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Transformação tecnológica eleva régua da qualificação no setor siderúrgico

Mercado valoriza quem conhece a operação e sabe usar dados, diz Souza

Valor Econômico5 min de leitura
Transformação tecnológica eleva régua da qualificação no setor siderúrgico

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Divulgação

A siderurgia brasileira enfrenta um gargalo de mão de obra que já não pode ser medido apenas pela disponibilidade de trabalhadores. A transformação tecnológica das usinas - com automação, digitalização, análise de dados e inteligência artificial - elevou a régua de qualificação em um setor que convive com o envelhecimento da força de trabalho e a dificuldade de atrair jovens para as carreiras industriais. A demanda é por pessoas que combinem formação técnica, experiência prática e domínio das novas tecnologias.

A dificuldade está, sobretudo, na atração e retenção de especialistas e na aproximação das novas gerações com a indústria, diz Ivani Silveira, vice-presidente de RH da Ternium Brasil. “Mais do que buscar profissionais prontos no mercado, precisamos investir na formação de talentos e fortalecer cada vez mais a conexão entre a indústria, as escolas técnicas e as universidades”, afirma.

A tecnologia tornou esse movimento mais urgente. Automação, digitalização, análise de dados e inteligência artificial interferem na produção. “O profissional deixa de ser apenas quem executa uma atividade e passa, cada vez mais, a interagir com sistemas inteligentes, fornecendo contexto, analisando informações, validando resultados e tomando decisões”, diz Silveira.

Na Ternium, automação, instrumentação, manutenção industrial e inspeção técnica estão entre as áreas em que encontrar profissionais prontos é mais difícil. “O profissional do futuro precisará estar preparado para aprender, desaprender e reaprender ao longo de toda a sua trajetória”, avalia.

Na Usiminas, siderúrgica com forte demanda por mão de obra técnica, a questão envolve o envelhecimento da força de trabalho e a menor procura dos jovens por carreiras industriais. Maite Arriola, diretora de gestão de talentos da companhia, aponta dificuldades principalmente em funções operacionais, de manutenção e engenharia. Mecânicos, eletricistas, instrumentistas, técnicos de manutenção e operadores altamente qualificados estão entre os perfis mais raros. “Antes da escassez de competências digitais, ainda enfrentamos uma escassez de competências técnicas básicas para sustentar a operação industrial”, diz ela.

A constatação ajuda a explicar por que a resposta das empresas não se limita ao recrutamento. Programas de trainee, estágio, jovem aprendiz e capacitação técnica, além de parcerias com escolas e universidades, funcionam na Usiminas como mecanismos de formação. “O desafio não é apenas preencher vagas. É inspirar, atrair, formar e desenvolver a próxima geração de profissionais que garantirá a competitividade da indústria brasileira nas próximas década”, avalia Arriola.

A necessidade de diminuir o descompasso da educação profissional ocorre em um setor com potencial de expansão. O Instituto Aço Brasil, entidade que representa 15 empresas privadas, controladas por 11 grupos empresariais e responsáveis por 31 usinas em dez Estados, informa que o segmento produziu 33,3 milhões de toneladas de aço bruto em 2025. Para Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do instituto, a retomada da produção poderia se traduzir em mais empregos. “Hoje, o setor emprega cerca de 116 mil pessoas diretamente no país e tem potencial para ampliar essa contribuição. Nossas estimativas mostram que a redução das importações diretas e indiretas e o aumento da produção nacional podem gerar quase 20 mil novos empregos diretos”, afirma o dirigente.

Na formação de mão de obra, o Senai-SP registrou demanda elevada por especialistas em manutenção e montagem de máquinas, caldeiraria e estruturas metálicas, além de trabalhadores ligados a motores e equipamentos eletroeletrônicos. Em 2025, formou 20.686 profissionais para essas áreas. “O profissional que entra hoje em uma usina precisa, antes de tudo, dominar processos metalúrgicos, segurança, qualidade, leitura de desenho técnico e operação ou manutenção de equipamentos”, elenca Marcello Souza, gerente de relacionamento com o mercado do Senai-SP.

Enfrentamos uma escassez de competências técnicas básicas”

Robótica e inteligência artificial ainda começam a despontar também como requisitos emergentes, que devem continuar ganhando espaço, sobretudo para viabilizar aplicações como manutenção preditiva de máquinas, inspeção e controle de qualidade e inteligência operacional para otimização de processos industriais. “O perfil mais valorizado é híbrido: conhece a operação e sabe usar dados e sistemas para decidir melhor”, informa Souza.

Consultorias de recrutamento captaram essas mudanças. Para Vitor Silva, diretor de mercado da Robert Half, os perfis mais disputados são aqueles que combinam domínio técnico do processo com capacidade de gestão e leitura de dados. “Encontrar essas duas dimensões no mesmo profissional é o principal desafio”, atesta. Para ele, a automação está mudando muito mais o tipo de vaga do que a quantidade de postos disponíveis.

Em sua avaliação, atividades repetitivas e inspeções visuais tendem a perder espaço, enquanto crescem as demandas por especialistas capazes de interpretar dados, analisar históricos de falhas, trabalhar com estatística e utilizar ferramentas como Power BI. Outra constatação de Silva é que cresceu o peso das competências comportamentais, principalmente a comunicação com áreas não técnicas e a capacidade de conduzir mudanças.

Rodrigo Videira, diretor associado da Michael Page, traz dados para esse diagnóstico. O estudo Talent Trends 2026, realizado pela consultoria, aponta que 73% das organizações enfrentam dificuldades para contratar por falta de profissionais qualificados. “Tenho trabalhado há anos muito próximo de empresas industriais e, especificamente, em posições ligadas à engenharia, manufatura, operações e supply chain, e o que percebemos é que a dificuldade não está necessariamente em encontrar profissionais, mas em encontrar profissionais que reúnam a profundidade técnica necessária com experiência prática e capacidade de atuar em ambientes cada vez mais complexos”, diz Videira.

Além da formação técnica, as empresas buscam experiência prática, capacidade de lidar com mudanças, liderança e domínio de novas ferramentas. “O líder não precisa necessariamente ser o maior especialista em tecnologia da planta, mas precisa entender como essas ferramentas podem transformar a operação e, principalmente, saber fazer as perguntas certas, interpretar os indicadores e conectar tecnologia com resultado. A liderança passa a ter um papel ainda maior na integração entre pessoas, processos, tecnologia e produtividade”, diz o diretor.

Para as empresas, isso reforça a necessidade de combinar contratação externa com desenvolvimento interno, sobretudo em funções nas quais é improvável encontrar no mercado alguém que reúna, de imediato, todas as competências modernas exigidas.

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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