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Flávio fez campanha marcada por crises e caso ‘Dark Horse’, mas tem candidatura consolidada

Flávio Bolsonaro se manteve como o único postulante com chances reais contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputa a reeleição

Valor Econômico7 min de leitura
Flávio fez campanha marcada por crises e caso ‘Dark Horse’, mas tem candidatura consolidada

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Maira Erlich/Bloomberg

Da surpresa do meio político e frustração do mercado financeiro com o anúncio de sua candidatura ao resultado expressivo nas pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro (PL) chega às urnas com uma campanha que se mostrou resiliente às sucessivas crises. Escolhido pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, para sucedê-lo na disputa presidencial, o senador conseguiu atravessar as turbulências sem perder competitividade.

Nem as ligações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, nem o isolamento político do PL e tampouco as brigas internas da direita desidrataram o desempenho de Flávio. O senador se manteve como o único postulante com chances reais contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição.

A construção da imagem do presidenciável passou por uma ideia de “o mais moderado da família” e o “Bolsonaro que tomou vacina”, em uma tentativa de diferenciá-lo de Jair. A leitura de estrategistas de sua equipe é de que o senador herda tanto os votos do pai quanto a rejeição do ex-presidente, preso em regime domiciliar por tentativa de golpe de Estado.

Escalado para coordenar a campanha, o líder da oposição no Senado e ex-ministro do governo Bolsonaro, senador Rogério Marinho (PL-RN), ficou encarregado de construir as alianças regionais e liderar a estratégia nacional. A escolha de Marinho para ocupar um dos principais postos da equipe e algumas das decisões que ele tomaria foram alvo de críticas de aliados bolsonaristas ao longo da campanha, especialmente por conta do perfil centralizador. Ele, no entanto, teve carta branca de Flávio e Jair para decidir a estratégia bolsonarista em 2026.

Ao longo do período eleitoral, a campanha de Flávio explorou três temas principais: a segurança pública, o preço dos alimentos e a corrupção. O comando do marketing, no entanto, teve uma alta rotatividade. Passaram pelo posto Sergio Lima, Marcello Lopes, Eduardo Fischer, Alexandre Oltramari e, por fim, Duda Lima. Esse último está no cargo desde agosto e deu o tom da propaganda.

Segundo interlocutores ouvidos pelo Valor, a pré-campanha foi marcada por problemas de comunicação, dificuldades de articulação e conflitos internos. A sucessão de episódios impediu a candidatura de estabelecer uma agenda positiva e fez com que propostas fossem constantemente ofuscadas por novas crises. O período oficial da campanha foi visto internamente como mais positivo.

Campanha explorou três temas principais: segurança pública, preço dos alimentos e corrupção

Um dos principais abalos para a campanha foi a revelação de que Flávio pediu dinheiro a Vorcaro para o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a vida do seu pai. Além disso, o envolvimento do senador em uma tentativa - sem sucesso - de reverter o tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil e a falta de apoio de partidos do Centrão também baquearam a candidatura.

Outras crises vieram de dentro do próprio núcleo bolsonarista, como a exposição pública do desentendimento dos filhos de Bolsonaro com a ex-primeira dama, Michelle. Também é citado o apoio mais tímido dado a Flávio por nomes importantes, como o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

O maior impacto nas intenções de voto, contabilizado pelas pesquisas eleitorais, foi após o caso “Dark Horse”, em maio. A crise foi sucedida, poucas semanas depois, pelo racha público com a madrasta. A campanha tentou reagir para evitar desgaste à imagem do senador, mas só foi recuperar o estrago nas pesquisas eleitorais meses depois, em setembro.

Quando é questionado sobre o destino do montante que foi pago por Vorcaro ao filme, Flávio responde que cabe à produtora prestar contas e alega que isso já foi feito após a empresa responder à Justiça. O candidato também costuma destacar que se tratou de um pedido de investimento privado, embora o Master tenha recebido aportes de fundos de previdência de servidores públicos.

