Irã caça dissidentes dentro e fora do país em uma nova era de repressão
Membros das forças de milícia iranianas (Basij), que auxiliam o aparato estatal na repressão a dissidentes, fazem uma marcha com motocicletas em Teerã

Trecho
Majid Asgaripour/Wana via Reuters
O governo do Irã resistiu a meses de ataques dos Estados Unidos e Israel, mas seus esforços de resistência não se limitaram ao campo de batalha. O repressivo aparato jurídico e de segurança da República Islâmica vem caçando dissidentes iranianos dentro e fora de suas fronteiras. Na TV e na internet, o preço de se fazer oposição ao regime é exibido de forma incessante na mídia estatal. Muitos iranianos dizem que a tática do regime está funcionando: pessoas que se sentem tentadas a ir às ruas estão paralisadas de medo.
Semanas após o início da guerra no Irã, no ápice dos bombardeios dos EUA e de Israel ao país, um estudante de engenharia de 21 anos foi chamado para ser interrogado. Antes, Pouriya já havia passado dias na cadeia por filmar alguns recentes protestos de rua em sua cidade natal. Agora, em março, os investigadores o acusavam de ter participado da morte de um funcionário do governo.
Em Istambul, outra estudante, Zahra, uma iraniana com um modesto número de seguidores nas redes sociais, recebia telefonemas em pânico de sua casa no país natal. Oficiais de inteligência ameaçavam deter sua mãe por publicações de Zahra no Instagram. Depois, os agentes ainda iriam à casa várias vezes, para mandar recados à jovem por meio de seus familiares no Irã, acusando-a de trabalhar com os inimigos do país para incitar problemas dentro de suas fronteiras.
E, no nordeste do Irã, as forças de segurança arrastaram um adolescente de 15 anos para fora da cama, prendendo-o por participar dos protestos. Na ocasião seguinte em que foi visto, Abbas Nio Bajizahi estava com uma venda nos olhos, em um vídeo com imagens desfocadas de uma confissão forçada.
Em janeiro, dezenas de milhares de iranianos haviam protestado contra a crise econômica que atribuíam ao governo. Passados nove meses dessas manifestações, o país testemunha a repressão mais feroz em décadas, segundo entrevistas com mais de 75 especialistas em direitos humanos, advogados e cidadãos comuns iranianos.
Regime acredita que deve adotar medidas de guerra em diferentes fronts”
EUA e Israel informaram ter atingido ao menos 17 delegacias de polícia, bases militares e escritórios de inteligência encarregados de esmagar os protestos de janeiro. No entanto, o aparato de segurança do Irã parece entrincheirado e mais forte do que nunca.
O presidente dos EUA, Donald Trump, havia encorajado os cidadãos iranianos a “continuar protestando” e prometido, em janeiro, que a ajuda estava a caminho. Desde então, dezenas de iranianos que foram às ruas foram acusados de traição por suposta cooperação com os inimigos do Irã. Ao menos 34 pessoas foram executadas por participarem dos protestos de janeiro e milhares foram presas.
Uma análise da Reuters de casos envolvendo manifestantes sinaliza a existência de uma campanha coordenada do aparato de segurança, do Judiciário e da TV estatal do Irã para instilar um clima de medo. Dentro do Irã, a campanha é realizada por meio de processos a portas fechadas, de julgamentos em massa e de execuções definidas em rápidos processos, que são anunciadas on line e na TV.
O aparato de segurança do Irã também consegue ir além das fronteiras para atingir iranianos que protestaram no exílio. Entrevistas com dezenas de iranianos na Armênia, Turquia e Geórgia revelam como Teerã vem reprimindo a oposição no exterior por meio de ameaças a familiares no Irã, cancelamento de passaportes e da negação de serviços consulares.
“Este é um dos períodos mais sombrios da história iraniana contemporânea”, disse Sina Yousefi, um advogado especialista em direitos humanos que hoje mora na Alemanha. Ele foi preso em 2022 depois de formar um conselho para defender manifestantes durante o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, desencadeado pela morte de uma mulher curda detida pela polícia da moralidade por infringir o código de vestimenta feminino do Irã.
