Chinamaxxing: como a China se tornou referência para uma nova geração de brasileiros
Em agosto, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) passou a oferecer o primeiro curso de graduação em Língua e Cultura Chinesas do Brasil. Meses antes, em abril, a rede chinesa de sorvetes e bebidas Mixue já tinha estreado no Shopping Cidade São Paulo, na avenida Paulista.

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Chuchart duangdaw/Getty Images
Em agosto, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) passou a oferecer o primeiro curso de graduação em Língua e Cultura Chinesas do Brasil. Meses antes, em abril, a rede chinesa de sorvetes e bebidas Mixue já tinha estreado no Shopping Cidade São Paulo, na avenida Paulista. A abertura atraiu filas, e o mascote Snow King entrou de vez na paisagem comercial da cidade e nos vídeos do TikTok com as pessoas experimentando o café com leite e jasmim.
O fenômeno não fica restrito ao mercado brasileiro. No fim de 2025, a Adidas lançou em Xangai uma jaqueta inspirada nas vestimentas do final da dinastia Qing que ganhou o apelido de jaqueta Tang. Criada para celebrar o ano-novo chinês, a peça seria vendida apenas na China. Viralizou nas redes, virou objeto de desejo e hoje é vendida no mundo todo.
Na universidade, no varejo e nas redes sociais, movimentos aparentemente desconectados sinalizam uma mudança mais ampla: a China já não aparece ao público brasileiro apenas como potência industrial, destino de exportações ou origem de produtos de baixo custo. Aos poucos, passa a ocupar também o território dos hábitos, do entretenimento, do bem-estar, da educação e das referências de modernidade. Nas redes sociais, essa aproximação ganhou um nome: Chinamaxxing. A expressão combina “China” com o sufixo inglês “maxxing”, usado em comunidades digitais para descrever o esforço de otimizar ao máximo determinada característica.
Aplicado à cultura chinesa, o termo identifica vídeos nos quais jovens ocidentais incorporam práticas associadas ao país, como beber água quente, preparar mingau de arroz, praticar tai chi e adotar rotinas de cuidados pessoais inspiradas em influenciadores chineses.
Para Yili Wang, da escola de idiomas OiChina, o país é também ‘uma oportunidade cultural, profissional e econômica’
Leo Pinheiro/Valor
Parte brincadeira, parte estética e parte busca por bem-estar, o fenômeno ganhou força entre integrantes da geração Z. Também reúne moda, culinária, medicina tradicional, dramas curtos para celular, jogos eletrônicos, turismo e imagens de cidades como Xangai, Shenzhen e Chongqing, frequentemente apresentadas nas redes como símbolos de um futuro altamente conectado.
No Brasil, o fenômeno chegou com sotaque próprio. Em um país historicamente permeável a influências externas e com uma das maiores comunidades sino-asiáticas fora da Ásia, a tendência encontrou terreno fértil. No TikTok brasileiro, crescem os vídeos de jovens experimentando receitas da culinária chinesa, adotando rotinas de skincare inspiradas em influenciadoras de Xangai e consumindo dramas curtos em mandarim.
Não é só estética. É uma reorientação de referências culturais de uma geração desencantada com o modelo americano, impulsionada por plataformas como Shein e Shopee e pelo sucesso de jogos como o RPG eletrônico “Black Myth: Wukong”.
Muito antes que vídeos de exercícios viralizassem, Bob Wei já tentava ampliar o espaço da cultura chinesa no Brasil. Nascido na China, ele chegou ao país aos dez anos e começou, nos anos 90, a desenvolver iniciativas culturais quando a imagem do país asiático ainda era marcada por desconhecimento e preconceito. Empresário e produtor cultural sino-brasileiro, Wei apoiou academias de wushu (artes marciais chinesas), centros culturais e participou da criação de um dos primeiros sites em língua portuguesa dedicados à cultura chinesa.
“Quando comecei a divulgar a cultura chinesa no Brasil, muitas pessoas associavam a China apenas à pobreza, ao atraso ou aos produtos baratos”, afirma. “Havia muito desconhecimento e preconceito.” Para Wei, a transformação mais importante não está no aumento das vendas de mercadorias chinesas, mas na disposição de parte do público para compreender o país. “Durante décadas, o Brasil conhecia uma China imaginada, distante, construída por narrativas de terceiros. Hoje, os brasileiros podem conhecer uma China real.”
