Da evidência à ação: o que as Semanas do Clima dizem sobre a próxima etapa da ação climática
As Semanas do Clima têm ganhado importância ano após ano, uma vez que apoiam o processo de transição entre conhecimento e decisão, planejamento e implementação, política pública e mudança no território implementada pela sociedade civil, empresas e governos subnacionais.

Trecho
Esses eventos surgiram no final dos anos 2000 para mobilizar lideranças políticas, empresariais e a sociedade em torno de maior ambição climática e, na década seguinte, proliferaram em diferentes regiões, de Nova York a Xangai, incluindo, no Brasil, as semanas de São Paulo, Rio de Janeiro e, mais recentemente, Porto Alegre. Ao longo do tempo, esses espaços ampliaram sua missão: do fortalecimento de coalizões e da pressão política entre as COPs — Conferências das Partes signatárias da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima — à promoção da ação climática no nível local. As Semanas do Clima de 2026 ilustram bem essa missão pragmática de conectar quem produz conhecimento, define políticas, movimenta capital e implementa soluções.
Mariana Nicolletti, coordenadora do Programa Adapta do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV
FGVces/ Divulgação
Em 2026, as Semanas do Clima também refletiram o momento atual da agenda climática mais ampla: a pressa para que compromissos nacionais sejam implementados em todos os níveis da ação política, das relações sociais e das esferas da economia, enquanto já lidamos com os efeitos de uma crise climática instalada — impactos físicos que atingem de forma desigual populações minorizadas, territórios periféricos e micro e pequenas organizações. Consolidam-se, assim, como pontes entre a agenda global e realidades setoriais e locais e como plataformas de conexão entre ações, projetos e investimentos sinérgicos e descentralizados.
O Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) esteve representado nas Semanas do Clima de Porto Alegre, São Paulo e Nova York. Em São Paulo, a FGV foi também um dos hubs oficiais da programação.
A primeira Semana do Clima de Porto Alegre aconteceu dois anos depois das inundações que atingiram 478 municípios no Rio Grande do Sul, momento em que passado e futuro se encontram nas conversas sobre reconstrução, retomada econômica e recuperação de ativos públicos e privados. Cadeias de valor estratégicas do estado seguem em esforço de retomada, com pequenos produtores e empresas lutando para se reerguer. A qualificação desse “re” é central: reconstruir não pode significar construir igual; não dá para voltar ao que era antes, reproduzindo vulnerabilidades já conhecidas.
Em São Paulo, ficaram evidentes as capacidades existentes, iniciativas e soluções em curso e seu potencial de integração e escala, quando coordenadas em linha com as prioridades reconhecidas na Estratégia Nacional e nos Planos Clima Adaptação e Mitigação. O foco se moveu das lacunas (de dados, de conhecimento) para a ação, suas qualidades e potencialidades.
Em Nova York, a toada foi de implementação: menos sobre reiterar a urgência da crise e mais sobre como fazer compromissos, planos e conhecimento produzirem mudanças com múltiplos benefícios, por exemplo, por meio de soluções baseadas na natureza (SbN). O financiamento para que tudo isso aconteça também foi uma discussão recorrente. O debate esteve focado mais em como tornar projetos financiáveis e escaláveis do que na escassez de recursos. Ganharam centralidade os diferentes e necessários papéis de cada agente socioeconômico, dos bancos e seguradoras à filantropia, em um momento em que o “ecossistema climático” deixa de ser uma comunidade delimitada e gradualmente se integra à engrenagem econômica.
Apesar das incertezas e do momento geopolítico conturbado, instituições financeiras passam a incorporar dados climáticos aos seus modelos de análise, requerem informações sobre a gestão de riscos climáticos de seus clientes, e o investimento climático — ou ao menos parte dele — demonstra retorno e se viabiliza pela lógica de mercado. A janela de oportunidade está aberta para que dados e evidências produzidos pela ciência aplicada e interdisciplinar informem tomadas de decisão capazes não apenas de proteger ativos, mas de promover resiliência, evitar perdas e danos e reduzir o risco de aprofundamento das desigualdades socioeconômicas nos territórios e cadeias de valor. Afinal, as condições mais favoráveis possíveis para a vida humana formam também a base para a estabilidade econômica.
Marta Blazek gerencia o programa Iniciativas Empresariais do Centro do Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces)
(FGVces)
O espaço entre evidência e ação é ocupado por uma série de elementos menos visíveis: estruturas de governança, incentivos econômicos, novos produtos financeiros e de seguros, capacidades técnicas, métricas, regras orçamentárias, horizontes de decisão, diferentes maneiras de perceber risco e valor, apego ao que já se conhece e à rotina, além das emoções que mediam relações e escolhas, nem sempre trazidas à consciência. Envolve, portanto, questões da ordem cultural e relacional.
A transformação acontece quando evidências, soluções, instrumentos, instituições e comportamentos passam a operar de maneira coordenada. Em escala e complexidade ainda maiores, a transição climática atravessa todas as esferas das sociedades contemporâneas e implica transformações, ao mesmo tempo, tecnológicas, econômicas, sociais, culturais e comportamentais.
A academia e as instituições de pesquisa são, nesse contexto, desafiadas a ir além da (co)produção de dados e informações; são convocadas a facilitar sua inserção nessas diferentes esferas. Isso significa contribuir para a tradução de cenários climáticos em implicações sobre continuidade operacional, competitividade e alocação de capital; do risco físico em informação útil sobre retorno, garantias e prazos; de mapas de vulnerabilidade em diretrizes para Planos Diretores e decisões orçamentárias; de projeções climáticas em decisões sobre manejo, irrigação ou cultivo junto a produtores de alimentos; e de informação científica em entendimento compartilhado nas comunidades sobre ações de prevenção e proteção diante de eventos extremos.
É esse o papel que, como centro de pesquisa aplicada, temos desempenhado e seguimos fortalecendo por meio da atuação junto a governos, empresas, comunidades e parceiros da comunidade científica. O Hub de Adaptação Empresarial, liderado pelo FGVces, por exemplo, surgiu como um conector entre iniciativas, setores, linguagens e práticas; entre ciência climática e estratégia empresarial; entre política pública e ação privada.
Para tanto, o Hub se organiza em três grandes eixos: engajamento e articulação; cocriação técnico-metodológica, produzindo métodos, indicadores, referências e evidências que apoiem organizações a reconhecer riscos, priorizar ações, monitorar resultados e estruturar investimentos; e formação e o fortalecimento de capacidades, traduzindo conhecimento técnico em competências capazes de sustentar decisões e implementação.
Nas Semanas do Clima, esses e outros programas evidenciaram a grande quantidade de conhecimento e de iniciativas que transitam entre a evidência e a ação. Há crescente clareza sobre as barreiras e trade-offs envolvidos, ao mesmo tempo em que se acumulam instrumentos, experiências e soluções. Vontade política segue sendo um fator-chave, mas políticas já instituídas, o reconhecimento de como riscos físicos e de transição afetam a capacidade de geração de valor pelas empresas e a percepção das comunidades sobre os impactos da mudança do clima em suas vidas cotidianas ajudam a sustentar o momentum de mudança.
Sobre as autoras
Mariana Nicolletti é doutora em Administração Pública e Governo pela FGV EAESP e Robert Gordon University, atua como professora na FGV EAESP e coordena o programa Adapta do Centro do Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces).
Marta Blazek é mestre em Gestão para a Competitividade, com ênfase em Sustentabilidade, pela FGV EAESP e gerencia o programa Iniciativas Empresariais do Centro do Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces).
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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