Pular para o conteúdo
Newra News
Economia

Setor produtivo lista receios sob governos Flávio e Lula

Julia Thomson, da Eurasia: Governo Lula é mais aberto a subsídios, enquanto gestão Flávio poderia acelerar queda de juros

Valor Econômico9 min de leitura
Setor produtivo lista receios sob governos Flávio e Lula

Trecho

Divulgação

Na disputa do segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o mercado no geral tem preferência pela candidatura mais à direita, em grande medida devido às expectativas de ajuste fiscal e de queda das taxas de juros. No entanto, dentro do setor produtivo, há mais nuances do que um mero apoio a Flávio. Nos últimos dias, o Valor ouviu diversos executivos e representantes de diferentes indústrias a respeito - a maior parte aceitou falar sob condição de anonimato - e constatou preocupações em relação aos dois candidatos.

Na avaliação das fontes, por um lado, a vitória do candidato da direita pode representar chance de reaproximação comercial com os EUA, de avanço em privatizações e medidas favoráveis ao empresariado. De outro, alguns veem risco de descontinuidade de políticas industriais estratégicas que vinham sendo conduzidas pelo governo atual e de turbulências nas relações comerciais com outros países, em especial com a China.

“Com Flávio, existe a expectativa de um choque de credibilidade logo de início, o que deve levar a uma queda dos juros um pouco mais rápida. Do ponto de vista industrial, isso acaba sendo positivo, porque uma das principais dores do setor privado hoje é a taxa de juros muito elevada”, afirma Julia Thomson, analista da Eurasia. “ Por outro lado, tem outros fatores que talvez não sejam tão favoráveis para alguns setores da indústria.”

Um dos principais pontos citados por ela é a maior abertura econômica, que pode prejudicar segmentos como os de maquinário, automobilístico, de químicos e de biocombustíveis, em especial o de etanol - um produto forte nos EUA, que o governo americano pressiona para que não tenha tarifas de importação.

Em indústrias consideradas estratégicas para o Brasil no atual cenário geopolítico, e que hoje são alvo de programas de incentivo do governo federal, parte dos executivos ouvidos manifestou preocupação com uma possível ruptura em relação ao arcabouço montado até agora, no caso de uma nova gestão Bolsonaro.

Uma fonte ligada a uma mineradora de terras raras ainda não operante teme que uma mudança de governo possa interromper trabalhos conquistados nesta gestão, como estruturas de financiamentos e incentivos fiscais da recém publicada Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, além de grupos de trabalho criados para abordar o tema de forma técnica.

“A realidade é que com o Lula, no pior cenário, um mercado que poderia eventualmente ficar travado é os EUA. Os demais ficam abertos, e isso não é tão ruim”, diz, sob reserva. “Devemos ter mudanças na política [caso Flávio vença]. Acredito que por meio de Medida Provisória ou decretos, poderá fazer ajustes”, afirma outra fonte do setor, também sob anonimato.

Outros executivos da área observam que, por outro lado, um governo Flávio poderia exigir menos contrapartidas para que os projetos de mineração avancem, o que pode acelerar investimentos.

No setor de biocombustíveis, fontes também apontam preocupação com uma ruptura dos programas em caso de troca da gestão federal, em especial com uma revisão do Renovabio, a Política Nacional de Biocombustíveis, de incentivos ao segmento. Por outro lado, um ator do setor também observa que o governo Lula tampouco deu grande estímulo ao segmento, dado que reduziu as metas de descarbonização planejadas inicialmente, o que desincentivou os produtores. Ainda assim, essa fonte avalia que com Flávio a incerteza é maior.

Segundo Thomson, ambos veem os mesmos setores como estratégicos, mas partem de abordagens diferentes: enquanto Lula tende a dar subsídios e facilitar o acesso ao crédito, Flávio aponta propostas liberais como o caminho de estímulo, como a redução de impostos, flexibilização de regulamentações e de encargos.

Para a analista, hoje a maior incógnita da indústria, em relação às perspectivas no novo governo, é o setor automotivo. “O governo Lula tem muito mais abertura para oferecer certos subsídios. Já a equipe do Flávio parece estar alinhada com o modelo do Paulo Guedes, que é avesso a esse tipo de medida. O setor automobilístico sofreu com isso e eu imagino que vai ter problemas”, diz ela.

A indústria química, que foi surpreendida pela tentativa de encerramento imediato do Regime Especial da Indústria Química (Reiq) em 31 de dezembro de 2021, via Medida Provisória editada pelo governo Bolsonaro, também pode ser afetada pela agenda mais liberal defendida pelo candidato de direita.

Para diferentes segmentos da indústria, outra grande diferença apontada entre os cenários Lula e Flávio é como ficarão as relações comerciais externas, em especial com EUA e China. Fontes avaliam que um eventual governo bolsonarista teria melhor relação com os americanos, mas os efeitos concretos disso, por exemplo em relação às tarifas, não são claros.

Com Lula, a previsão é que a relação ruim com os EUA prossiga, assim como uma política mais protecionista, observa um ator do setor industrial. Já com Flávio há chance maior de negociação de tarifas e de abertura comercial.