Hoje há disposição do público em entender a China, segundo o empresário Bob Wei
Ana Paula Paiva/Valor
Essa China observada de forma mais realista chega por meio de viagens, vídeos, influenciadores, estudantes, artistas, restaurantes e empresas. A exposição a sistemas de pagamento digital, trens de alta velocidade, inteligência artificial, comércio eletrônico e grandes centros urbanos também mudou a posição do país no imaginário de parte dos jovens.
“A China deixou de ser apenas uma potência econômica e passou a ser uma referência de modernidade”, diz Wei. “Quando um jovem brasileiro vê cidades altamente digitalizadas, transporte avançado e uma indústria cultural crescente, começa a olhar para a China não apenas como mercado, mas como fonte de inspiração.”
Na opinião de Moisés Marques, professor de relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP), a China foi construindo um soft power em etapas: a melhoria de produtos, o turismo, a tentativa de difundir seus costumes. Isso projeta uma nova imagem, que convive com o regime autoritário vigente no país, controlando todos os principais canais de informação, como televisão, rádio e publicações impressas, segundo o Human Rights Watch.
Seu “Grande Firewall” também impede que as pessoas na China “acessem informações comumente disponíveis na internet”. Impõe, ainda, controle ideológico sobre o sistema, diz documento da organização. No país, grupos étnicos, incluindo uigures e tibetanos, permanecem sob rígido controle político e cultural, de acordo com dados da Anistia Internacional.
“Estive na China no ano passado e, na prática, quem percorre o país percebe muito pouco o regime no cotidiano. Ele existe, aparece nas livrarias com os livros de Xi Jinping, está presente em locais politicamente sensíveis como a Praça da Paz Celestial e a Cidade Proibida, onde o controle é visível, mas não é algo sufocante como se poderia imaginar numa Coreia do Norte”, afirma ele.
Para o professor Moisés Marques (FespSP), o controle na China é visível, mas não sufocante
Divulgação
A Anistia Internacional relata, entretanto, haver a continuação da repressão da dissidência e de reuniões pacíficas no país por parte do Partido Comunista, por exemplo. “Participantes de atividades religiosas foram perseguidos por meio de vigilância, batidas policiais e leis de segurança. Defensores dos direitos humanos, escritores, artistas e outros atores da sociedade civil continuaram a ser detidos e processados sob vagas disposições de segurança nacional”, diz relatório da entidade.
Além disso, informa a Anistia Internacional, autoridades reprimiram o ativismo voltado para a igualdade de gênero e impuseram restrições à liberdade de expressão de mulheres e pessoas LGBTI, particularmente em espaços digitais.
Apesar do peso enorme do regime autoritário e da restrição às liberdades individuais, para Marques, as gerações mais jovens somam uma percepção do povo chinês para além da memória de uma época ainda mais dura. Absorveram também o chinês que trabalha muito e consome. “Com quase 50 anos de crescimento ininterrupto, alguma coisa deve estar dando certo, e é isso que uma geração que busca resultados relativamente rápidos enxerga como referência.”
Ele ressalta que, no fundo, é uma estratégia deliberada. “A China não faz nada sem estratégia. O objetivo é vender a marca China: algo com boa relação custo-benefício e associado à ideia de sucesso.”
Nesse cenário, o mapa do poder simbólico começa a se redesenhar. A mudança alcançou inclusive os indicadores de influência internacional. No Global Soft Power Index de 2026, elaborado pela consultoria Brand Finance, a China manteve a segunda posição e reduziu para menos de 1,5 ponto a distância em relação aos Estados Unidos.
Entender a China é um diferencial, diz o designer de produtos digitais Bruno Botelho de Carvalho
Divulgação
O conceito de soft power, formulado pelo cientista político americano Joseph Nye, descreve justamente a capacidade de um país influenciar comportamentos e preferências por meio da atração exercida por sua cultura, por seus valores, por sua educação e por sua imagem, e não pela coerção.
