumam ser muito difíceis de discernir. Mas o que temos à nossa disposição todos os dias em nosso trabalho com os pacientes é a sua fala, e o clínico experiente muitas vezes consegue discernir uma estrutura psicótica após uma única sessão com um paciente. Como indico no meu próximo livro sobre o autismo, linguistas chegaram a programar computadores para analisar a fala das pessoas e afirmam ser capazes de detectar a psicose com grande confiabilidade. A perversão pode, a meu ver, ser detectada prestando-se muita atenção à fala dos pacientes, pois existem certas pessoas que operam primordialmente com base no que denominei de “lógica do e/e”, que é simultaneamente de uma maneira e do seu oposto, tanto X quanto não X.
Valor: Como se articulam na clínica a tríade de registros conceituais para investigar o sujeito, segundo Lacan: real (o que escapa à simbolização), simbólico (da ordem da linguagem e da lei) e imaginário (o campo das imagens e das identificações)?
Fink: O que nos esforçamos para fazer na psicanálise é, de certa forma, drenar o imaginário e o real para o simbólico. Nós não focamos, por exemplo, nas tentativas dos analisandos de aprender sobre nós - nossos gostos, desgostos, histórico, família, situações etc. -, mas focamos o trabalho neles e em suas lutas. Fazemos o nosso melhor para não cair na armadilha de comparações imaginárias de nós mesmos com eles, ou de imaginar que eles funcionam da mesma maneira que nós. Se eles projetam algo sobre nós, não aceitamos nem rejeitamos a projeção, não dizemos se estão certos ou errados, mas perguntamos de onde vem neles a ideia ou a emoção que estão projetando. Quando eles enfatizam queixas “reais” (como dores corporais, problemas digestivos, dificuldades para dormir e assim por diante), nós os encorajamos a falar sobre o pano de fundo e o contexto dessas coisas - por exemplo, se alguém em seu passado teve tais dores ou dificuldades, quando as dificuldades começaram, o que estava acontecendo naquele momento etc. E prestamos muita atenção às palavras que usam para descrever suas dores e problemas, buscando metáforas e expressões idiomáticas no discurso de seus pais e daqueles ao seu redor que possam ter contribuído para o desenvolvimento delas. Dessa forma, trazemos tanto o imaginário quanto o real para o simbólico, pois é o simbólico que nos dá um ponto de apoio sobre eles e alavancagem para impactá-los.
Valor: O senhor acha que a cultura contemporânea incentiva as pessoas a se identificarem por diagnósticos - TDAH, autismo, transtorno bipolar, transtorno de personalidade borderline, depressão e outros?
Fink: Na psicanálise, encorajamos os pacientes a explorar por que são do jeito que são e como se tornaram o que se tornaram. Aferrar-se a um diagnóstico como o TDAH atalha esse processo e, geralmente, o torna impossível. As pessoas parecem mais do que felizes em adotar esses diagnósticos como explicações prontas para os seus problemas, para o motivo de serem como são e de como se tornaram o que se tornaram. Querem acreditar que têm um problema genético ou hormonal que explica tudo. E que existe um tratamento, mais geralmente, um remédio, que pode consertá-lo. Se não houver tratamento, as pessoas ao seu redor precisam desculpá-las por seus problemas, porque não há nada a ser feito a respeito. Portanto, não é culpa delas se são impossíveis de conviver, não se dão bem com as pessoas no trabalho e não conseguem se concentrar em nada. As empresas farmacêuticas incentivaram enormemente a proliferação de diagnósticos - até mesmo o autodiagnóstico de tais condições, utilizando, por exemplo, questionários online - e a crença de que possuem um remédio para o que quer que lhe aflija. Isso leva as pessoas a desperdiçarem anos e grandes somas de dinheiro, tentando um psicotrópico após o outro, em vez de entrarem em psicoterapia ou psicanálise. Assim, em geral, este é um desenvolvimento terrível na cultura contemporânea. Os psicóticos podem, no entanto, ocasionalmente se beneficiar de receber um desses rótulos psiquiátricos, pois os rótulos parecem, em certos casos, tampar um buraco em seu sistema significante, servindo-lhes como princípio explicativo que pode ajudá-los a navegar pelo mundo em vez de desmoronarem.
