Por que as artes marciais vêm conquistando praticantes da geração 60+
Aos 75 anos, a professora Fumie Nishida caminha, em seu espaço, com a serenidade de quem parece medir o ambiente pela respiração dos alunos. “O aikidô é a arte marcial da paz”, diz a sensei, que pratica a modalidade há meio século, no Nishida Dojo, na zona sul de São Paulo.

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Adam Crowley/Getty Images
Aos 75 anos, a professora Fumie Nishida caminha, em seu espaço, com a serenidade de quem parece medir o ambiente pela respiração dos alunos. “O aikidô é a arte marcial da paz”, diz a sensei, que pratica a modalidade há meio século, no Nishida Dojo, na zona sul de São Paulo. O aikidô se baseia na neutralização do conflito e no redirecionamento de energia para dissolver a agressão antes que ela se concretize. Nessa luta, não há vencedor - e todos aprendem.
No dojô dela, são vários os praticantes 60+, de faixas brancas iniciantes a professores faixas pretas, que treinam em turmas mistas. Sétimo grau, ou “dan”, de faixa preta e uma das maiores autoridades de aikidô na América Latina, Nishida explica que essa arte marcial atrai um público maduro e vai além da técnica: é um trabalho de lapidação interna que exige precisão e humildade, longe dos holofotes das disputas. “O ego é o maior obstáculo e, com o tempo, ele pode se tornar mais rígido ou mais leve. O aikidô ajuda a dissolvê-lo”, diz.
O movimento observado no Nishida Dojo reflete uma tendência crescente: a maior presença de pessoas acima de 60 anos nas academias de artes marciais. Diante do envelhecimento da população e da busca por uma longevidade funcional, as artes marciais deixaram de ser exclusividade dos jovens e se consolidaram como ferramentas terapêuticas e de socialização para os 60+.
Essa adesão ganha respaldo em alertas da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), que aponta as quedas como um dos maiores desafios do envelhecimento no país, afetando cerca de 30% dos idosos a cada ano. É nesse cenário que os tatames podem atuar como aliados da saúde pública e privada: alinhados às diretrizes de envelhecimento ativo do Ministério da Saúde, estudos indicam que o treino adaptado de artes marciais melhora significativamente o equilíbrio dinâmico e a consciência corporal dos praticantes seniores.
Esse aprendizado técnico ajuda a diminuir o risco de acidentes e ensina o idoso a amortecer o impacto em caso de queda, além de estimular as funções cognitivas e a memória por meio da execução dos movimentos.
Nos últimos anos, as academias de artes marciais tiveram um aumento consistente de alunos acima de 60 anos. Professores de aikidô, jiu-jítsu, caratê, krav-magá e tai chi relatam turmas mais cheias, procura maior por aulas adaptadas e um interesse crescente desse público por práticas que combinam saúde, convivência e propósito. Embora não existam números oficiais, todas as escolas ouvidas pela reportagem registram expansão do grupo 60+, seja em aulas regulares, seja em turmas específicas criadas para atender a essa demanda.
No Nishida Dojo, os treinos exigem não apenas precisão, mas também humildade - e isso atrai um público que já não busca provar nada para ninguém. É nesse ponto que a sensei costuma fazer uma distinção importante sobre idade e risco. “Às vezes é mais perigoso para uma pessoa muito jovem. Ela pensa que pode fazer tudo e acaba se machucando ou machucando alguém”, observa.
Nishida, que tem 1,53 metro de altura e 53 kg, reforça que o aikidô é uma arte marcial que pode ser praticada por qualquer pessoa porque os movimentos não dependem da força bruta, e sim da paciência e perseverança. Ela mesma, no entanto, teve de conviver com homens que se valiam mais da vantagem física, o que a levou a “estudar muito mais do que os outros” em sua trajetória. “Sempre pesquisei para não usar a força, e sim a técnica”, diz.
