Pular para o conteúdo
Newra News
Mundo

Do cafezal à xícara: neta transforma produção do avô em marca de café especial em MG

Neta transforma produção do avô em marca de café especial em MG

G17 min de leitura
Do cafezal à xícara: neta transforma produção do avô em marca de café especial em MG

Trecho

Na fazenda, o avô planta e colhe. Na cidade, a neta transforma os grãos em uma marca. Entre uma ponta e outra dessa história está o Café Cumbré, uma produção que começou há apenas quatro meses, mas que carrega uma trajetória construída ao longo de anos em Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas Gerais.

✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste de Minas no WhatsApp

Letícia Barros e o avô Vitor Penido de Barros, na fazenda em Itapecerica onde é plantado o café Cumbré

Letícia Barros/Divulgação

Esta é a 9ª reportagem da série “Itapecerica: Sabores, sons e memórias”, publicada pelo g1 aos domingos para contar a identidade cultural da cidade a partir de personagens, histórias e tradições que ajudam a preservar a memória da cidade.

Nesta edição, a história é do café Cumbré, um grão cultivado, colhido e torrado em Itapecerica, em uma tradição que atravessa gerações e transforma uma plantação iniciada pelo avô em um produto que hoje carrega a identidade da família e da própria cidade.

Café com alma de Itapecerica

Letícia durante a torra do café Cumbré em Itapecerica

Letícia Barros/Divulgação

O café é produzido na fazenda de Vitor Penido de Barros, avô de Letícia Barros. É de lá que saem os grãos usados exclusivamente pela marca. Depois da colheita, eles passam por processos de seleção e são torrados para chegar à xícara com uma proposta que vai além do produto, contar a história de uma família e valorizar a produção local.

Letícia, que trabalhava como consultora tributária, decidiu fazer uma transição de carreira para se aproximar da rotina da fazenda e encontrar uma forma de agregar valor ao trabalho do avô.

Produtor de café há cerca de 15 anos, Vitor está em Itapecerica há mais de 35 anos e mantém uma propriedade que emprega mais de 70 pessoas. “Posso dizer que pausei a carreira tributária e pousei ao lado do meu avô”, conta Letícia.

Do café da fazenda ao café especial

Letícia estudou sobre o café produzido pelo avô em Itapecerica e descobriu qualidade especial do grão

Letícia Barros/Divulgação

A mudança começou há cerca de um ano e meio, quando Letícia passou a estudar a qualidade do café produzido na propriedade. Com apoio da Emater e de um agrônomo, ela começou a entender melhor os processos de produção, avaliação e classificação dos grãos.

O café da fazenda já era bem avaliado pela cooperativa para comercialização e exportação. Mas Letícia queria descobrir se havia ali um potencial diferente.

Para isso, fez cursos de gestão estratégica no agronegócio, estudou cafés especiais em Belo Horizonte e fez um curso de torra na Academia do Café. Também passou a acompanhar mais de perto todas as etapas da cadeia produtiva.

“Coloquei realmente a mão na massa no assunto café”, diz.

Ela também buscou entender o que seria necessário para certificar a produção como café especial. A fazenda, porém, não tinha todo o maquinário exigido pelos protocolos internacionais. A solução foi buscar parceiros e produtores de outras cidades.

Em Bom Sucesso, no Sul de Minas, parte do café foi preparada para passar por uma avaliação mais detalhada. O processo envolveu limpeza dos grãos, retirada de pedras, folhas e outros materiais. Até que, em dezembro de 2025, veio a descoberta que mudaria os planos de Letícia.

Uma parte do café que havia sido separada recebeu a classificação de café especial. “Foi aí que eu percebi que tinha um estudo novo mostrando que tinha café especial. Aquele mesmo café da fazenda do meu avô”, lembra.

A partir dali, nasceu a ideia de criar uma marca própria.

Um café que não quer ser apenas um produto

O Café Cumbré foi pensado para não ser apenas mais uma marca comercial. A proposta de Letícia é manter a ligação entre a bebida, a fazenda e a família.

O grão utilizado pelo Cumbré vem exclusivamente da propriedade do avô. A produção, a colheita e a torra são feitas em Itapecerica, formando uma cadeia curta e ligada ao território.

A iniciativa também busca mostrar que o município pode produzir e valorizar cafés que chegam diretamente ao consumidor, sem depender exclusivamente da comercialização por cooperativas.