Valor: O que a psicanálise oferece de diferente em relação à psiquiatria, à psicologia e à psicoterapia?
Fink: No trabalho com neuróticos, a psicanálise hoje se concentra em trazer o desejo inconsciente para o primeiro plano, mesmo que ele esteja em desacordo com os costumes sociais, o politicamente correto, as restrições religiosas e assim por diante. Praticamente todas as outras formas de terapia visam à “normalização” e à adaptação dos pacientes à sociedade. A psicanálise visa primeiro a explorar o desejo inconsciente em grande detalhe e, em seguida, deixar a cargo dos pacientes decidir como navegar pela vida no mundo fora do consultório, dados os desejos que agora reconheceram em si.
Valor: O senhor diria que uma das contribuições mais revolucionárias de Lacan foi mostrar que o diagnóstico não deve se basear nos sintomas ou fenômenos que se apresentam na clínica, mas na estrutura que os organiza?
Fink: O núcleo revolucionário da contribuição de Lacan para a psicanálise é a sua ênfase na fala e nas múltiplas maneiras pelas quais podemos trabalhar com a fala do analisando. Dito isso, não trabalhamos com a fala do analisando da mesma maneira se ele for neurótico ou psicótico. Com os neuróticos, podemos apontar produtivamente atos falhos, palavras truncadas, duplo sentido, metáforas misturadas e expressões idiomáticas malfadadas. Com os psicóticos, por outro lado, nada disso tem valor e pode até ser contraproducente. No entanto, concordo plenamente que o diagnóstico estrutural é incrivelmente importante, e que as pessoas guiadas pelo DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Menatis), pela CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) ou por outros sistemas baseados em sintomas ou de inspiração fenomenológica muitas vezes se desencaminham e acabam piorando as coisas para seus pacientes em vez de melhorá-las. Já vi muitos clínicos provocarem episódios psicóticos em seus pacientes por não reconhecerem uma estrutura psicótica subjacente, e muitos outros fazendo apenas a chamada psicoterapia de apoio com pacientes que poderiam ter feito um trabalho psicanalítico genuíno.
Valor: Como se relaciona desejo e gozo?
Fink: Poderíamos dizer que o gozo não mente: quando o experimentamos, ele diz algo importante sobre nós; há algo de real nele. O desejo, por outro lado, pode ser facilmente seduzido, dissimulado ou disfarçado. As pessoas frequentemente dizem que desejam coisas que não lhes trazem gozo, e o gozo que de fato experimentam provém justamente das coisas que dizem não querer. Com o nosso foco no desejo inconsciente na psicanálise, tornamos possível que haja uma espécie de aproximação entre o desejo e o gozo. A melhor evidência é que os pacientes conseguem perseguir o que querem e desfrutar de si mesmos de forma mais direta, com menos inibições e sem se atar em nós. Eles não ficam mais assustados ou enojados com o seu próprio gozo.
Valor: Como entende o papel da interpretação do psicanalista a respeito da fala do analisante na clínica lacaniana?
Fink: Apesar das alegações de certos analistas de que “a interpretação está morta”, a interpretação continua sendo de crucial importância na psicanálise, e o foi na obra de Lacan até o fim. Isso não significa que assuma a forma que tinha quando Freud começou a trabalhar, em que podia sugerir a um paciente que estava tendo os problemas que tinha por causa de seu “complexo de Édipo”. A interpretação hoje funciona diretamente a partir da fala do paciente, usando o vocabulário do paciente na maior extensão possível, invertendo a ordem das palavras às vezes, brincando com certas palavras ou frases, mas mantendo-se extremamente próxima ao “texto” da fala do paciente. Ela é concisa e minimalista, em oposição a ser prolixa e longuíssima. É projetada para causar impacto, chacoalhar as coisas - “fazer ondas” ou “agitar o barco”, como o próprio Lacan disse.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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