Um desses sinais aparece no tipo de formação que a China passou a atrair: cursos de alto nível para executivos globais. A CEO do Publicis Groupe no Brasil, Gabriela Onofre, esteve em Xangai cursando o Global MBA da Escola de Administração da Universidade Fudan, o primeiro MBA híbrido da China focado em inovação, economia, cultura e reinvenção na era da IA.
Lançado em maio de 2026, o programa tem duração de dois anos e foi pensado para permitir que profissionais estudem sem interromper a carreira. Onofre é uma das quatro pessoas de nacionalidade brasileira entre os 80 alunos do mundo todo. As aulas combinam aprendizado digital remoto com semanas presenciais intensivas de imersão na China.
Recentemente, os alunos passaram três dias visitando empresas de robótica em Zhangjiang, conhecido como o Vale dos Robôs, no distrito de Pudong, Xangai. “Os robôs têm muitas funções, sendo a produtividade apenas a mais óbvia delas. Mas, aqui na China, tenho visto como eles podem assumir os trabalhos mais perigosos, como o resgate em incêndios, e, sobretudo, se tornar um apoio para os idosos, atuando como assistentes domésticos”, afirma Onofre.
Enquanto isso, aqui no Brasil, a criação da graduação da Unesp reforça que o interesse pela China começou a ultrapassar o consumo e a se converter em formação acadêmica. O bacharelado terá 40 vagas, funcionará no período noturno no campus de Assis e começará com o ensino intensivo do idioma.
Os estudantes poderão concluir a graduação no Brasil, com ênfase em tradução, ou concorrer à possibilidade de cursar os dois últimos anos na Universidade de Hubei, na China, com foco nas relações comerciais internacionais e oportunidade de dupla diplomação.
A aprovação do curso é resultado de uma aproximação acadêmica iniciada há quase duas décadas. Diretor do Instituto Confúcio na Unesp, o professor Luís Antônio Paulino participou da implantação, em 2008, da primeira unidade da instituição em uma universidade pública brasileira. Para ele, a nova graduação representa o amadurecimento da relação construída entre a Unesp e seus parceiros chineses e, ao mesmo tempo, uma resposta a uma demanda objetiva do mercado.
O objetivo, afirma, não é formar apenas professores de mandarim, mas profissionais preparados para atuar em diferentes áreas da relação entre Brasil e China. Além de língua e literatura, a matriz curricular inclui conteúdos de economia, comércio exterior e relações internacionais.
A China deixou de ser apenas uma potência econômica e passou a ser uma referência de modernidade’
“Só no estado de São Paulo há mais de 300 grandes empresas chinesas em operação, com uma demanda crescente por profissionais capazes de fazer essa ponte linguística e cultural em equipes multiculturais”, diz Paulino.
Segundo ele, a procura por esse perfil aparece todos os anos na feira de empregos realizada pelo Instituto Confúcio em parceria com a Associação Brasileira de Empresas Chinesas. A competição por profissionais qualificados é tamanha que a própria instituição enfrenta dificuldades para reter professores de mandarim, atraídos por ofertas de trabalho mais vantajosas.
Paulino vê o Chinamaxxing como uma possível porta de entrada, embora ressalte os limites de qualquer tendência que tente resumir uma sociedade complexa a um conjunto de comportamentos. Para ele, cultivar hábitos mais saudáveis ou consumir música, moda e cinema chineses também produz uma representação simplificada do país.
“Na falta de conhecimento mais profundo sobre uma cultura, somos levados a nos apegar a estereótipos”, afirma. “O Chinamaxxing também não deixa de ser, de certa forma, um estereótipo, pois a China é infinitamente mais complexa. Mas é um estereótipo positivo, porque predispõe as pessoas a aceitar uma história mais autêntica, baseada em experiências reais e vividas.”
A professora de mandarim Yili Wang, sócia-fundadora da escola de idiomas OiChina, percebe um aumento claro do interesse pela China, embora avalie que seria precipitado atribuí-lo exclusivamente ao Chinamaxxing.
