Problemas fora das usinas faz siderurgia brasileira perder competitividade
Raquel Biasotto: ‘O impacto econômico da logística vai além do custo do frete’

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Divulgação
De um lado, vantagens como minério de ferro de alta qualidade, matriz elétrica relativamente limpa, conhecimento técnico acumulado e escala de produção. De outro, juros elevados, gás natural caro, deficiências na logística, desafios tributários, falta de uma política industrial consistente para o setor, além da crescente competição do aço chinês. Esse é o retrato da siderurgia brasileira traçado por especialistas ouvidos pelo Valor.
“O Brasil tem vantagens relevantes, especialmente na disponibilidade de minério de ferro e na capacidade produtiva instalada”, diz Raquel Biasotto, sócia de comércio exterior da Deloitte. “O desafio é preservar essas vantagens até a entrega do produto, pois fretes, tempo de trânsito, estoques, custos financeiros e exigências regulatórias podem reduzir ou até neutralizar a competitividade da etapa industrial.”
Na logística, afirma ela, entraves afetam tanto o abastecimento de matéria-prima como a distribuição do produto acabado. Entre os fatores, está a dependência do transporte rodoviário, responsável por cerca de 70% a 75% da carga siderúrgica movimentada no país, como aponta Germano Mendes de Paula, consultor da Oxford e professor titular aposentado do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia. Ele ressalta que, além de reduzida, a rede ferroviária brasileira tem trechos com diferentes bitolas (a distância entre os trilhos). “Isso pode exigir transbordo de cargas e, desta forma, aumentar custos no transporte”, afirma o consultor. Na avaliação dele, limitações na infraestrutura portuária e a cabotagem também prejudicam o setor.
Biasotto tem avaliação semelhante. “O impacto econômico da logística vai além do custo do frete”, diz. “Atrasos, transbordos, indisponibilidade de capacidade e baixa previsibilidade aumentam estoques, armazenagem, capital de giro e risco de descumprimento de prazos comerciais.”
A energia mais cara também joga contra. “A indústria de transformação brasileira, em geral, vem perdendo competitividade em decorrência do crescente custo da eletricidade para o setor industrial”, aponta Mendes de Paula. De acordo com a Strategy&, da PwC, os valores cobrados pela eletricidade no país aumentaram 792% entre 2002 e 2023, em comparação com inflação de 329% no mesmo período. O consultor também destaca o preço do gás natural, de US$ 14 a US$ 16 por milhão de BTU (unidade de energia térmica), ante cerca de US$ 3 US$ 5 por milhão de BTU nos Estados Unidos.
Ainda pesam, diz Mendes de Paula, a volatilidade da demanda interna e a disponibilidade reduzida de sucata de ferro e aço, matéria-prima para parte das usinas. Os juros altos também prejudicam o setor. “A maior taxa de juros reais no Brasil obviamente penaliza atividades industriais no país, e isso é ainda mais verdadeiro para atividades intensivas em capital, como a siderurgia”, avalia.
Sobre os impostos, Monique Teixeira, sócia de consultoria tributária da Deloitte, avalia que, embora o novo sistema possa reduzir distorções causadas pela atual tributação em cascata, o setor poderá ter custos pressionados pelo novo Imposto Seletivo (IS) sobre o minério de ferro, com alíquota máxima de 0,25% e sem possibilidade de geração de crédito tributário. “A combinação do IS com o fim de incentivos fiscais estaduais pode comprometer a competitividade da siderurgia brasileira diante dos concorrentes estrangeiros”, diz.
A falta de continuidade das políticas industriais é outro entrave, como avaliou Thiago Aragão, CEO da Arko International, no painel “Competitividade Sistêmica: Como alcançá-la?”, do Congresso Aço Brasil, realizado em São Paulo nos dias 29 e 30 de setembro. Segundo ele, na contramão de países como Canadá, México e Polônia, que mantiveram estratégias por décadas, no Brasil as políticas costumam sobreviver apenas ao governo da vez.
Para Aragão, estratégias industriais consistentes e de longo prazo exigem escolhas e prioridades. “Escolher é deixar alguém de fora. O processo de industrialização não pode ser feito para todos”, disse. Como exemplo, citou a Coreia do Sul, que priorizou setores como aço, máquinas, construção naval, eletrônica e química, estabeleceu metas de exportação e condicionou o crédito público a resultados.
No mesmo painel, Ricardo Geromel, cofundador da FCGI, ressaltou o papel da educação para a produtividade e chamou atenção para a formação de capital humano para a indústria do país. Ele destacou a importância de melhorar a educação pública e apontou, como entrave, a queda, desde 2018, no número de formandos em engenharia.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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