'Correio sentimental' e viagens de 4 meses: o papel das tropas de mulas na comunicação do século XIX no interior de SP
O papel do 'correio' dos tropeiros na comunicação do século XIX no interior de SP

Trecho
Se hoje em dia o atraso de alguns minutos para receber o retorno de uma mensagem já causa ansiedade, mandar uma declaração de amor e ter de esperar meses para saber a resposta era um verdadeiro teste de paciência.
No Dia Mundial do Correio, celebrado nesta sexta-feira (9), o g1 relembra o envio de mensagens por meio do tropeirismo, no século XIX, mostrando o contraste entre a facilidade e a velocidade dos cliques da atualidade com a época em que a comunicação dependia de estradas de terra e do compasso lento das tropas de mulas.
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Antes de qualquer serviço postal estruturado, eram os tropeiros que faziam a ponte entre regiões distantes do país, carregando nas mulas não só o sustento comercial, mas o afeto e as notícias que mantinham as famílias informadas.
Essas viagens enfrentavam diferentes desafios. O historiador, pesquisador e jornalista Sergio Coelho explicou que os trajetos saindo de Sorocaba em direção ao sul do Brasil podiam durar até quatro meses, considerando o tempo de ida e de volta. Embora a função principal fosse o comércio de animais, muitos tropeiros assumiam a responsabilidade informal de entregar cartas, valores e documentos.
Mensagens eram enviadas por meio do tropeirismo, no século XIX, entre Sorocaba (SP) e o sul do país
Arte/g1
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A carga dos tropeiros
As rotas de Sorocaba até o sul do Brasil eram percorridas com muares, burros e mulas. O prazo de quatro meses dependia das condições climáticas, da saúde dos tropeiros e dos animais.
O trajeto era majoritariamente feito para comprar e vender animais, mas alguns tropeiros ficavam encarregados de entregar mensagens em cartas, documentos ou valores em dinheiro. Dependendo da carga, um reforço de segurança era feito.
"Nós não tivemos aqui em São Paulo, principalmente, um correio. Havia um costume das pessoas usarem as tropas. Então, por exemplo, tinha uma encomenda para mandar e aí a pessoa ia ver qual tropa que está saindo e procurava encaixar com alguém, ou o próprio tropeiro assumia a responsabilidade ou outras pessoas também", pontuou Sergio.
Historiador, pesquisador e jornalista Sergio Coelho, de Sorocaba (SP)
Arquivo pessoal
Segundo o historiador, as tropas, que incluíam de 12 a 15 tropeiros, eram o principal meio de comunicação e de viagem da época, diferentemente do que é retratado em filmes norte-americanos e de faroeste.
Cantores e artistas também costumavam pegar carona e viajavam com as tropas por ser mais seguro do que irem sozinhos. "Era muito perigoso você você viajar sozinho com uma viola nas costas para ir cantar em Capão Bonito, em Itapetininga. Então, eles geralmente conseguiam uma carona na tropa e, às vezes, pagavam, às vezes cantavam à noite para os tropeiros como pagamento".
Outro costume muito comum era usar as tropas para enviar o que Sergio chamou de "correio sentimental", quando cartas de amor eram remetidas a pessoas queridas que moravam longe.
"Quando eles passavam pelas fazendas, alguém da fazenda, alguma moça que tinha um namorado, um algum moço que tinha uma namorada, [sabiam que] eles [tropeiros] iam passar por lá, eles confiavam essa correspondência ao tropeiro, era o 'correio sentimental'. (...) eles [pessoas] também recebiam e mandavam as notícias para a corte através do tropeiro", acrescentou.
'Pousos' se tornaram cidades
Os locais utilizados pelos tropeiros como paradas ou "pousos" até chegarem ao sul do país se tornaram cidades, entre elas, Itapeva, que antigamente se chamava Faxina, Capão Bonito, Itararé e a própria Itapetininga.
Apesar de os tropeiros chegarem a Ponta Grossa e Curitiba, a região nem sempre era o destino final.
"Eles (tropeiros) saiam daqui de Sorocaba ou de Itapetininga, onde eles estavam morando na época, ou de Tatuí, quando era mais ou menos no final do ano, quando começava o período das chuvas, eles descem para o sul. Eles vão lá, iam até Porto Alegre, por exemplo, e lá eles compravam cavalo, mula e iam fazer o trabalho de compra e formando tropas de 700, 600 animais", disse o pesquisador.
Os animais eram trazidos na época das chuvas porque os pastos costumavam ficar com a grama mais bonita e verde. Segundo Sergio, as levas de muares trazidas do sul até Sorocaba abasteciam o Brasil inteiro.
Os bugreiros
A rota, no entanto, apresentava perigos. De acordo com o historiador, havia ataques tanto de povos indígenas quanto de ladrões de estrada, que se escondiam para emboscar a tropa perto de um rio no bairro das Antas, em Itapetininga.
"Havia muito ataque lá, na época, e às vezes eles pediam reforço da segurança. O governo da época contratava um cidadão chamado bugreiro. Era esse o nome desse pessoal que era especializado em dar cobertura às tropas. Porque uma tropa tem prazos. Como hoje nós temos prazo de avião, de trem, ônibus, a tropa também tem prazo (...) os bugreiros eram um tipo de polícia para ajudar na rota", pontuou.
O jornalista destaca que não existia um "correio tropeiro" estruturado, mas sim negociações informais ou oficiais de entregas que aproveitavam a viagem das tropas e a disponibilidade de alguns tropeiros para realizar o serviço, com acordos firmados em dinheiro ou na base do "fio de barba", ou "no fio do bigode", expressão que significa cumprir o combinado apenas com a palavra de honra, sem contratos escritos.
Festa do Tropeiro em Sorocaba (SP)
Reprodução/ Prefeitura de Sorocaba
De Sorocaba a Ponta Grossa
Uma das rotas mais conhecidas é a de Sorocaba a Ponta Grossa, no Paraná. Uma reportagem de 1976, do Jornal Cruzeiro do Sul, retratava esse percurso, feito por tropeiros até o século XIX.
A reportagem lembrava que o correio a cavalo entrou para a história como um dos momentos heroicos do serviço postal. “Trocando de cavalo de espaço em espaço, seus mensageiros ligavam os Estados Unidos de ponta a ponta, num serviço incrivelmente rápido para a época que precedeu a generalização da estrada de ferro naquele país”, dizia o texto ao trazer o tema para o Brasil.
Reportagem mostra rota de correio a cavalo entre Sorocaba (SP) e Ponto Grossa (PR)
Reprodução/Jornal Cruzeiro do Sul
Ao falar do Brasil, o texto citava o historiador paranaense Ribas Silveira, autor da “História de Ponta Grossa”, livro que contava as origens da cidade paranaense e seus laços com Sorocaba.
Na entrevista ele contou que o correio a cavalo começou a funcionar entre Sorocaba e Ponta Grossa por volta de 1829.
Agência dos Correios em Ponta Grossa, no Paraná
Google Street View/Reprodução
Segundo contou à época o historiador, Ribas Silveira, havia duas malas postais por mês.
“Os mensageiros eram ‘dois valorosos peões, custeados pelos tropeiros, que transportavam a correspondência entre as duas cidades, viajando a cavalo. O estafeta, por não possuir conduzia as cartas até Faxina (atual Itapeva), em quatro dias. E o Sorocabano apanhava a correspondência em Itapeva e levava as cartas à Metrópole do Tropeirismo’", finalizou.
Agência dos Correios, no Centro de Sorocaba
Google Street View/Reprodução
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Matéria publicada por G1. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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