Ela também destaca a ausência da rivalidade como um diferencial. “Como não tem competição, ninguém precisa ganhar de ninguém”, afirma. Isso é um alívio para quem passou a vida inteira em ambientes corporativos e competitivos.
É o caso do comerciante Armando Oliveira Pestana, de 67 anos, praticante de aikidô. Após a perda da esposa, há dois anos, ele buscou na modalidade um “propósito de vida”. “Na verdade, você não luta com ninguém. Você harmoniza a força do seu oponente e deixa essa energia fluir”, conta.
Fernando Monteiro da Silva trocou o taekwondo pelo jiu-jítsu: “Não tenho mais a flexibilidade de antes”
Gabriel Reis/Valor
Para muitos praticantes, as artes marciais representam uma oportunidade de descoberta tardia. Depois de anos dedicados ao trabalho e à família, eles encontram um espaço para desenvolver aspectos físicos, técnicos e mentais que nunca haviam explorado com profundidade. O administrador Roberto Koichi Nakagome, de 61 anos, iniciou os treinos após se aposentar no mercado financeiro. Como muitos de sua geração, dedicou décadas ao trabalho e à família antes de encontrar tempo para uma prática regular.
“Sentia falta de usar habilidades manuais ou corporais, coisas que não desenvolvia no escritório. Respeito muito quem quer competir, mas isso não é a minha prioridade hoje. Eu faço no meu próprio ritmo”, afirma.
Se o aikidô promete serenidade, modalidades tradicionalmente mais agressivas também passam por uma forte adaptação para absorver essa demanda. No jiu-jítsu, o professor Adriano Constantino, faixa preta sexto grau, observa uma mudança expressiva no perfil de seus alunos no Espaço Dojo, no bairro Jardim Taquaral, e no Clube Paineiras, no Morumbi.
“No embalo da profissionalização e da quebra de preconceitos da modalidade nos últimos dez anos, houve um aumento significativo do número de alunos 60+ na minha rotina”, relata Constantino, que é formado em educação física e fisioterapia.
Professor há 31 anos, Constantino tem uma dezena alunos 60+ atualmente. Ao longo de sua carreira, foram dezenas de outros na mesma faixa etária, que enfrentaram o receio de não acompanhar, de cair e se machucar. Um de seus alunos seniores perdeu 15 quilos em 18 meses.
“O jiu-jítsu é altamente adaptável e mais acessível que o judô para idosos, porque a luta começa no solo, reduzindo drasticamente o impacto físico das quedas”, explica.
Ele acrescenta que a evolução dos alunos mais velhos está profundamente ligada ao histórico do desenvolvimento corporal. “Quem já fez outras atividades físicas mais novo, mesmo que comece no jiu-jítsu com 60 ou 70 anos, aprende muito mais rápido. Antigamente, esse público brincava muito mais na rua: jogava bola, pulava muro, subia em árvore... Isso tudo reflete no jiu-jítsu do aluno”, explica.
A migração de modalidades mais traumáticas para práticas de menor impacto é um padrão comum entre os praticantes veteranos. O arquiteto Fernando Monteiro da Silva, de 64 anos, trocou o taekwondo pelo jiu-jítsu justamente para evitar riscos maiores.
A gente foi feito para se movimentar, não para ficar parado no sofá”
“Não tenho mais a flexibilidade de antes para dar tantos chutes elevados. Já sofri lesões quando jovem e hoje não participo de competições porque as chances de se machucar são muito maiores do que nos treinos”, diz.
No tatame, as prioridades de Silva também mudaram. Faixa roxa, ele não tem pressa de chegar à faixa marrom (uma antes da preta) e prefere concentrar sua energia na convivência e na amizade com os colegas da academia. Depois do último treino da semana, costuma se reunir com alguns deles para comer um churrasco, tomar uma cerveja e confraternizar no bar ao lado da academia.