“A tendência ajuda a abrir portas”, afirma. “A pessoa começa pelo hot pot [uma das mais tradicionais refeições chinesas], pelos chás, pelos dramas, pela tecnologia ou pela medicina tradicional chinesa. Mas, quando olha mais de perto, percebe que a China não é apenas uma moda. É também uma oportunidade cultural, profissional e econômica.”
Segundo Wang, a procura pelo mandarim não se limita a adolescentes e universitários. Empresários, advogados, professores, profissionais de turismo, comércio exterior, energia, indústria e tecnologia também buscam o idioma como diferencial de carreira. A professora observa ainda um crescimento do interesse por programas de intercâmbio. A ampliação das viagens e dos contatos diretos permite que os estudantes comparem as imagens que receberam sobre o país com a experiência cotidiana.
Para ela, a curiosidade pode começar de maneira superficial, mas tende a produzir perguntas: Como a medicina tradicional interpreta o equilíbrio do organismo? De que maneira um país altamente tecnológico preserva práticas milenares? “Quando essa curiosidade amadurece, o idioma aparece como uma chave”, afirma Wang. “Aprender mandarim não é apenas decorar caracteres ou tons. É aprender outra forma de pensar, negociar, comunicar e interpretar o mundo.”
Se as redes sociais funcionam como a nova vitrine da cultura chinesa, as artes marciais representam uma das portas de entrada mais antigas no Brasil. Para o sinólogo Rogério Fernandes de Macedo, fundador da Associação Sunbin de Wushu e Cultura Chinesa e doutor em ciências sociais pela Unicamp, o papel das academias vai muito além do ensino de defesa pessoal. “As artes marciais serviram para mim como porta de entrada para a cultura chinesa, e é esse modelo que procuro transmitir aos meus alunos”, afirma.
Entre as décadas de 70 e 80, filmes de kung fu e séries de televisão alimentavam o imaginário dos jovens. Muitos procuravam academias para aprender a lutar ou reproduzir movimentos vistos no cinema. Hoje, segundo Macedo, o perfil é mais diversificado: há interessados em saúde, equilíbrio, defesa pessoal e alternativas às academias convencionais, além daqueles que chegam movidos pela curiosidade cultural.
A maior atenção à China, em sua avaliação, decorre sobretudo do peso econômico do país, da parceria estratégica com o Brasil e da ampliação do ensino de mandarim. Sua visão introduz uma cautela necessária. O interesse pelas práticas chinesas pode crescer, mas não elimina automaticamente os estereótipos nem garante uma compreensão mais sofisticada. A tendência digital pode funcionar como porta de entrada, desde que o contato inicial evolua para o estudo do idioma, da história, dos avanços tecnológicos.
É o caso do designer de produtos digitais Bruno Botelho de Carvalho, que começou a estudar mandarim e a cultura chinesa na pandemia e não parou mais. Atualmente faz aula no Instituto Confúcio da Unesp e em dezembro do ano passado ganhou uma bolsa de um mês para a Universidade de Hubei.
“Hoje, a China não é apenas o maior hub de manufatura ou um mercado consumidor gigante. É onde nascem as maiores inovações em super apps, ecossistemas phygital, inteligência artificial aplicada ao consumo e novas dinâmicas de comportamento do usuário. Para quem trabalha com tecnologia, inovação e produto, entender a fundo o contexto chinês se tornou um diferencial competitivo crucial”, afirma Carvalho.
É cedo para saber se o termo Chinamaxxing sobreviverá à velocidade com que as tendências aparecem e desaparecem nas plataformas. Seus efeitos, porém, já ultrapassam o universo dos memes. Estão nas filas do varejo, na procura por aulas, nas viagens, nas academias, nas oportunidades profissionais e, agora, no currículo de uma universidade pública.
A moda pode passar. A China que ela ajudou a tornar visível, contudo, dificilmente voltará a ocupar o lugar distante e imaginário que manteve durante décadas. Entre praticar o Qi Gong (uma prática milenar da medicina tradicional chinesa) nas redes sociais e uma graduação de quatro anos, o Brasil começa a descobrir que compreender a China exige mais do que consumir seus produtos: requer aprender a linguagem cultural, histórica e humana de um país que está cada vez mais no seu cotidiano.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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