As mensagens mostraram que Flávio chamava o ex-banqueiro de “irmão” e, também, que visitou Vorcaro após a prisão. Ele nega irregularidades, mas passou a ser investigado pela Polícia Federal (PF) por suspeita de lavagem de dinheiro e de corrupção, em um inquérito autorizado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).

O tema foi reavivado nas últimas semanas após o levantamento do sigilo, por Mendonça, das investigações envolvendo a instituição financeira. No relatório enviado pela PF ao Supremo, Flávio é tratado como “interlocutor direto” do ex-dono do Master. Também veio a público que Flávio usou um jatinho de Vorcaro, algo que havia negado meses antes.

Apesar de a divulgação de novos detalhes ter gerado uma repercussão momentânea, o foco das últimas semanas foi a crise entre os ministros do STF. Com o propósito de ganhar apoio diante da instabilidade institucional, o senador fez críticas a Alexandre de Moraes e sua suposta relação com Vorcaro e exaltou a atuação de Mendonça como relator do inquérito.

Aliados de Flávio avaliam que a crise interna no Supremo catapultou o crescimento do candidato do PL nas pesquisas. O ato bolsonarista convocado para o dia 7 de Setembro na Avenida Paulista surfou na onda e a pauta de defesa do impeachment de ministros do STF - tradicionalmente defendida por seu grupo - ganhou força no eleitorado brasileiro. A estratégia da campanha foi colar o desgaste da Corte e de Moraes em Lula.

A costura de alianças partidárias foi mais um dos grandes desafios enfrentados pela campanha. Siglas do Centrão não embarcaram na candidatura de Flávio. Inclusive, recusaram convites para compor chapa. A busca por um vice durou meses e a decisão foi tomada na véspera do prazo formal para o registro da chapa.

O receio surgiu ainda em dezembro do ano passado, quando Flávio foi anunciado publicamente como o candidato escolhido pelo pai. A leitura de dirigentes partidários de siglas do Centrão foi de que Flávio falhou ao não procurá-los antes do anúncio público. Havia uma expectativa de que o candidato da direita fosse Tarcísio. A partir daquele momento, as legendas começaram a se afastar.

Depois de afirmar que queria ter uma vice mulher ao seu lado, Flávio se viu obrigado a escolher um nome do próprio partido, que ficou isolado. A escolha de Alfredo Gaspar (PL-AL) para o posto se deu depois que o PP e o Republicanos declinaram de uma composição. Até então, os nomes da coordenadora do plano econômico, Daniella Marques (PL), e da senadora e ex-ministra da Agricultura de Bolsonaro, Tereza Cristina (PP-MS), eram ventilados como os favoritos para o posto.

A busca pelo eleitorado feminino também foi um dos principais desafios da campanha, que se ancorou em Michelle, na esposa de Flávio, Fernanda, e em Daniella para tentar atingir esse público. O candidato do PL também tentou associar sua imagem à de “pai de menina” para reduzir resistência entre as eleitoras.

Outra polêmica foi o uso de uma simulação da imagem de Jair Bolsonaro produzida com inteligência artificial (IA) na convenção que lançou a candidatura de Flávio. Após questionamentos jurídicos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu limites para o uso das chamadas “deepfakes” nas eleições.

A sucessão de crises, porém, não foi suficiente para fazer a candidatura de Flávio perder musculatura diante de outros candidatos à Presidência do mesmo campo político e o piso das intenções de voto se manteve muito acima dos demais. Na reta final, o caso envolvendo a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora de Aparecida ganhou importância e colocou Flávio na defensiva.

O postulante do PL chega às vésperas da eleição com uma candidatura consolidada e clima de “otimismo”. A avaliação interna é que o bolsonarismo segue uma força política expressiva no país, apesar da tentativa de outros quadros da direita de ocupar o campo de oposição a Lula. Se houver segundo turno, hoje o cenário mais provável, a expectativa é conseguir atrair as legendas do Centrão que não acreditaram que o herdeiro político do ex-presidente iria conseguir construir uma candidatura viável.

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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