Para outros praticantes, o principal atrativo das artes marciais está na busca por novos desafios. É esse perfil que o professor Marcos Costa, da Cross Fight Pinheiros, encontra com frequência entre seus alunos mais velhos. Há 34 anos no mercado, o faixa preta quinto grau de caratê kyokushin argumenta que o fortalecimento físico é a base para a longevidade, sem deixar de lado o fator psicológico. “Eles já conquistaram estabilidade na vida e, quando param de trabalhar, sentem falta de um desafio estruturado. A arte marcial preenche essa lacuna”, argumenta.
Ao longo da carreira, Costa viu esse processo se repetir diversas vezes. Um de seus alunos conquistou a faixa preta aos 74 anos, depois de quase três décadas de treinamento. Outro, diagnosticado com Parkinson, precisou recomeçar do zero após uma cirurgia, entretanto recuperou a coordenação motora e voltou a avançar nas graduações.
Para o professor, histórias como essas ajudam a desmontar a percepção de que as artes marciais são um ambiente exclusivo para jovens. “O que define o progresso não é a idade, mas a constância. Quem continua treinando acaba evoluindo e pode chegar à faixa preta”, afirma.
Fumie Nishida e Armando Oliveira Pestana: o aikidô ajuda a dissolver o ego, diz a professora
Gabriel Reis/Valor
Para garantir a integridade dos alunos seniores, técnicas de alto risco, como o “ashi-barai” (chute rasteiro nas pernas), são evitadas nos treinos. “A recuperação óssea e muscular nessa idade é muito mais lenta”, aponta Costa.
Em contrapartida, ele preserva rigorosamente a filosofia japonesa do “senpai-kohai” (respeito dos mais novos aos mais velhos). No tatame, a idade e a bagagem de vida contam tanto quanto a cor da faixa, garantindo que os 60+ ocupem um lugar de prestígio e liderança intelectual no grupo.
A empresária Dinara Prestes Moreira, de 61 anos, levou o caratê muito além dos limites dos tatames - e das fronteiras brasileiras. Iniciou a modalidade após a pandemia e, no ano passado, atuou por quatro meses como voluntária ensinando a modalidade para crianças com deficiências visuais e auditivas em um orfanato no Vietnã.
“O meu sonho é um dia escrever um livro de caratê para crianças especiais. Agora a minha meta é, no final do ano, ficar uns três meses em Tóquio, Okinawa ou Osaka, no Japão, para realmente aprender as técnicas e me aprimorar”, diz.
Influenciada pela trajetória do filho desde criança no caratê, pelos filmes de samurai e pela cultura japonesa, Moreira prefere se dedicar aos “katas” (sequências de movimento que simulam um combate) em vez do “kumite” (luta). Após o início na modalidade, ela notou uma melhora na concentração e até em seus relacionamentos pessoais. “Sempre trabalhei muito, então não era muito de socializar antes. Hoje sou mais paciente e receptiva com as pessoas”, conta.
A busca por segurança urbana também impulsiona a procura por modalidades focadas em cenários reais de estresse, como o krav-magá. Na Academia Cemi, na Bela Vista, o professor Rodrigo Vergueiro Figueiredo adapta os conceitos da técnica israelense para a realidade da terceira idade, priorizando o autocontrole. “Se alguém tentar roubar seus pertences, a instrução é nunca reagir. O treino prepara para cenários extremos onde não há outra opção para preservar a integridade física”, explica.
Segundo ele, a prática trabalha dentro do princípio do realismo, desenvolvendo memória muscular para momentos de alta tensão e ensinando o aluno a compreender o ambiente ao seu redor. “Numa situação de rua, por exemplo, pode haver mais pessoas envolvidas do que aquelas que você vê à sua frente. Se for inevitável, o aluno pode executar um golpe na área sensível do agressor”, diz.
A inclusão é tamanha que sua turma conta com um aluno octogenário que, após ser rejeitado em outro centro esportivo por conta da idade, encontrou ali o espaço para se desenvolver e hoje já se prepara para o seu primeiro exame de graduação.