“Os tribunais, que foram criados para fazer justiça, agora estão sendo usados como instrumentos de repressão”, disse Yousefi. “As instituições de poder se uniram e deram as mãos para fazer isso.”
Desde a eclosão dos protestos em janeiro, a Reuters examinou como a liderança do Irã sobreviveu a meses de bombardeios das Forças Armadas mais poderosas do mundo e a anos de sanções punitivas, graças a uma combinação de repressão e a uma rede de estruturas financeiras obscuras. Investigações revelaram como o Irã explora mercados de criptomoedas e redes ilegais de apostas para ter acesso a receitas ilícitas e contornar sanções. Também mostraram como a Guarda Revolucionária Islâmica consolidou o controle do Estreito de Ormuz e como o país ajudou a campanha de bombardeios da junta militar de Mianmar a alvos civis.
A Reuters omitiu os nomes completos da maioria das pessoas entrevistadas sobre a repressão interna no Irã, pois elas correm o risco de prisão por falar com a imprensa internacional. Nem todos os detalhes descritos por Pouriya, Zahra e outros puderam ser confirmados, mas seus relatos, feitos em entrevistas separadas, são coerentes com as demais informações sobre a campanha do governo para silenciar a dissidência.
Os protestos mais recentes no Irã começaram em 28 de dezembro de 2025, depois de a moeda despencar para o que era, então, a pior cotação da história. Assolados por anos de sanções e má gestão econômica, os comerciantes do Grande Bazar de Teerã entraram em greve diante dessa desvalorização. Milhares de cidadãos em todo o país se juntaram, pedindo uma mudança de regime.
Zahra (nome fictício) diz que agentes ameaçaram sua família após postagens
Stelios Misinas/Reuters
Em poucos dias, as manifestações chegaram à cidade do estudante Pouriya. Ele foi detido pela primeira vez em 31 de dezembro enquanto filmava os protestos depois que um agente à paisana o agarrou. Ele foi liberado depois de assinar um compromisso de não fazer mais dessas filmagens. Dois dias depois, Pouriya voltou a ser detido enquanto filmava com seu celular.
Pouriya, que com seu cabelo escuro e desgrenhado parece ser mais jovem do que seus 21 anos, passou seis noites na prisão. Foi espancado durante interrogatórios e acusado de espionagem. Disse ter dividido uma cela com manifestantes feridos - dois com costelas quebradas e outro cuja perna tinha uma grave queimadura, causada por um cartucho de gás lacrimogêneo disparado contra uma multidão. Nenhum dos feridos foi levado ao hospital, segundo Pouriya. Uma vez libertado, Pouriya descreveu ter feito uma caminhada atordoada, sozinho, por sua cidade natal.
Enquanto ele estava na prisão, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, a força conhecida como IRGC que é encarregada das operações de segurança tanto internas quanto externas da República Islâmica, desencadeou uma repressão em todo o país. A polícia e as milícias locais conhecidas como Basij abriram fogo contra as multidões.
Na noite de 8 de janeiro, o governo cortou a internet e as redes de telefonia móvel. Naquela noite e na seguinte, houve milhares de mortes. No total, a Agência de Notícias dos Ativistas de Direitos Humanos, que tem sede nos EUA, documentou 6.488 mortes de manifestantes e 25.846 feridos em mais de 200 cidades. A Reuters não pôde confirmar de forma independente os números, que, em grande parte, foram corroborados por contagens de outras organizações de direitos humanos.
Na manhã de 8 de janeiro, a iraniana Zahra, que estuda em uma faculdade em Istambul, abriu seu telefone e viu dezenas de ligações perdidas e mensagens não lidas de sua família e amigos no Irã. Ela tentou responder, mas não conseguia completar as ligações de volta. Ela sentiu o estômago gelar.
Zahra marchou nos protestos de 2022, mas deixou sua casa, na região central, do Irã, em 2024. Ela raramente discutia política depois de ter se mudado para a Turquia. No Instagram, a maioria de suas publicações era de vídeos dela mesmo fazendo dancinhas ou sincronia labial de músicas.
