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Quando o decorado é mero coadjuvante

A visita ao decorado está perdendo espaço no mercado de alto padrão. Os estandes de vendas se transformaram em ambientes de experiência, com eventos de conteúdo, lançamentos de produtos alinhados ao público-alvo e operações gastronômicas.

Valor Econômico5 min de leitura
Quando o decorado é mero coadjuvante

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Nesse novo formato, o apartamento-modelo virou coadjuvante — e, em alguns casos, nem sequer existe. A estratégia das incorporadoras é reunir uma comunidade que compartilhe valores e crenças da marca para depois aproximar potenciais compradores de forma mais orgânica. Fechar negócio virou consequência.

“A unidade mobiliada continua importante, mas cada vez mais tem sido substituída por estratégias menos complicadas, mais baratas de se fazer e que não produzam tantos resíduos”, afirma Otávio Zarvos, sócio-fundador da Idea!Zarvos. No mais novo projeto da incorporadora em São Paulo, o residencial Samanea, em Pinheiros, uma galeria com café ocupa o lugar do “showroom” tradicional.

Desenhado pelo escritório Architects Office AO-SP, que também assina o prédio, o espaço de 2,6 mil metros quadrados tem estrutura de madeira reaproveitada, com ambientes de convivência, salas de atendimento, maquetes de projetos simbólicos da marca, jardins ao ar livre e o Café Sagui, comandado pelo chef Cesar Costa. A Galeria Samanea é aberta ao público e deve funcionar até o final deste ano.

Em São Paulo (SP), Galeria Samanea tem agenda cultural intensa e apartamento decorado como apoio da estratégia

Manuel Sá/Divulgação

Há também uma unidade decorada, de 217 metros quadrados com três suítes, que dá apoio à estratégia comercial. Mas é a agenda cultural que tem atraído as pessoas.

Apartamento decorado do Galeria Samanea

Manuel Sá/Divulgação

“Já organizamos eventos de livros, palestras e encontros com foco no conhecimento. O decorado tem função importante, mas a proposta é fazer algo legal para todos — mesmo para quem não vai comprar um apartamento — e ser menos hostil com a cidade”, explica Zarvos.

Em Curitiba (PR), a incorporadora AG7 promove experiência similar: conteúdo, degustações e encontros privados em um espaço com bar sofisticado e quadra de tênis de saibro, com medidas oficiais e professor disponível para aulas particulares.

Na AG7 Club House, em Curitiba (PR), ambientes de convivência, bar e quadra de tênis de saibro recebem clientes e eventos proprietários e de marcas de luxo

AG7/Divulgação

“Criamos a AG7 Club House para materializar o conceito arquitetônico, de biofilia e da materialidade dos nossos empreendimentos. A ideia é ser mais um ambiente de convivência, como um clube, do que propriamente um ‘showroom’”, explica Melissa Barbosa, diretora de Sucesso do Cliente da companhia.

Detalhe da AG7 Club House, de Curitiba (PR)

AG7/Divulgação

Segundo ela, a casa em construção (localizada no terreno de um dos projetos mais icônicos da empresa, o Ícaro Casa Térrea) tem sediado eventos corporativos e de “maisons” de luxo, que buscam dialogar com o público da incorporadora. “De joalherias a marcas de bebida, são pelo menos dois encontros semanais desde que inauguramos a casa, em maio do ano passado”, diz Melissa. Em alguns, os convidados compraram apartamentos.

No endereço, não há decorados — apenas maquetes. A executiva informa que, até o final do ano, será inaugurada uma unidade mobiliada no edifício Pace, em desenvolvimento no bairro Novo Ecoville, o passo inicial da jornada. “O cliente começa conhecendo o apartamento e termina se relacionando com o ‘lifestyle’ da marca na casa, seja em experiências gourmet ou jogando tênis na quadra, em meio a um bosque preservado.”

ROTEIRO

Também no Sul do país, a Casa Müze, no litoral de Itajaí (SC), tem sido parte essencial da estratégia comercial do empreendimento Tempo. Com projeto arquitetônico do escritório inglês Foster+Partners, o residencial ocupa terreno nobre na Praia Brava Norte, a 15 minutos do “showroom”.

Sem decorado, o espaço traz uma galeria com miniaturas das obras mais importantes realizadas por arquitetos britânicos, além de mesa digital interativa, cinema com tela de 14 metros, maquete 360 graus, bar, adega e sala gourmet.

“Foi pensado um roteiro em quatro atos para a visita do cliente: educação, apresentação, encantamento e fechamento, com movimentos coreografados para impactar e destacar os principais atributos do empreendimento”, explica Henrique Driessen, CEO e fundador da agência de marketing imobiliário Elephant Skin, responsável pelo conceito da Casa Müze.

Com projetos executados nos Estados Unidos, no Canadá, em Portugal, nos Emirados Árabes e no Vietnã, além do Brasil, Driessen afirma que o “sales center” virou uma ferramenta fundamental para transmitir os valores da marca e do produto.

“As visitas levam em média três horas, e cada minuto e cada ambiente têm que ter um propósito. Finalizamos com uma experiência gourmet, por exemplo, não apenas para agradar o cliente, mas porque teremos os serviços do Hotel Emiliano no residencial, incluindo a gastronomia. É mais uma oportunidade de explicar o projeto”, diz Driessen.

Segundo Arthur Fischer Neto, sócio da Müze, o “showroom” tem feito sucesso. “Tem gente que gostou tanto da vivência que não só comprou um apartamento, como pediu para comemorar o aniversário da esposa no espaço”, comenta.

Com projeto de interiores do escritório Studio Casa Design, a Casa Müze custou mais de R$ 20 milhões. “Nosso objetivo é que seja um espaço permanente de relacionamento, não apenas para promover o Tempo, mas todos os demais lançamentos programados para os próximos anos”, afirma Fischer Neto.

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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