Maria Angélica Reis França de Oliveira (esq.): “Faço [krav-magá] para me defender dos meus medos”
Acervo pessoal
Essa busca por empoderamento tardio foi o que atraiu a dentista Maria Angélica Reis França de Oliveira, de 60 anos. Ignorando comentários desencorajadores de que seria “velha” ou “magra demais”, ela iniciou os treinos em 2021 e hoje treina cinco vezes por semana, dividindo-se entre as funções de aluna e monitora.
“Faço para me defender dos meus medos. Convivo com artrose nos punhos e sequelas de um câncer, mas o krav-magá me trouxe reflexos rápidos e autonomia. Eu já tive problemas de insônia e de quedas, mas hoje tomo poucos remédios e não caio mais na rua”, afirma ela, que recentemente correu os 15 km da tradicional Corrida de São Silvestre.
Se o krav-magá atende à urgência das ruas, o tai chi chuan surge como o ápice da prevenção e do equilíbrio interno. Na Academia de Kung Fu Zen Marcial, na Aclimação, o professor Ye Xin comanda turmas presenciais e virtuais repletas de idosos em busca de suavidade. “Muitos fogem do ambiente de exibição e repetição monótona das academias de musculação”, afirma.
Se no kung fu ele evita acrobacias, adapta saltos e agachamentos e monitora questões de equilíbrio, histórico cardíaco e problemas de coluna, o tai chi, para os mais velhos, é acessível desde o início. “É um trabalho completo, de pouco impacto e intensidade moderada. Fortalece pernas, coordenação, respiração e memória de forma artística”, explica.
Xin percebe que o maior desafio para quem nunca treinou é a adaptação física: alongamento, força e mobilidade levam algumas semanas para responder. Por isso, recomenda turmas específicas para 60+, que ajudam na motivação e criam vínculos. “Eles conversam, marcam de treinar juntos e criam amizades”, relata.
A socialização, diz, é tão importante quanto o movimento. “Muita gente de 70 e poucos anos fica muito tempo sozinha em casa. Às vezes cuidam de pais de 90 e se sentem pressionadas”, relata. Os efeitos aparecem rápido, logo nos primeiros meses de prática, segundo Xin.
Dinara Prestes Moreira: “O meu sonho é um dia escrever um livro de caratê para crianças especiais”
Acervo pessoal
Com 960 mil seguidores no Instagram e 185 mil inscritos em seu canal no YouTube, Xin aponta alguns dos ganhos com a prática: melhora postural, alívio de dores crônicas e estímulo cerebral profundo, atuando diretamente como uma barreira preventiva contra doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.
Para a aposentada Sueli Venutti, de 72 anos, a prática se tornou um divisor de águas na gestão do seu tempo e da sua saúde mental. O tai chi a ensinou a não desperdiçar horas com tarefas que nada lhe acrescentam. “Às vezes eu ia fazer alguma coisa que não era tão interessante. Agora eu uso melhor o tempo livre para algo construtivo”, diz.
Ela descreve a arte marcial como uma meditação em movimento, capaz de trabalhar a energia interna de uma forma que nenhuma outra atividade lhe ofereceu. Para ela, essa integração entre mente e corpo é o que diferencia o tai chi de práticas como pilates ou musculação, que “focam só nos músculos”.
Já com a ioga, os problemas apontados eram outros. “Eu tinha um pouco de preguiça e falta de concentração. Ela exigia um tempo maior para entrar no estado mental da prática, e isso me desmotivava. O tai chi, por ser fluido e imediato, me envolve desde o primeiro movimento”, explica.
Com o tempo, o tai chi deixou de ser apenas uma prática e se tornou parte de sua identidade. “Eu faço de tudo para não relaxar e falar: hoje não vou fazer”, afirma. Ela aprendeu que a desistência começa em pequenas concessões. “Um dia sem praticar vira dois, depois, uma semana, e quando a gente percebe, já passou um ano”, conta.
Venutti resume o espírito que hoje move centenas de idosos: “Primeiro tem que perder a vergonha do novo e pensar na saúde. A gente foi feito para se movimentar, não para ficar parado no sofá”.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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