Daqui até o 2º turno, eleitor merece ver debate profundo
Em uma votação que transcorreu sem incidentes pelo país, em um marco da democracia brasileira, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vão se enfrentar no segundo turno.

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Divulgação e Maria Isabel Oliveira
Em uma votação que transcorreu sem incidentes pelo país, em um marco da democracia brasileira, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vão se enfrentar no segundo turno. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro encerrou o primeiro turno com dianteira de 1,8 ponto percentual, ou 2,26 milhões de votos, em uma eleição que mostrou a força da direita tanto no Legislativo quanto nos Executivos estaduais. O PL foi o grande vencedor das eleições para o Senado, conquistando 19 das 54 cadeiras em disputa ontem. Os candidatos alternativos à polarização, Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), somados, obtiveram 7,58% dos votos.
O bolsonarismo mostrou vigor no Rio de Janeiro, com Douglas Ruas liderando a votação contra um candidato não petista, Eduardo Paes (PSD), quando as pesquisas apontaram a dianteira de Paes ao longo de toda a campanha. Michelle Bolsonaro foi eleita facilmente como senadora pelo Distrito Federal, assim como Carlos Bolsonaro por Santa Catarina e Jair Renan, como deputado federal pelo mesmo Estado.
Sergio Moro, ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, foi eleito governador do Paraná. A força do conservadorismo no Estado impediu que a veterana Gleisi Hoffmann, ex-ministra chefe da Secretaria de Relações Institucionais do governo Lula e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, fosse eleita para o Senado, enquanto sufragou o ex-procurador da força tarefa da Lava-Jato, Deltan Dallagnol (Novo). Dez dos 19 Estados em que a disputa pelos Executivos estaduais terminou no primeiro turno serão governados por legendas de direita: PL, Republicanos e PP.
A abstenção, de 21,08%, foi recorde para um primeiro turno, mas não muito maior do que a da eleição de 2022, de 20,79%. É um alerta para que, nas três semanas até o segundo turno, os dois candidatos à Presidência se preocupem em aprofundar de fato as propostas para melhorar a vida dos cidadãos e se disponham a debater entre si, expondo-se ao eleitor. O cidadão precisa do passo seguinte, o crescimento sustentável, sem expansão de gastos públicos e com recuo da dívida, financiada com juros que ainda podem levar o país à recessão.
Se o pleito deste ano marca uma série histórica de dez eleições presidenciais consecutivas — quatro décadas sem interrupção —, com voto universal e secreto, o eleitor merece mais atenção nesta edição de 2026. A polarização entre petismo e bolsonarismo dissolveu a discussão aberta e séria de propostas para o futuro. Atravessado pelo maior escândalo financeiro da história recente, envolvendo todas as instituições, inclusive o Supremo Tribunal Federal (STF), o período eleitoral produziu até agora muita fúria e pouca luz, mas, ainda assim, marcou um avanço em relação ao pleito de 2022: não houve campanha de descrédito das urnas eletrônicas.
Os eleitores tiveram de optar entre duas forças que mal se digladiaram sobre o futuro. Lula, que pretendia fazer da campanha a coroação de seu terceiro mandato, teve de mudar rapidamente de curso, depois que sucessivas pesquisas mostraram que a desaprovação superou a aprovação de seu governo em todas as pesquisas durante o período eleitoral. Herdeiro político do pai, Flávio Bolsonaro soube colher até onde pôde o voto antipetista. Com baixa discussão sobre os problemas do país, foi uma eleição de rejeições: ambos os candidatos favoritos tinham 45% dos eleitores que não votariam neles de jeito nenhum.
Apesar da disputa nas redes sociais, o eleitor demonstrou maturidade, ao acorrer às urnas para escolher seus representantes em um clima pacífico. Como se tornou hábito, a escolha de senadores e deputados ficou para a última hora, sem despertar o grande interesse que sua importância primordial merecia.
Eleições livres são a melhor forma de os cidadãos corrigirem os rumos políticos e econômicos do país, e prova de vigor na democracia, uma obra sempre em construção. Para o pleito atual, invadiram a atenção dos eleitores a corrupção extensiva a todos os poderes da República patrocinada pelo Banco Master e a surpreendente politização explícita da Corte Suprema.
O segundo turno é uma chance de a disputa mostrar as propostas para o país das duas candidaturas, até agora submersas pela preponderância de denúncias de corrupção. O presidente deixou claro que não vê necessidade de um ajuste fiscal profundo, enquanto Flávio Bolsonaro evita dar detalhes sobre o seu plano para enfrentar a questão — só deu algumas pistas sobre vendas de ativos. A segurança pública e o avanço do crime organizado têm de ser enfrentados com políticas consistentes. Consertar a frágil educação brasileira, melhorar a produtividade brasileira, aprimorar o atendimento à saúde, promover uma melhoria geral dos serviços públicos, tudo isso merece um debate sério, que precisa ser feito agora.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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