Salário reduz atratividade da carreira docente
Gabriela Marconi: principal gargalo é garantir condições de trabalho

Trecho
Gabriel Reis/Valor
Vocação pode levar um jovem a escolher a docência e manter um professor em sala de aula por décadas, mas remuneração, estabilidade e jornada de trabalho também pesam na atratividade da carreira e continuam entre os desafios históricos enfrentados pelos professores no Brasil, afirmam especialistas.
Em 2025, professores com ensino superior recebiam, em média, R$ 5,6 mil por mês, abaixo dos R$ 6,6 mil pagos a outros profissionais com o mesmo nível de escolaridade, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica do Todos Pela Educação. Os contratos temporários também crescem. Além disso, a categoria enfrenta mudanças na dinâmica da sala de aula.
Jucélio Guedes, de 52 anos, viu o trabalho mudar ao longo de seus 28 anos de carreira, principalmente com o surgimento dos celulares e da inteligência artificial, que disputam a atenção dos alunos. Coordenador pedagógico de uma escola pública de tempo integral em Macaparana, no interior de Pernambuco, ele também dá aulas de biologia nos fins de semana em um cursinho preparatório para o Enem.
“O que me faz permanecer por tanto tempo na sala de aula é ajudar um jovem sem perspectiva nenhuma a realizar um sonho. Um filho de um cortador de cana chegar na universidade para fazer engenharia civil, para fazer engenharia química, para fazer medicina. A alegria do aluno é a minha alegria”, afirma.
Ele conta que incentiva os alunos a considerar a licenciatura, mas diz que muitos já conhecem as dificuldades da profissão, sabem que o professor leva trabalho para casa e enfrenta desvalorização que, segundo ele, não se limita à remuneração e envolve a falta de reconhecimento na sala de aula e na sociedade.
Ainda há quem escolha a docência desde criança. É o caso de Vinicius Castro, de 27 anos, que está no início da carreira como professor de história em uma escola privada de João Pessoa. Há pouco mais de um mês em sala de aula, ele conta que o interesse pela profissão começou inspirado pelo professor de história que teve na infância.
Castro avalia que a remuneração e a falta de perspectivas de crescimento na carreira podem desestimular os professores. Ele acredita que valorizar a educação como base de tudo é fundamental para melhorar as condições de trabalho.
Para Gabriela Moriconi, pesquisadora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas (FCC), a carreira teve avanços importantes para aumentar a atratividade, como criação do piso nacional do magistério, em 2008. Segundo o anuário, o piso passou de R$ 3,4 mil, em 2015, para R$ 5,1 mil, em 2025, valor corrigido pela inflação.
O novo Plano Nacional de Educação (PNE 2026-2036) também estabeleceu como meta equiparar a remuneração média dos professores com ensino superior à de outras categorias com a mesma escolaridade. A diferença está diminuindo nos últimos ano, mas em 2025 docentes da rede pública com graduação recebiam 85% do rendimento médio de profissionais com ensino superior.
A estabilidade se tornou outro desafio. O anuário mostra que a proporção de contratos temporários avançou nas redes municipais (de 25,9% para 36,9%) e estaduais (de 35,6% para 48,6%) de 2015 a 2025. O crescimento ocorreu na contramão da meta do PNE anterior, que previa apenas 10% em contratos temporários, e também representa desafio para a meta de 30% de temporários do novo plano até o final de 2030.
“O que a gente ouve também nas redes é que há uma mudança demográfica, então estão nascendo menos crianças. A gente não vai precisar de um quadro de efetivos tão grande lá na frente, daqui a 10, 20, 30 anos, porque a pessoa faz concurso hoje e fica 30 anos. Mas a gente não sabe o quanto isso tem sido usado como justificativa para não contratar um efetivo, que é mais caro do que contratar um temporário”, diz.
Entre os desafios, Moriconi destaca ainda as jornadas parciais, como as de 20 horas semanais, ou a remuneração por hora-aula, que podem não garantir renda suficiente ao profissional. Bárbara Born, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, diz que estas jornadas têm impactos sobre a saúde física e mental dos professores, além de afetar a aprendizagem dos alunos.
“O professor não vai ter um tempo dedicado para sentar com os colegas, planejar e pensar como eles podem construir um projeto pedagógico para aquela unidade escolar, e isso tem impacto direto na aprendizagem”, afirma Born.
Para ela, a falta de perspectivas de crescimento profissional, a redução da estabilidade e a percepção de que professores ganham pouco podem afastar jovens da docência. Os ataques à categoria e violências dentro da sala de aula também tornam a carreira menos atrativa.
“Você é um jovem que vai acompanhando de alguma maneira as tendências do mercado. Há anos não tem concurso público. Você tem essa rotatividade dos seus professores enquanto aluno da escola pública. Esse professor provavelmente está se queixando das suas condições de trabalho na sala de aula. Quem vai querer ser professor?”, questiona Born.
Para incentivar o ingresso, a permanência e a conclusão dos cursos de licenciatura, o governo federal criou o Pé-de-Meia Licenciaturas, lançado em janeiro de 2025. Podem ser beneficiados estudantes que obtiveram nota média igual ou superior a 650 pontos no Enem. Eles recebem uma bolsa mensal de R$ 700 e outros R$ 350 na modalidade de poupança, cujo valor pode ser resgatado após a conclusão do curso, caso ingressem como professores na rede pública de educação.
Born avalia que a iniciativa é acertada, mas afirma que ainda é necessário observar a taxa de conclusão dos cursos e se os estudantes de fato seguirão a carreira docente. Segundo ela, essa é uma avaliação de longo prazo. Ela ainda acredita que a iniciativa pode ser aprimorada, por exemplo, com a oferta de bolsas em regiões com maior carência de professores ou com foco em determinados componentes curriculares.
Moriconi também afirma que ainda é cedo para avaliar a efetividade do programa, mas considera que ele pode ajudar a manter na carreira aqueles que já demonstram interesse em seguir na docência. Para ela, o principal gargalo está depois da formação: é preciso garantir condições de trabalho que incentivem os recém-formados a permanecer na profissão nos primeiros anos, período em que eles se deparam com os desafios concretos da sala de aula.
“Os primeiros anos da docência são os mais difíceis, porque a pessoa está entrando em contato com os desafios reais. Se os desafios da profissão já são complexos e as condições que ela encontra para permanecer também são ruins, a chance de buscar uma outra alternativa em outra ocupação que aceite a formação dela é grande. E nem digo só mais atrativas, mas que viabilizem a pessoa a se sustentar”, afirma Moriconi.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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