Tudo mudou em novembro de 2025, quando estranhos no Irã começaram a lhe enviar mensagens, descrevendo as dificuldades financeiras pelas quais passavam. Zahra compartilhou as histórias deles on line e publicou seu apoio ao último xá do Irã, cujo governo foi derrubado em 1979 na Revolução Islâmica.
Um dia depois da violenta repressão aos protestos, agentes de inteligência locais visitaram o pai de Zahra em sua casa na região central do Irã. “Eles disseram a ele: ‘Você precisa dizer a ela que ela precisa parar de postar’”, conta.
Para muitos iranianos que vivem no exterior, as semanas prévias aos protestos pelo país em janeiro trouxeram esperança. Na Turquia, Armênia e Geórgia, países com grandes populações da diáspora iraniana, pessoas como Zahra, com pouca experiência em ativismo político, publicaram mostras de apoio aos manifestantes nas redes sociais e tentaram organizar seus próprios encontros no exterior. Esses primeiros protestos internacionais tiveram ampla cobertura. Em contraste com os iranianos em seu país, a maioria dos participantes não cobriu os rostos.
Pouriya, o estudante de engenharia, voltou a ser convocado para um interrogatório em março. Agentes de inteligência o acusaram de causar a morte de um funcionário do governo que havia sido morto nos protestos durante os seis dias em que Pouriya esteve preso. Ele soube da sentença três semanas depois. “Eles me deram seis anos: um ano por propaganda contra o sistema e cinco anos por perturbação da paz e causar comoção”, disse Pouriya, que deixou o Irã depois de ser liberado sob fiança.
Desde março, pelo menos 34 manifestantes foram executados em conexão com a mais recente revolta, segundo a ONU e grupos de direitos humanos. Em contraste, ao longo de um período de quatro anos, 15 pessoas foram executadas relacionadas aos protestos de 2022. Das mais de 560 execuções anunciadas até meados de setembro, mais de 10% envolveram prisioneiros políticos, segundo Mahmood Amiry-Moghaddam, da Iran Human Rights, uma organização que documenta as penas de morte desde 2007. Em décadas anteriores, disse ele, as execuções por crimes políticos representavam de 3% a 5% do número total de pessoas mortas. A Reuters não pôde confirmar sua análise de forma independente.
Elementos linha-dura da República Islâmica veem o conflito atual como uma “guerra híbrida”, que requer operações tanto externas quanto internas. “Eles realmente acreditam que esta é uma guerra sendo travada em diferentes fronts, e que medidas de ‘tempos de guerra’ precisam ser aplicadas em todos esses diferentes fronts também”, disse Hamidreza Azizi, analista em Irã no International Crisis Group.
Desde janeiro, autoridades têm dado ênfase às mortes de integrantes de suas forças de segurança durante as manifestações e tachado os manifestantes como colaboradores dos EUA e de Israel. Em um relatório de 27 de julho, uma comissão de especialistas da ONU observou que 12 réus em um caso foram condenados à morte em uma única audiência em um tribunal fechado, sem que tenha ficado claro a responsabilidade individual de cada réu, fora dos padrões de um julgamento justo.
Se os investigadores tivessem evidências sólidas de assassinato, esses casos teriam sido tratados por tribunais penais e as evidências visuais estariam por toda parte nas redes de comunicação estatais, disse Roya Boroumand, diretora-executiva do Centro Abdorrahman Boroumand para Direitos Humanos no Irã, que tem sede nos EUA.
A TV estatal do Irã e o veículo de mídia do Judiciário colaboram de perto na divulgação de supostos casos de crimes políticos, segundo Nahid Siamdoust, professora de mídia e estudos do Oriente Médio na Universidade do Texas. A Reuters constatou que os dois veículos costumam publicar em conjunto.
“A TV estatal realmente se tornou mais extrema, e mais um espaço da facção mais conservadora que atende ao segmento mais linha-dura da população”, disse Siamdoust. “Eles pegam partes da história que são críveis, ou que podem até ser reais, e então simplesmente constroem um castelo inteiro a partir de uma pedrinha.” (Tradução de Sabino Ahumada)
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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