Escassez de armas comprometeria defesa dos EUA em eventual conflito com a China
Projéteis estocados em porta-aviões dos EUA no Oriente Médio: orçamento para compra de munição sobe de US$ 35,7 bi em 2026 para US$ 95 bi em 2027

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Christopher Pike/Bloomberg
A guerra no Irã vem trazendo consequências que vão além dos custos políticos e econômicos para o governo de Donald Trump. Enquanto o conflito pressiona os preços nos Estados Unidos e contribui para a queda de popularidade do presidente, o país enfrenta também uma grave crise nos estoques de armamentos, que reduz a margem de resposta militar de Washington nos próximos anos - aumentando a vulnerabilidade dos americanos em novos conflitos, especialmente com a China, na visão de analistas.
Apesar de Trump não admitir que os estoques americanos não estão baixos, um órgão de fiscalização do Pentágono revelou que o ritmo de consumo provocou déficits estratégicos nos estoques e “expôs gargalos na indústria de defesa para a reposição dos armamentos”. Segundo o documento, entre 28 de fevereiro e 30 de junho, a Operação Fúria Épica, contra o Irã, custou US$ 33,4 bilhões, dos quais US$ 22,3 bilhões foram gastos com munições.
“Os EUA estão enfrentando uma crise real de munições”, diz Ryan Brobst, vice-diretor do Centro de Poder Militar e Político da Fundação para a Defesa das Democracias (FDD). “Isso é resultado direto da guerra com o Irã, mas a razão pela qual essa crise pôde acontecer foi por causa de decisões tomadas em relação à base industrial de defesa ao longo das várias décadas anteriores”.
Uma análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), baseada em documentos orçamentários anuais do Departamento de Defesa e relatórios de aquisição de armas, também identificou o esgotamento de munições essenciais. O instituto analisou os efeitos da guerra contra o Irã em sete tipos de munições amplamente utilizadas no conflito, divididos entre sistemas de defesa antimíssil e armas de ataque terrestre de longo alcance.
Segundo o levantamento, os EUA consumiram cerca de metade dos estoques iniciais de mísseis Patriot, THAAD (sistema de defesa antimíssil terminal de alta altitude) e PrSM (míssil de ataque de precisão). Também foram utilizados aproximadamente um terço das reservas de JASSM (mísseis conjuntos de ataque ar-superfície de longo alcance), SM-3/6 (mísseis padrão) e dos mísseis de cruzeiro Tomahawk.
Nesse cenário, o instituto afirma que EUA possuem munições suficientes para qualquer cenário plausível em uma guerra com o Irã, mas o principal risco está em conflitos futuros, com a Rússia, a Coreia do Norte e, sobretudo, a China, onde os EUA vêm se preparando há anos para a possibilidade de uma invasão chinesa de Taiwan, a ilha autogovernada que Pequim reivindica como sua.
“A grande preocupação com os estoques é que os EUA não teriam munições suficientes para um conflito com a China”, diz Mark Cancian, consultor sênior do CSIS, que contribuiu com a pesquisa, e ex-funcionário do Pentágono. “A China é militarmente muito poderosa e acumulou seus próprios estoques de munições. Outros países não imporiam uma demanda tão grande sobre as forças e as munições dos EUA.”
Pequim não se envolve em uma guerra declarada desde o conflito com o Vietnã, em 1979, mas nas décadas seguintes construiu um arsenal, em rápida expansão, de mísseis balísticos, hipersônicos e antinavio. Em simulações do CSIS, um conflito entre EUA e China poderia consumir cerca de 5.000 mísseis de longo alcance já nas primeiras quatro semanas.
A situação atual do estoque americano é particularmente sensível no caso dos interceptores de defesa antimíssil, incluindo os mísseis THAAD e Patriot, sistemas que seriam importantes em um eventual conflito na região do Indo-Pacífico. Quando a guerra começou, o Pentágono tinha quase 2.800 mísseis Patriot e THAAD em seu estoque global, segundo o CSIS. Até o fim de julho, esse número havia caído para cerca de 1.100.
“As munições de defesa aérea são a parte do problema dos estoques que tem gerado maior pressão, porque são as mais difíceis de fabricar”, afirma William Schneider, pesquisador sênior do Hudson Institute e que atuou como subsecretário de Estado para assistência de segurança, ciência e tecnologia no governo Reagan.
Segundo o CSIS, os mísseis Tomahawk, THAAD e Patriot devem levar três anos ou mais para retornar aos níveis de estoque anteriores à guerra. Já o SM-3 e SM-6 levariam cerca de dois anos, enquanto JASSM e PrSM poderiam ser repostos em intervalo de alguns meses a um ano.
O governo americano já reconheceu a urgência da situação e solicitou US$ 95 bilhões para aquisição de munições no orçamento de defesa para o ano fiscal de 2027. No ano fiscal de 2026, a solicitação havia sido de US$ 35,7 bilhões para a aquisição de munição.
