Alternância de poder cresce nas Américas, mostra estudo
Imaizumi, da 4intelligence: perda de poder de compra influencia “pêndulo”

Trecho
Gabriel Reis/Valor - 20/6/2025
A alternância de poder entre governos de direita e de esquerda nas Américas aumentou de 39,6% nas eleições presidenciais antes da pandemia para 59,6% dos pleitos desde então. Na América do Sul, essa expansão foi ainda maior e a fatia subiu de 38% para 72,2%, respectivamente. As informações são parte de um levantamento feito pelo economista da 4intelligence Bruno Imaizumi, antecipado com exclusividade ao Valor.
O estudo de Imaizumi analisou 137 eleições presidenciais - 91 delas de 2000 a março de 2020 e 46 entre abril de 2020 e setembro de 2026 - em 32 países das Américas do Sul, Central e do Norte. Ficaram fora Venezuela, El Salvador e Nicarágua, por serem definidos como países não livres pela fundação Freedom House, organização não governamental que promove a democracia.
A ideia do levantamento surgiu a partir da observação mais recente das trocas de comando na América do Sul e também foi inspirada no trabalho do professor da Universidade de Harvard Steven Levitsky, autor do livro “Como as democracias morrem”. O cientista político americano identificou aumento da troca de comando entre grupos políticos em democracias ocidentais no pós-pandemia e vem falando sobre a “maldição do incumbente”.
Choques externos como a pandemia, que aumentam desafios de custo de vida, pobreza e desigualdade e reforçam insatisfação popular, problemas econômicos complexos que ultrapassam um mandato, dinâmica das plataformas digitais e tendência da polarização política são alguns dos fatores citados por especialistas ouvidos pelo Valor para explicar a maior alternância de poder.
Nas Américas essa mudança se insere em um movimento mais amplo de avanço da extrema direita iniciado no mundo na década de 2010, dizem estudiosos. O segundo mandato de Donald Trump, a partir de 2025, é um exemplo de troca de comando, após o governo do democrata Joe Biden e também uma influência para a região.
“Com as informações dessas 137 eleições, vimos todos os momentos em que houve mudança do espectro político, de esquerda para direita ou de direita para esquerda. Os dados mostram que essa alternância ideológica que ocorreu no Brasil em 2022 e nos Estados Unidos em 2024 também se vê nas Américas como um todo”, diz Imaizumi.
Bons indicadores econômicos costumam contribuir para a popularidade de governantes que concorrem à reeleição. Os dados do estudo de Imaizumi, porém, sugerem que a perda de poder de compra no pós-pandemia pode ter contribuído para esse ambiente eleitoral mais pendular: “O que pesa mais hoje é o nível de preços, especialmente de alimentos. Isso traz muito incômodo para a população”, diz.
Chefes do Executivo também costumam ter mais vantagens para se reeleger em relação a quem disputa a posição, uma vez que têm à disposição o uso da máquina pública e são mais conhecidos pela população. Depois da pandemia, no entanto, ganhou força o conceito de “maldição do incumbente”, a partir de estudos de Levitsky e outros especialistas sobre a maior dificuldade de quem está no poder se manter no cargo.
A professora do Departamento de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e senior fellow no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) Fernanda Cimini nota que a tendência observada no estudo é visível na América Latina:
“No início de 2023, 11 países latino-americanos eram governados por diferentes vertentes da esquerda. Hoje, 12 chefes de Estado se posicionam à direita e o Brasil pode se tornar o 13º, caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno. Entre as grandes economias da região, restaria à esquerda o México, que só volta às urnas presidenciais em 2030.”
Cimini é uma das autoras de outra pesquisa na mesma temática, ao lado da doutora em economia pela UFMG Helena Morais e do também professor da UFMG Rafael Ribeiro.
Nesse trabalho foram examinadas 62 eleições presidenciais em 16 países da América Latina, entre 1994 e 2019, para medir a influência de fatores econômicos na chance de reeleição, com foco em aumento de gastos públicos (parcela como proporção do Produto Interno Bruto, o PIB) e alta da inflação. Os pesquisadores identificaram que o efeito depende do grau de polarização política do país: quanto mais polarizada a sociedade, menor é o peso da economia na decisão do voto. “O mecanismo central do nosso modelo é que, quanto maior a polarização, menor a parcela de eleitores que leva em conta o desempenho econômico ao decidir seu voto”, afirma Cimini.
No início de 2023, 11 países latinos eram de esquerda; hoje 12 são de direita”
Em ambientes polarizados, apontam Cimini, Morais e Ribeiro, a identidade política, a lealdade partidária e questões culturais passam a ter um peso maior na decisão eleitoral. No movimento mais recente de avanço da direita na América Latina, a professora da UFMG acredita que pode ocorrer influência dos Estados Unidos: “Uma hipótese que merece investigação é a influência dos EUA que parece ter se intensificado com a volta de Trump, em novo contexto geopolítico de disputa pela região. Chama a atenção que, das oito eleições presidenciais realizadas na América Latina desde a eleição de Trump, a direita tenha vencido sete.”
A avaliação é compartilhada pela professora do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC-Rio Andrea Ribeiro Hoffmann, que lembra que tanto Trump quanto o secretário de Estado, Marco Rubio, são transparentes na colaboração ao avanço da direita: “O fator Trump é real. Mesmo em momento de contestação interna nos EUA, Trump está no auge de sua política aberta de apoio à virada para a direita na América Latina. Só não se pode ser simplista: há muitas diferenças nessa direita na região, com subgrupos dentro e fora do escopo democrático.”
Segundo Hoffmann, há questões estruturais profundas, que são globais, e um só governo não dá conta de resolvê-las em quatro anos. Além disso, restrições fiscais e de orçamento também colaboram para maior insatisfação popular e tendência de troca de poder.
“Mas qual é a expectativa das pessoas? Se tem uma conjuntura ou expectativa que está acima do possível, há um sentimento de que o governo não entregou o resultado esperado e há uma quebra no ciclo de poder. Isso recai sobre a direita ou a esquerda”, diz a professora da PUC-Rio.
Para a professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) Heloisa Marques Gimenez, a clara dificuldade atual de permanência de governos na América Latina e a guinada à direita também são influenciadas por uma pauta de costumes, com discussões em torno de temas como religião, educação, família, direitos civis, sociais e reprodutivos: “A direita de hoje é diferente da direita liberal dos anos 1990. Ela ganha o eleitorado mais nos costumes que nas propostas de uma economia liberal.”
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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