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Personal descobre que aluna estava grávida de cinco meses durante treino de elevação pélvica

Personal descobre gravidez de aluna de cinco meses em plena elevação pélvica

G18 min de leitura
Personal descobre que aluna estava grávida de cinco meses durante treino de elevação pélvica

Trecho

A pergunta que a personal trainer Geisi Costa repetia à aluna havia meses ganhou resposta durante um treino de elevação pélvica: Cauany Rizzo, de 27 anos, estava grávida de cerca de cinco meses.

Influenciadora e dona de uma empresa de marketing, Cauany não apenas ignorava a gestação como estava convencida de que jamais engravidaria. A cena foi registrada em vídeo e publicada em suas redes sociais.

A convicção vinha do histórico clínico. Desde a primeira menstruação, os ciclos eram raros, de no máximo duas vezes por ano. Cauany usou anticoncepcional injetável e, depois, o dispositivo intrauterino (DIU) hormonal, e ouviu de médicos, em consultas ginecológicas, que seus ovários eram muito pequenos, atrofiados.

“Sempre me disseram que eu não engravidaria, e passei a vida acreditando nisso”, afirma.

A influenciadora Cauany Rizzo, 27

Arquivo Pessoal

Dores, cansaço e diagnósticos

Nos últimos meses, o corpo de Cauany mudou de um jeito que ela leu como doença. Surgiram dores que migravam da lombar para a cervical, o trapézio, o cotovelo e o pé, além de sono excessivo, enjoo, tontura, esquecimento, irritação e dor nos seios.

Ela passou por ortopedista, cirurgião plástico, fisioterapeuta, psicólogo, psiquiatra e ginecologista, fez ressonância magnética e exames de sangue, e recorreu à acupuntura e à quiropraxia. Recebeu o diagnóstico de fibromialgia, passou a tomar medicamentos para dor e para depressão e repôs ferro depois que um exame apontou anemia.

Segundo ela, nenhum profissional pediu o beta-HCG, exame de sangue que mede a gonadotrofina coriônica humana, hormônio produzido na gravidez.

“Cheguei a achar que estava ficando maluca, porque a dor mudava de lugar o tempo todo”, conta.

Quem enxergou a gestação foi Geisi, que atende gestantes há anos e conhece Cauany desde a adolescência. Ela notou o quadril ganhando outro formato, o rosto inchado, os seios maiores, o humor instável, as câimbras e uma sonolência incomum em quem antes dormia pouco.

A personal insistiu por meses para que a aluna fizesse um teste de gravidez, e a resposta era sempre a mesma: convicta de que era infértil, Cauany descartava qualquer chance. Houve uma exceção logo no início da gestação, quando a dúvida a levou a recorrer a um exame de farmácia. O resultado foi negativo, e a possibilidade foi posta de lado.

Sem contar a suspeita à aluna, Geisi trocou os treinos por exercícios de fortalecimento lombar e equilíbrio e, por fim, avisou que só voltaria a treiná-la depois de um novo teste.

A personal trainer Geisi (à esq.) e Cauany (à dir).

Arquivo Pessoal

O que o corpo grávido mostra

A ginecologista Ana Carolina Romanini, especialista em obstetrícia e endoscopia ginecológica pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), não atendeu Cauany e analisou o caso a partir do relato e do vídeo. Ela explica que as mudanças descritas pela personal são típicas da gestação.

O volume de sangue aumenta cerca de 50% ao longo da gravidez, segundo o Manual MSD, e o coração passa a bombear de 30% a 50% mais sangue por minuto.

O útero em crescimento comprime a veia cava, que devolve ao coração o sangue da parte inferior do corpo, o que reduz o retorno venoso e favorece o inchaço, inclusive no rosto.

Deitada de barriga para cima, como na elevação pélvica, a compressão tende a ser maior e pode reduzir ainda mais esse retorno, com queda da pressão arterial.

A progesterona, principal hormônio da gravidez, faz o corpo reter líquido e provoca sono, num organismo que já gasta mais calorias por causa do metabolismo acelerado. O cansaço tende a ser mais intenso nas primeiras 14 semanas.

Ao mesmo tempo, ligamentos e articulações da pelve ficam mais frouxos, o que permite que a bacia se abra para acomodar o bebê, e a cintura se perde com o crescimento do útero. Estimuladas pelos hormônios, as mamas ficam maiores e mais sensíveis já nas primeiras semanas, em preparação para a amamentação.

A barriga, porém, é o sinal mais imprevisível. Por volta da 12ª semana, o abdômen começa a ficar levemente protuberante e, com 20 semanas, o útero chega à altura do umbigo, mas em primeiras gestações a barriga costuma demorar a aparecer.