“Além de carregar a história do meu avô, é mostrar para os demais produtores de Itapecerica que existe essa possibilidade”, explica Letícia.

A marca também aposta em uma produção com preocupação ambiental. Na fazenda, a casca do café é reaproveitada como parte da alimentação das vacas e, depois, o adubo retorna para o cafezal.

“É uma realidade sustentável mesmo, que é a realidade da fazenda hoje. Não quero me afastar desse cuidado com a fazenda e nem com o grão”, afirma.

Do avô para a neta

A história do Cumbré é, sobretudo, uma história de família. Vitor Penido de Barros chegou a Itapecerica há mais de três décadas e construiu a trajetória como produtor rural. Para Letícia, estar mais próxima dele também significa conhecer melhor uma parte da própria história.

Ela conta que o avô mantém uma relação próxima com os funcionários e que se sente útil no dia a dia da propriedade. É nesse cenário que a neta encontrou um novo caminho profissional.

A consultoria tributária deu lugar ao café. O escritório, aos poucos, abriu espaço para a fazenda. E o conhecimento adquirido nos cursos começou a se transformar em um produto que leva o nome da família para além da propriedade.

O nome

Café Cumbré é plantado, colhido e torrado em Itapecerica

Letícia Barros/Divulgação

Até o nome da marca carrega referências familiares. “Cumbré” é uma licença poética mineira criada a partir de cumbre, palavra em espanhol que significa “cume”, ou o topo de uma montanha. As avós de Letícia têm origem espanhola, e o nome também é uma forma de homenageá-las.

“Cumbré honra as minhas avós. Cume, em espanhol, é Cumbre, o topo da montanha, que cabe em uma xícara”, explica.

A expressão também resume a intenção da marca que é transformar em uma experiência pequena, concentrada e afetiva tudo o que existe por trás daquele café.

Apesar dos planos de crescimento, Letícia não pretende transformar o Cumbré em uma marca de grande volume.

A ideia é preservar o caráter artesanal e a história por trás da produção. Ela planeja criar um e-commerce próprio e ampliar a presença da marca, inclusive com a possibilidade de chegar ao Mercado Central de Belo Horizonte.

“Não é uma marca de volume. Não quero avançar nesse sentido. Quero aconchego e não volume”, afirma.

Hoje, as redes sociais são o principal caminho para quem quer conhecer e comprar o café. A marca também já começou a circular entre admiradores do produto e ganhou espaço em eventos, como o Festival de Gastronomia de Itapecerica.

O Sebrae também identificou na iniciativa uma oportunidade de valorização da produção local, e o Cumbré passou a integrar o programa Prepara Gastronomia.

Para Letícia, porém, o objetivo é maior do que vender café. “É o momento de pausar e realmente tomar um café coado.”

E talvez seja justamente aí que a história do Cumbré encontre a de Itapecerica, em uma cidade marcada por sabores, sons e memórias, uma xícara pode carregar a terra onde o café nasceu, as mãos que cuidaram dele e a história de uma família que decidiu transformar uma tradição em futuro.

A história do Cumbré, afinal, ainda está começando. Mas a raiz dela está fincada há anos na terra de Itapecerica.

Leia as outras reportagens da série:

Aos 103 anos, Dona Nem vive cercada por dois séculos de história

Reinado do Rosário transforma Itapecerica com fé, cultura e tradição

Conheça a Cachaça do Mudo e uma tradição de quatro gerações

Banda que atravessa gerações mantém viva em Itapecerica tradição musical iniciada há mais de dois séculos

Antiga senzala em fazenda de Itapecerica vira memorial que preserva a história de vítimas da escravidão

Família transforma criação de ovelhas em experiência de turismo e gastronomia em MG

'Sabores, Sons e Memórias': Cozinheira resgata sabores da infância e leva receitas para a internet em Itapecerica

'Sabores, Sons e Memórias': da terra à mesa, família leva sabores da roça ao Centro de Itapecerica

VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas

Leia na fonte

Matéria publicada por G1. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

Leia também

Newsletter

O mundo não cabe no seu feed. O resumo certo cabe na sua manhã.

Receba o Newra Daily no seu e-mail: o artigo do dia, escrito a partir das principais notícias, em uma leitura só.

Um e-mail por dia. Cancele quando quiser, em um clique.