Nas cidades mais impactadas pelo tarifaço, Flávio supera Lula nas urnas
Motivo de alguns dos principais embates da disputa presidencial e tema que deu tração ao mote de soberania adotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o tarifaço dos Estados Unidos não parece ter beneficiado o petista nas cidades mais impactadas pela sobretaxa de Donald Trump.

Trecho
Segundo levantamento feito pelo Valor, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) venceu em 18 dos 20 municípios mais afetados pelo tarifaço, enquanto Lula só ganhou em Camaçari, na Bahia, e em São Paulo.
O levantamento teve como base informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e um cruzamento de dados dos dez produtos mais impactados pelas tarifas de 12,5% e 25% aplicadas pelo governo americano e as cidades que mais exportam esses produtos. A estimativa foi feita a partir de informações da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
O município mais afetado é Piracicaba (SP), que acolhe empresas que exportam para os Estados Unidos máquinas e equipamentos destinados à indústria agrícola e automotiva, setores fortemente afetados pelas tarifas. A cidade exporta ainda etanol, papel e produtos químicos orgânicos. A dupla tributação também atingiu fortemente os setores de madeiras e móveis, o que impactou municípios como Caçador (SC), Jaguariaíva (PR) e Telêmaco Borba (PR).
Evaldo Niehues Júnior, diretor de relações internacionais da Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina e empresário do ramo da madeira em Braço do Norte, explica que cerca de dois terços das exportações do Estado estão expostas às sobretaxas dos EUA. “É mais que o dobro da média nacional. Os setores mais pressionados estão na cadeia agroindustrial e madeireira: madeira e móveis, gelatina, recipientes de papel, suco de maçã e pescados.”
Empresas de madeira estão tendo mais dificuldades para se abrir a novos mercados. Já o ramo de máquinas tem conseguido diversificar melhor suas exportações. Evaldo cita como exemplo os acordos entre o Mercosul e União Europeia e Mercosul e Singapura, que têm começado a gerar algum alívio.
“São opções concretas que estão à disposição do empresário. É importante reconhecer, no entanto, que a diversificação não resolve todos os casos. Para empresas cuja produção foi desenhada especificamente para o mercado americano, como no caso do setor madeireiro, a substituição via diversificação é lenta e custosa.”
Prefeito de Caçador, cidade catarinense de 76 mil habitantes e oitava mais afetada, Alencar Mendes (PL) diz que o impacto já é sentido no comércio e nos postos de trabalho. No município, o setor de madeira é responsável por cerca de 45% do Produto Interno Bruto. O município viu a exportação cair pela metade desde o início do tarifaço. Segundo o prefeito, o setor gera 6 mil empregos diretos, mas já passou por 3 mil demissões.
“Temos 12 mil trabalhadores na indústria, e 6 mil diretamente ligados à madeira, setor que foi muito impactado pelas tarifas. Foram cerca de 3 mil demissões. Nós percebemos que esses trabalhadores foram absorvidos por outras empresas, mas com salário menor. Isso tem impactado toda a engrenagem da cidade. Estamos sentindo efeitos até no comércio, em que há casos de lojas fechando por causa da diminuição do poder de compra e dúvidas sobre esses postos de trabalho”, conta.
Questionado sobre a expectativa de empresários que acreditam que uma eventual vitória de Flávio levaria à retirada das tarifas, o prefeito diz discordar da visão. Segundo ele, é preciso buscar soluções em vez de politizar o tema. “As tarifas parecem mais uma política dos Estados Unidos. O motivo não parece punir o Lula ou algo do tipo. Eu sou do PL mas não gosto de politizar esse tema. Só torço por mudanças positivas que beneficiem as cidades”.
Carlos Coelho, professor do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RJ), concorda. Em outros países, disse, o alinhamento ideológico com os Estados Unidos têm garantido no máximo uma maior negociação. Ele cita como exemplo a Argentina, governada pelo direitista Javier Milei.
“A Argentina recebeu 10% [de sobretaxa] e agora tem listas de isenções. Mas o que ela deu em troca? Fez um acordo bilateral e deu concessões em propriedade intelectual e barreiras não-tarifárias. Israel era 17%, depois virou 15% e agora baixou para 12,5%. Israel zerou tarifas sobre produtos americanos, mas não conseguiu reduzir mais essa taxa. A Hungria tomou 15% e continua assim”, explica.
“Uma afinidade ideológica com Donald Trump não significa uma redução automática de tarifas, mas um maior acesso à Casa Branca. Então um governo Flávio poderia conseguir reduzir as tarifas, mas através de acordos. É um erro imaginar que a simples eleição acarretaria em concessões por parte do governo Trump”, prossegue.
Segundo levantamento feito pela Amcham e divulgado na sexta-feira (9), as exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceram 31% em setembro, na comparação com o mesmo mês em 2025. A recuperação, no entanto, não foi suficiente para reverter a queda de 6,5% acumulados ao longo do ano.
A retração é bem maior se observados nove dos dez produtos com mais impactados pela sobretaxa. No acumulado do ano, a madeira de coníferas apresentou a maior retração (-50,5%), seguida de granitos trabalhados (-34,1%), sebo bovino (-33,4%) e fumo não manufaturado (-32,2%).
Ao longo do ano, as campanhas de Lula e Flávio disputaram a narrativa em torno das sobretaxas. O presidente associou, em junho, o anúncio de tarifas de 25% a uma visita de Flávio à Casa Branca. Também relembrou publicações do deputado Eduardo Bolsonaro, que vive nos EUA, pedindo punições ao Brasil.
Já Flávio culpou Lula. Em diversas ocasiões, usou o caso para afirmar que o presidente não teria condições de governar e que Lula não teria se esforçado para negociar com Trump.
Candidato do PL teve maioria dos votos em 18 dos 20 municípios mais atingidos por tarifaço.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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