Com cerca de 20 semanas, idade gestacional estimada para Cauany, um leve abaulamento durante um exercício como a elevação pélvica pode ser a única pista visível.

A pontada que ela descreveu na hora do treino, diferente da cólica menstrual, também tem explicação. Nessa fase, o útero em crescimento distende os ligamentos redondos, que o sustentam, e a dor no baixo-ventre pode irradiar para as pernas.

O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas associa o incômodo ao segundo trimestre, e o serviço público de saúde britânico, o National Health Service, o descreve como uma pontada aguda de um lado do baixo-ventre, em geral inofensiva quando leve e passageira, que alivia com repouso ou mudança de posição.

Se a dor persiste por mais de 30 a 60 minutos, ou vem acompanhada de sangramento, contrações regulares, dor nas costas ou sintomas urinários, é preciso buscar atendimento imediato.

Por que gravidez passou despercebida

Gestações reconhecidas só na segunda metade do período são raras, mas documentadas. Um estudo prospectivo conduzido em Berlim e publicado em 2002 na revista Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica estimou que uma em cada 475 gestações só foi percebida a partir da 20ª semana, e uma em cada 2.455 só foi descoberta no parto. No caso de Cauany, o ciclo irregular tirou de cena o sinal que costuma acender a suspeita: o atraso da menstruação.

Mulheres com ciclos irregulares podem ter a síndrome ovariana metabólica poliendócrina, nome adotado em 2026 para a antiga síndrome dos ovários policísticos, condição em que alterações hormonais e metabólicas podem impedir a ovulação e, às vezes, exigir indução para engravidar.

Ainda assim, segundo a médica, quem menstrua duas vezes por ano ovula, em tese, duas vezes por ano, e basta uma dessas ovulações para engravidar.

Os ovários pequenos tampouco indicam infertilidade: com hormônio vindo de fora, como no anticoncepcional, o órgão deixa de produzir os seus e diminui, voltando ao tamanho original quando a ovulação é retomada.

Em mulheres jovens, a redução por falência de função, como na menopausa precoce, é confirmada pela dosagem hormonal e pela parada da menstruação, não pelo tamanho do órgão.

O teste de farmácia que Cauany fez no início da gestação, entre três e cinco meses atrás, deu negativo. Esses testes só detectam o beta-HCG acima de determinado limite, e numa gestação muito inicial a concentração pode não tê-lo alcançado.

“Teste positivo não deixa dúvida, mas o negativo não permite afirmar que a mulher não está grávida”, resume a médica.

O recomendado seria repetir o teste uma ou duas semanas depois ou recorrer ao exame de sangue, capaz de identificar concentrações menores. O hormônio sustenta a gestação até por volta da 14ª semana, quando a placenta assume, e depois seus níveis caem.

Para Romanini, toda mulher em idade fértil sem menstruação deve ter o beta-HCG solicitado, e, como dor, cansaço, enjoo, tontura e mudança de humor surgem na gravidez sem serem exclusivos dela, a gestação deve ser a primeira hipótese a considerar.

Medicamentos e treino

Ao descobrir a gravidez, a maior preocupação de Cauany foi o efeito dos remédios que tomou. Ela usou desvenlafaxina, antidepressivo que ainda retira de forma gradual por causa do risco de dependência, além de analgésicos fortes, e passou a temer malformações depois de ler sobre os medicamentos.

A ginecologista explica que, de modo geral, os remédios são contraindicados na gestação porque não se testam fármacos em grávidas e faltam estudos, o que não significa dano comprovado.

Os treinos preocupam menos. Para uma mulher saudável, habituada à atividade física e com gestação evoluindo bem, não há contraindicação, diz a médica. Geisi lembra que o peso de Cauany se manteve controlado e que a rotina sempre priorizou postura e fortalecimento da lombar. Daqui em diante, os exercícios com a barriga para baixo ou que pressionam o abdômen saem da programação.

Já a ultrassonografia morfológica do primeiro trimestre, feita entre a 10ª e a 14ª semana para avaliar malformações e medir a translucência nucal, marcador associado à síndrome de Down, não foi realizada e não pode ser recuperada.

Com cerca de 20 semanas, o caminho é um pré-natal rigoroso, com a morfológica do segundo trimestre e um ecocardiograma fetal para examinar o coração do bebê. Ela ainda procura vaga com um obstetra para o pré-natal.

Para a ginecologista, o caso é raro, mas possível: a gravidez provoca tantas alterações que, num organismo acostumado a ciclos irregulares e ao uso de anticoncepcionais, elas podem ser atribuídas a outras causas.

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Matéria publicada por G1. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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