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No RS, trauma com enchentes alimenta fatia de indecisos

Luciano Zucco (PL) foi tenente-coronel do Exército

Valor Econômico6 min de leitura
No RS, trauma com enchentes alimenta fatia de indecisos

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Na sala da casa de Paulo Roberto Kuscht Bittencourt, 61, há um andaime de construção com uma tábua à esquerda da televisão. Ele conta que está ali caso precisem erguer as coisas rapidamente diante da previsão de chuvas intensas no Rio Grande do Sul. Em meados de julho, a água entrou e subiu quase um metro acima do nível do chão. Nesta quinta-feira, Eldorado do Sul, onde ele vive há mais de 25 anos, estava outra vez sob alerta de risco de inundação emitido pela Defesa Civil.

O município foi um dos mais afetados pelas enchentes de maio de 2024, no maior desastre natural da história do Estado, com mais de 90% do seu território debaixo d’água. Na rua onde Bittencourt vive, no bairro Cidade Verde, a maior parte das casas está vazia, muitas viraram escombros cobertas por mato. A escola local perdeu 45% das matrículas. Ele e a família são dos poucos que seguem por ali.

“Em setembro de 2023, os bombeiros vieram nos resgatar”, lembra. “Quando veio a enchente de maio de 2024, a gente ainda estava pagando a geladeira nova. 95% das coisas tivemos que jogar fora, móveis quase não temos mais.”

A família recebeu os R$ 5.100 do Auxílio Reconstrução do governo federal, mas o valor serviu apenas para custear os gastos enquanto estavam em abrigo. Eles foram sorteados para o programa Compra Assistida, que trocaria a casa em área de risco por outra em local seguro, mas não conseguiram encontrar um imóvel dentro do valor que atendesse questões como espaço e serviços de saúde próximos.

Bittencourt passou mais de 20 dias internado por problemas cardíacos durante as enchentes e, desde o desastre, está em tratamento para depressão. Ele vive de trabalhos temporários, além da renda da esposa, Teresinha, que faz pães em casa para vender.

Assim como 24% do eleitorado gaúcho, segundo a pesquisa Quaest de 24 de setembro, os dois estão indecisos sobre em quem irão votar para o governo do Estado. O voto para presidente, que foi para Jair Bolsonaro (PL) em 2022, também está em aberto. “Tem tanta coisa sobre um e sobre outro que tu acaba indeciso”, diz Bittencourt.

Juliana Brizola (PDT) entra na disputa após Assembleia

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A mesma pesquisa aponta o RS com empate dentro da margem de erro e com possibilidade de segundo turno entre o deputado federal Luciano Zucco (PL) e a ex-deputada estadual Juliana Brizola (PDT), que aparecem com 29% e 23% respectivamente. Em seguida, está o atual vice-governador Gabriel Souza (MDB) com 10% das intenções de voto. O ex-prefeito de Guaíba, Marcelo Maranata (PSDB), é o quarto colocado com 3%.

Zucco, tenente-coronel do Exército, se elegeu pela primeira vez como deputado estadual em 2018 junto com o ex-presidente Jair Bolsonaro e o general Hamilton Mourão (Republicanos), de quem era próximo. Em 2022, foi o deputado federal mais votado do RS. Já Juliana teve três mandatos na Assembleia Legislativa gaúcha, disputou a prefeitura de Porto Alegre e costurou uma aliança com o PT local, que acatou o pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cedendo a candidatura própria e colocando Edegar Pretto como vice.

“A gente está com uma eleição estadual bastante atípica, porque nem o Zucco, nem a Brizola são figurinhas marcadas para o governo”, avalia Fabrício Pontin, professor da Universidade LaSalle. “Isso tende a favorecer o Zucco, porque o antipetismo no RS é maior do que o bolsonarismo. Tem muito voto antipetista aqui que não é necessariamente voto bolsonarista.”

Silvana Krause, cientista política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), nota que nem Zucco nem Juliana têm índices altos de rejeição, diferentemente dos dois candidatos principais à Presidência, Lula e Flávio Bolsonaro (PL), e que essa parcela significativa de indecisos pode definir o cenário.

“O RS vem de uma trajetória recente de um trauma com relação a desafios climáticos e isso pode estar tornando o eleitor bastante indeciso. Se é que esse indeciso não será um potencial [eleitor] que não vai votar”, diz ela, lembrando que Porto Alegre foi a capital com mais abstenções em 2024.

Pontin, porém, acha difícil ver uma virada como em 2022. Na eleição passada, Eduardo Leite (PSD) terminou o primeiro turno em segundo lugar, apenas 2 mil votos à frente de Pretto. No segundo, o atual governador acabou eleito graças à migração de votos úteis da esquerda contra o ex-ministro de Bolsonaro, Onyx Lorenzoni (hoje no Progressistas).

Vice-governador Gabriel Souza (MDB) aparece em 3º

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Em meio à indecisão, os eleitores gaúchos ouvidos pela Quaest apontam saúde e enchentes como os principais problemas - os dois temas foram mencionados por 25% dos entrevistados. O Estado é o único a ter enchentes entre as preocupações principais, segundo o diretor do instituto, Felipe Nunes.

Em agosto, uma reportagem do Valor mostrou que recursos do governo federal para prevenção climática não haviam saído do cofre e que só o RS havia deixado de sacar R$ 6,5 bilhões.

Na área da saúde, enquanto Zucco e Juliana questionaram em debates e propagandas os números da fila de espera por atendimento, Souza citava o SUS gaúcho, programa criado em 2025 para tentar ampliar serviços junto a prefeituras e hospitais.

A questão tem peso importante para Sandra Nunes, 63, dona de casa, moradora da Ilha dos Marinheiros, em Porto Alegre. Ela perdeu a casa nas enchentes e hoje mora com os dois filhos em um imóvel alugado em outro ponto do bairro, perto de um posto de saúde. A renda da família é o BPC (Benefício de Prestação Continuada) dos filhos dela.

“O que está ruim são os postos muito lotados. Eu uso muito por causa dele, que tem convulsão, tem que estar sempre perto”, explica ela. Como o filho tem acompanhamento, ela diz que o atendimento não demora. Já ela esperou alguns meses para exames de mama e colo do útero.

O taxista Renato Evangelista Demétrio, 40, também diz analisar os demais temas para definir sua escolha. Ele toma remédios para diabetes, enfrenta questões de saúde mental desde as enchentes e está entre os moradores que deixaram Eldorado depois de ter a casa inundada. “Acho que vai pesar também a questão da contenção das enchentes, tem muita gente ainda morando em local provisório.”

Segundo a prefeitura do município, há projetos de assentamento e construções em andamento para ampliar vagas e desocupar áreas sujeitas às inundações, e mais de 1.360 famílias foram retiradas de áreas de risco pelo Compra Assistida. A maioria delas, 31,8%, adquiriu imóvel em Porto Alegre, outros 11,5% foram para Canoas e 8,99% escolheram casas em Eldorado.

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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