‘Cada povo tem a sua catarse, e a do brasileiro é a vingança’, diz a autora de ‘Quem ama cuida’
Claudia Souto pretende se dedicar ao cinema depois de “Quem ama cuida”

Trecho
Domingos Peixoto / Agência O Globo
“Quem ama cuida”, a novela das 21h da TV Globo, tem se destacado pela audiência e por gerar muitos debates nas redes sociais. A razão, acredita Claudia Souto, autora ao lado de Walcyr Carrasco, é o tema principal da trama: a vingança. No caso, da protagonista Adriana (Letícia Colin) contra quem a incriminou injustamente e a fez passar seis anos na prisão pela morte de Arthur Brandão (Antonio Fagundes). “Cada povo tem a sua catarse, e a do brasileiro é a vingança. Todas as novelas com ela têm um grande apelo popular”, afirma Souto. Basta lembrar de “Avenida Brasil”, “O outro lado do paraíso” e “Vale tudo”. “O Brasil é desigual, e nós achamos que sempre tem alguém em dívida conosco. Então, quando vem essa vingança, o telespectador pensa que a justiça está sendo feita.”
“Quem ama cuida” é a estreia de Souto no horário das 21h. “Ela é a novela ‘seleção brasileira’, que está em todos os lares, envolve mais trabalho, no sentido de ter mais páginas por dia, e a repercussão é muito maior.” O exemplo está na abordagem do relacionamento abusivo, presente em duas tramas da autora para as 19h: “Cara e coragem” (2022) e “Volta por cima” (2024). A outra de Souto para o mesmo horário foi “Pega pega” (2017).
“Em ‘Volta por cima’, teve uma cena que repercutiu muito na imprensa e nas redes sociais. A personagem Roxelle [Isadora Cruz[ estava em cárcere privado com o bicheiro do mal Gerson Barros [Enrique Diaz] e fez um sinal para uma outra mulher para dizer que estava em perigo”, lembra. Agora a repercussão é muito maior em torno do casal Elenice (Mariana Sena) e Tom (Allan Souza Lima).
A escritora divide a autoria de “Quem ama cuida” com Carrasco, de quem foi colaboradora em “Sete pecados” (2007), “Caras & bocas” (2009) e “Morde & assopra” (2011). “Como fiquei cinco anos como colaboradora dele, tive que mimetizá-lo. A gente tem diferenças, mas nossos estilos se complementam. Walcyr é um autor de tintas fortes e que se joga no melodrama sem pudor. Já eu sou mais contemporânea e realista.”
O melodrama também está muito presente no trabalho de Souto, que se diz uma grande estudiosa dos clássicos da teledramaturgia. “A gente vê muita série hoje em dia, e a possibilidade de as novelas ficarem com cara de uma é muito grande.” Ela menciona que isso aconteceu com “Cara e coragem”.
“A partir dali, decidi que tinha que estudar as novelas antigas e ‘Volta por cima’ sofreu essa influência, tanto que muitas reportagens apontaram que era novela sem vergonha de ser novela.”
Para os nostálgicos que lembram de telenovelas clássicas como “O espigão” (1974), de Dias Gomes; “Marron glacé” (1976), de Cassiano Gabus Mendes; e “Roda de fogo” (1986), de Lauro César Muniz, e que muitas vezes as consideram melhores, Souto, que as assistiu antes de estrear “Quem ama cuida”, afirma que não.
“A história segue soberana, mas hoje temos que entregar também o espetáculo. O público é mais exigente com relação à enchente e ao capotamento com visual de filme, que a Amora [Mautner, diretora de ‘Quem ama cuida’] entrega muito”, diz.
A fim de preservar o formato clássico da teledramaturgia de ser uma obra aberta, Carrasco e Souto escrevem os capítulos muito próximos das gravações e da exibição. Para tal, contam com cinco colaboradores bastante experientes: Bruno Segadilha, Júlia Lacks, Martha Mendonça, Wendell Bendelack e Isadora Wilkinson. “Juntos e separados, nós somos muito influenciados pelo público”, diz.
Souto iniciou a carreira no teatro aos 15 anos, onde ficou até entrar na TV Globo como redatora do programa “Casseta & Planeta urgente!”, em 1992, quando integrou o grupo Obrigado Esparro, formado por Cesar Cardoso, Emanuel Jacobina, Juca Filho e Mauro Wilson, que escreveu três livros e programas como “Os Trapalhões” e “Sai de baixo”.
Em 1996, Souto tornou-se redatora de programas estrelados por Angélica: “Angel mix”, “Caça talentos”, “Flora encantada” e “Bambuluá”, que considera a primeira telenovela que escreveu. Foram 313 capítulos. Ali ela conviveu com grandes diretores como Roberto Talma.
“Quando entramos na cidade cenográfica, que era imensa, linda e colorida, ele olhou para mim e falou: ‘Gostou? Sua primeira cidade cenográfica’. A partir dali, toda vez que entro em uma, boto a mão no chão, para cima e digo: ‘Talma, está aí. Mais uma’.”
Outro marco na carreira dela foi ser uma das autoras do roteiro do filme “Eduardo e Mônica” (2020), dirigido por René Sampaio, e é a essa arte que pretende se dedicar após “Quem ama cuida”. “Quando você vê na telona as cenas que escreveu... é uma emoção que estou doida para ter outras vezes.”
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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