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Indústria siderúrgica negocia plano semelhante ao do setor químico

André Gerdau Johannpeter (esq.) e Marco Polo de Mello Lopes, do Aço Brasil: mercado interno tem andado de lado

Valor Econômico6 min de leitura
Indústria siderúrgica negocia plano semelhante ao do setor químico

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Divulgação

No livro “As viagens de Marco Polo”, escrito no fim do século XIII, as histórias do comerciante veneziano sobre os 17 anos em que percorreu a Ásia revelavam ao Ocidente as riquezas e inovações da China e traziam recomendações aos que se aventurassem pela Rota da Seda. Entre elas, a de que os viajantes deveriam se manter unidos para enfrentar trechos difíceis e o risco de ataques ao longo do caminho. Passados mais de sete séculos, alguns dos maiores grupos de siderurgia do Brasil - Gerdau, Usiminas, ArcelorMittal Brasil e Aperam South America - também se unem diante dos efeitos da “Nova Rota da Seda”, como é conhecida a estratégia de política externa lançada pela China em 2013, que já mobilizou mais de US$ 1 trilhão em projetos de infraestrutura.

Isso porque a Iniciativa Cinturão e Rota, nome oficial da Nova Rota da Seda, tem ajudado a escoar o excesso de produção de aço da China. No ano passado, 52% de todo o aço produzido no mundo, o equivalente a 961 milhões de toneladas, foi fabricado no país asiático. O Brasil tem sido inundado nos últimos anos por aço chinês, apesar de estar com mais de um terço da sua capacidade de produção ociosa. O governo federal voltou a elevar os impostos de importação sobre o aço, que haviam sido reduzidos durante a gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022). Agora, os empresários e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) negociam um plano de socorro ao setor, o ProAço.

A ideia é criar um projeto semelhante ao Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), que concede créditos financeiros e benefícios tributários à indústria química. Com isso, o setor ganharia linhas de incentivo para adquirir matérias-primas. “Indústrias de base necessitam desse tipo de apoio”, diz Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, que reúne as siderúrgicas. Segundo ele, a proposta está em discussão na Secretaria de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços.

Durante o 37º Congresso do Instituto Aço Brasil, promovido no fim de setembro em São Paulo, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, se mostrou favorável ao programa. “Podemos trabalhar juntos para fortalecer uma indústria estratégica, como a siderúrgica”, disse Alckmin no evento, do qual participou por videoconferência.

Até agora, o governo brasileiro adotou um modelo híbrido de tarifa-cota e medidas de defesa comercial (antidumping) para regular a importação de aço. O produto importado paga alíquotas que variam entre 10,8% e 12%. Se o volume ultrapassar o limite estabelecido para aquele período, o Imposto de Importação salta automaticamente para 25%. Também foram estabelecidas tarifas antidumping definitivas contra o aço pré-pintado de concorrentes asiáticos.

Podemos trabalhar juntos para fortalecer uma indústria estratégica, como a siderúrgica”

As medidas se tornaram ainda mais urgentes após o tarifaço imposto pelo presidente americano Donald Trump. Com os portos dos Estados Unidos blindados pela tarifa de 50%, grandes produtores globais como a China e outras nações do Sudeste Asiático redirecionaram seus excedentes de produção para mercados como o Brasil. Grandes siderúrgicas que têm plantas nos Estados Unidos, a exemplo de Gerdau e ArcelorMittal, porém, não foram impactadas diretamente pelo tarifaço.

Em 2025, o país atingiu um recorde de importação de 5,7 milhões de toneladas de aço laminado, a maior marca desde 2010. Mais de 60% desse total veio da China. A previsão do instituto para 2026 é que o ano termine no patamar de 4,9 milhões de toneladas. Outras 7,2 milhões de toneladas devem ser importadas de maneira indireta, por meio do aço contido em bens, a exemplo de carros, autopeças, eletrodomésticos e maquinário para a construção civil, segundo estimativas do Aço Brasil.

Este ano, tanto a produção de aço bruto, prevista em 33,4 milhões de toneladas, quanto a venda interna, de 21,3 milhões de toneladas, devem ficar estáveis em relação a 2025. As importações totais caem 13% (para 5,5 milhões de toneladas), enquanto as importações de aço laminado recuam 15% (4,9 milhões). Já o consumo aparente - que são as vendas internas somadas à importação, por distribuidores e consumidores - deve ser reduzido em 2,7%, para 26 milhões de toneladas.

“O mercado doméstico tem andado de lado nos últimos anos”, diz André Gerdau Johannpeter, presidente do conselho diretor do Aço Brasil e presidente do conselho de administração da Gerdau. “O desafio é ter produtos fabricados no Brasil, com aço brasileiro, garantindo a competitividade da cadeia metal-mecânica, da qual somos a base”.

Para isso, diz, uma das medidas que o instituto defende é atacar o custo Brasil. Um exemplo é o preço do gás natural: o valor de US$ 15 a US$ 16/MMBtu (unidade de medida de energia que significa milhão de Unidades Térmicas Britânicas) cobrado no país é considerado muito elevado em comparação ao dos Estados Unidos, onde o insumo custa entre US$ 3 e US$ 3,50/MMBtu.

As siderúrgicas brasileiras não descartam se tornarem fornecedoras dos chineses no país

Na opinião do economista Otávio Faria, analista setorial da consultoria Lafis, é importante que a indústria siderúrgica aproveite para investir em aumento de produtividade e modernização das plantas fabris a fim de criar alternativas para o produto brasileiro competir no mercado externo.

“A capacidade instalada do setor se manteve estável em 51 milhões de toneladas ao ano entre 2020 e 2025, enquanto os investimentos vieram em uma linha crescente até 2024”, diz. Por outro lado, a queda no número de trabalhadores desde 2022 sugere que estes recursos foram direcionados à automação das funções, o que aumenta a competitividade.

Faria sugere que o Brasil invista em aço verde, produzido com baixas emissões de carbono, aproveitando a tendência global de descarbonização. Ele vê a Europa como o maior mercado potencial para esse tipo de produto.

A despeito das dinâmicas geopolíticas, as siderúrgicas brasileiras não descartam a possibilidade de se tornarem fornecedoras dos chineses no país, como montadoras e fabricantes de eletrodomésticos. “Não somos inimigos deles”, afirma Gerdau.

Marco Polo de Mello Lopes concorda. “Eu admiro a China, eles investem em alta tecnologia e são exigentes no controle do impacto ambiental”, diz ele, batizado com o nome do explorador veneziano por vontade do pai, um oficial da Marinha. “Mas a China não pode parar de produzir e, se não consome tudo, exporta com altos subsídios do governo.”

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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