No entanto, Cancian alerta que o problema, atualmente, não é mais o financiamento para produção. “O problema agora é simplesmente o tempo: o tempo necessário para produzir novas munições e o tempo necessário para ampliar a capacidade de produção”, completa.
Esse tempo cria um período de vulnerabilidade de vários anos até que os estoques retornem aos níveis anteriores, e mais alguns anos até que atinjam os níveis desejados pelos planejadores de guerra, segundo o CSIS. Nesse intervalo, especialistas alertam que uma menor capacidade de dissuasão dos EUA em regiões de tensão poderia, por si só, elevar o risco de novos conflitos.
“Se as forças americanas tiverem que disparar menos interceptadores para se defender, também há um risco estratégico envolvendo outros países, como a China”, diz Brobst. “Isso aumenta o risco de que conflitos ocorram no futuro, além de afetar o desempenho das forças americanas caso um conflito, de fato, eclodisse. E é por isso que é tão importante tentar resolver essa questão imediatamente.”
A questão de Taiwan vem sendo um crescente ponto de tensão entre as potências. Washington é o mais importante apoiador internacional da ilha e, pela legislação americana, deve fornecer os meios necessários para sua defesa. Pequim, por sua vez, vem pressionando Trump a interromper as vendas de armas a Taipé.
Ao mesmo tempo, o governo de Xi Jinping intensificou as atividades militares em torno de Taiwan nos últimos anos. Em dezembro, Pequim realizou seu maior exercício militar já registrado na região, mobilizando navios e aeronaves em operações que cercaram a ilha.
Em meio às crescentes tensões, Xi Jinping se reuniu em setembro com Trump na Casa Branca, em sua primeira visita aos EUA em quase três anos. Segundo a agência oficial Xinhua, o líder chinês pediu ao presidente americano que Washington “trate a questão de Taiwan com prudência”, de modo a criar uma base para a cooperação estratégica e o desenvolvimento das relações entre os dois países.
A versão em inglês da Xinhua acrescentou que Xi espera que os EUA se oponham à independência de Taiwan.
Embora especialistas não considerem iminente uma invasão ou um bloqueio chinês à ilha, Brobst afirma que a comunidade de inteligência dos EUA já deixou claro que existe ao menos algum risco de que Pequim recorra a uma dessas opções nos próximos anos.
“Não resolver a crise de munições aumentaria esse risco”, afirma. “Faria sentido a China tentar fazer alguma coisa antes que os estoques fossem repostos. Depois que forem repostos, estaremos de volta à situação anterior e teremos uma capacidade de produção maior”, acrescenta.
Mesmo antes da guerra no Irã, especialistas avaliavam que os estoques de munições dos EUA já estavam abaixo do necessário, especialmente após o envio de mísseis de defesa aérea para apoiar a Ucrânia. Segundo Schneider, a atual escassez é consequência do enfraquecimento da base industrial de defesa americana nas últimas décadas. Após o fim da Guerra Fria, os gastos militares caíram significativamente, e os EUA reduziram o número de fornecedores de defesa.
“A diminuição dos estoques de munições para a guerra com o Irã ocorreu depois de redução nos anos anteriores devido ao conflito na Ucrânia, além da demanda por sistemas americanos decorrente das vendas militares ao exterior”, afirma Schneider. “Nossos aliados, por exemplo, no Oriente Médio, eram grandes compradores dessas munições de defesa aérea, e tudo isso contribuiu para uma demanda muito elevada sobre os recursos de produção”, acrescenta.
Cancian avalia que o governo americano já está fazendo o suficiente para resolver a crise, solicitando mais recursos e com o Pentágono pressionando a indústria a ampliar a produção. A Lockheed Martin, por exemplo, recebeu um contrato de US$ 58,6 bilhões relacionado à expansão da produção do Patriot.
“Também estão trabalhando no desenvolvimento de munições mais baratas. Então, acho que estão tomando todas as medidas necessárias. Só precisamos colocar essas ações em prática”, afirma Cancian. Ele destaca a importância do compromisso ser sustentado ano após ano, já que alguns anos de compras frenéticas não serão suficientes para formar estoques completos nem para estabelecer a capacidade de resposta rápida que poderá ser necessária em um conflito futuro.
A questão agora é a incerteza sobre se o tempo e o esforço do governo americano para recompor os arsenais serão suficientes antes que uma nova crise volte a exigir grandes volumes de munições. O cálculo é especialmente delicado porque a guerra contra o Irã ainda não chegou a uma solução definitiva, apesar da pausa nos combates mais intensos. Eventual retomada do conflito no Oriente Médio aprofundaria ainda mais o problema.
“A expectativa é de que essa calmaria continue até a eleição nos Estados Unidos, em 3 de novembro. Mas não é impossível que o governo Trump queira fazer alguma coisa para tentar romper esse impasse”, afirma Cancian. “Se a guerra recomeçar, vamos usar ainda mais munições e ficaremos ainda mais para trás.”
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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