Tem que manter equidistância. Os governos, nos últimos anos, tomaram partido”

No entanto, fontes observam que o presidente americano é pragmático e trabalhará em benefício dos EUA. Uma delas recorda que, na gestão de Jair Bolsonaro, houve corte de tarifas a produtos importados de forma unilateral pelo Brasil, sem acordos comerciais, o que a indústria não gostaria de ver se repetir.

Além disso, há dúvidas sobre como a aproximação com o governo Trump poderá afetar as relações com a China, que é o maior parceiro comercial do Brasil. Segundo fontes, trata-se de um ponto de atenção inclusive para o setor agrícola, que é amplamente favorável a Bolsonaro.

Marcos Jank, professor e coordenador do centro Insper Agro Global, espera que Flávio tenha equilíbrio. “Os EUA hoje são competidores [no agro], mas dependemos muito de tecnologia que vem dos EUA. E o nosso maior cliente é a China. Então, tem que manter uma equidistância, sem tomar partido. Os governos nos últimos anos, tanto o Lula como o Bolsonaro pai, acabaram tomando partido. Bolsonaro mais para o lado do Trump, e o Lula mais para o lado da China. Qualquer governante nosso tem que ter certa parcimônia”, diz.

“Lula usou Trump no sentido de colocar a questão da soberania brasileira, mas acabou se distanciando. Espero que Flávio consiga recuperar as relações, mas sem dar preferência clara.”

Na visão de fonte próxima a uma empresa de capital chinês, pode haver mudanças com Flávio, mas não há preocupação porque a base do governo bolsonarista é o agro, que depende da China. Para ele, o discurso de eleição não necessariamente se refletirá na gestão do dia a dia.

Thomson também avalia que a força do agronegócio na base bolsonarista evitará uma ruptura mais extrema com a China, porém, há expectativa de que o BRICS perca força na política externa e de que pequenas tensões possam surgir. Ela pondera que a política também dependerá da escolha para o Ministério das Relações Exteriores, que pode seguir uma indicação mais técnica ou alguém na linha de Eduardo Bolsonaro.

Na área de infraestrutura, a percepção geral é de que, independentemente de quem ganhar, a agenda de concessões seguirá. A gestão atual promoveu uma onda de leilões, principalmente de rodovias, com um modelo de contrato elogiado pelo mercado, o que atraiu novos investidores locais e internacionais.

Com Flávio, porém, há expectativa de avanços em privatizações, que foram abandonadas no atual governo. Além disso, empreendimentos controversos do ponto de vista socioambiental, como a hidrovia do Tapajós e a Ferrogrão, têm mais chances de avançar - o que é visto como algo positivo por fontes de mercado ligadas ao agronegócio e à infraestrutura.

Por outro lado, parte das fontes teme uma queda brusca nos investimentos públicos na área, que são vistos como necessários em regiões e projetos sem atratividade para as empresas, além de dúvidas sobre como ficará a atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento ao setor.

Apesar das diferenças apontadas entre os candidatos, com vantagens e problemas para cada um deles, a questão fiscal é vista por todos como essencial e um ponto positivo para Flávio Bolsonaro.

“O grande ganho é na questão do tratamento do nosso déficit fiscal, da situação das contas públicas. Uma expectativa para o começo da gestão [de um eventual governo Flávio] é fazer um corte de gastos forte que mostre disciplina, isso deve abrir espaço para cair a taxa de juros”, afirma Jank.

Mesmo para um executivo crítico à gestão Bolsonaro em outras áreas, como saúde e educação, a perspectiva na área econômica é mais positiva em um governo Flávio. No entanto, ele e outras fontes destacam que as propostas do candidato não estão claras.

“As promessas foram grandes, se fala de cortes de R$ 200 bilhões. Existe um entendimento entre agentes do mercado de que não vai ser desse tamanho, essa promessa dificilmente vai ser cumprida, são valores exorbitantes. E até agora não se tem clareza de quais vão ser os cortes. No entanto, a visão ainda é bastante positiva, porque mesmo vindo um corte abaixo desse valor prometido, ainda é uma trajetória positiva”, diz Thomson.

Em diferentes áreas, fontes apontam uma expectativa de que uma eventual gestão Flávio não repita exatamente a de seu pai. É o caso do setor imobiliário, que viu crescer nos últimos anos a sua dependência do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), política lançada no governo Lula. No segmento, o sentimento é de euforia com a possível vitória da direita.

A análise de empresários é de que há um “alinhamento” entre a equipe do candidato e a visão do setor, o que incluiria a continuidade e o reconhecimento da importância do programa habitacional - seria uma situação diferente da vivida no começo do governo Bolsonaro, afirma um empresário, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, não compartilhava desse pensamento. A proximidade de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, com Flávio teria ajudado a selar um compromisso do candidato com o setor.

Leia na fonte

Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

Leia também

Newsletter

O mundo não cabe no seu feed. O resumo certo cabe na sua manhã.

Receba o Newra Daily no seu e-mail: o artigo do dia, escrito a partir das principais notícias, em uma leitura só.

Um e-mail por dia. Cancele quando quiser, em um clique.