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FMI aponta ‘resiliência notável’ da economia global, mas alerta para riscos associados a dívidas e inflação

A economia global tem demonstrado uma resiliência notável diante do pior choque energético em décadas. No entanto, se os custos de financiamento e a inflação não forem contidos, paira a ameaça de uma desaceleração acentuada, afirmou o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Valor Econômico5 min de leitura
FMI aponta ‘resiliência notável’ da economia global, mas alerta para riscos associados a dívidas e inflação

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Em seu mais recente relatório Perspectiva Econômica Mundial, o FMI manteve sua previsão base de crescimento global em 3,1% para este ano. Embora o índice seja inferior aos 3,5% projetados para 2025, ainda representa um resultado relativamente sólido, considerando a turbulência no mercado de energia desencadeada pela guerra no Oriente Médio.

Nesse cenário — fundamentado em premissas como a normalização gradual dos fluxos de energia —, a economia dos EUA cresceria 2,3% tanto em 2026 quanto em 2027, mantendo-se estável em relação ao ano passado graças ao consumo privado, à política fiscal e aos investimentos em tecnologia.

As projeções para a zona do euro e o Reino Unido também permanecem, em grande parte, estáveis. A inflação global (índice geral) deve atingir 4,7% este ano — mesmo patamar previsto pelo FMI em julho, mas acima dos 4,1% registrados no ano passado.

Contudo, o FMI alertou que, caso a guerra se prolongue, elevando ainda mais os preços das commodities e os custos de financiamento, o crescimento global será significativamente menor e a inflação, muito mais alta.

Os custos de financiamento subiram acentuadamente nas economias avançadas, a dívida pública atingiu níveis recorde e as margens de manobra fiscal foram reduzidas por uma sucessão de crises, afirmou Silvana Tenreyro, economista-chefe do FMI.

"A economia global poderá, em breve, testar os limites de sua resiliência", disse ela.

Se a perda de credibilidade fiscal e monetária nas principais economias coincidir com preços mais elevados de commodities, o FMI prevê que o crescimento global sofreria uma redução de 0,2 e 0,5 ponto percentual em 2026 e 2027, respectivamente.

Cerca de dois terços desse impacto decorreriam da perturbação duradoura nos mercados de petróleo e gás, à medida que a disparada das contas de energia corrói o poder de compra das famílias e os investimentos empresariais. Energia mais cara também seria responsável pela maior parte da aceleração da inflação, projetada para ficar 1,1 ponto percentual mais alta em 2027.

"Para evitar tal cenário, os níveis de dívida pública precisam ser recolocados em uma trajetória de sustentabilidade duradoura", disse Tenreyro.

As autoridades econômicas devem conter os riscos imediatos decorrentes da inflação, da dívida e da fragilidade financeira, afirmou o FMI, ressaltando a necessidade de reduzir o endividamento para garantir capacidade de apoiar a economia em caso de choques futuros.

"Diante da dívida elevada, da alta nos rendimentos dos títulos soberanos e das necessidades prementes de gastos, renovar o foco na recomposição do espaço fiscal torna-se cada vez mais urgente", acrescentou a instituição.

Enquanto isso, a política monetária deve manter-se firmemente voltada para a estabilização dos preços.

As taxas de juros precisam ser suficientemente restritivas para trazer a inflação de volta à meta em tempo hábil; caso o aumento dos preços das commodities e os investimentos em tecnologia intensifiquem as pressões de custos, os bancos centrais precisarão endurecer ainda mais a política monetária, disse Tenreyro.

Os mercados já se preparam para novos aumentos de juros nos próximos meses, à medida que o petróleo retorna ao patamar de US$ 100 o barril, os rendimentos dos títulos permanecem em máximas de várias décadas e as expectativas de um desfecho rápido para a crise com o Irã diminuem.

O “boom” de investimentos em IA protegeu partes da economia global contra os preços mais altos de energia, mas não alcançou muitos outros países, que estão mais expostos ao custo total do conflito entre EUA e Irã.

Segundo o FMI, 32 economias respondem agora por 95% do crescimento global, em comparação com 54 na edição de abril do relatório. As revisões para baixo nas previsões são mais generalizadas, atingindo cerca de 47% das economias.

"A economia global não está simplesmente desacelerando ou acelerando; o crescimento está sendo realocado entre os países com base em sua exposição ao choque de oferta provocado pela guerra e à força da demanda relacionada à IA", afirmou o FMI.

A resiliência não apenas está distribuída de forma desigual segundo esses dois fatores, como o crescimento global também depende fortemente de um conjunto restrito de condições tecnológicas e financeiras, acrescentou Tenreyro. E aqueles que colhem os maiores benefícios da IA podem ser os que têm mais com o que se preocupar no que diz respeito à inflação, à medida que o “boom” de investimentos impulsiona a demanda.

Até o momento, os efeitos de transbordamento da IA para a inflação subjacente nas principais economias parecem limitados, mas a ameaça merece monitoramento à medida que os preços da energia se recuperam, repercutindo em outras commodities.

A inflação cheia global subiu em agosto após uma trégua de curta duração, enquanto os preços de bens básicos em algumas economias avançadas começaram a refletir o rápido aumento dos custos dos chips de memória, informou o FMI.

Em sua projeção base, o FMI ainda prevê uma desaceleração para o próximo ano, mas elevou ligeiramente sua estimativa de inflação em 0,2 ponto percentual, para 4,1%.

Ainda assim, a possibilidade de uma alta maior não pode ser descartada, afirmou o FMI.

"A combinação de condições financeiras acomodatícias, um ajuste robusto do setor privado e investimentos relacionados à IA pode sustentar a atividade econômica diante do choque da guerra e começar a impulsionar a produtividade", disse a instituição.

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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