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EUA confirmam 5ª morte por sarampo este ano; entenda o que leva país ao pior surto desde os anos 2000

Vacinação por sarampo nos Estados Unidos

G112 min de leitura
EUA confirmam 5ª morte por sarampo este ano; entenda o que leva país ao pior surto desde os anos 2000

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Arte/g1

Os Estados Unidos confirmaram a quinta morte por sarampo. O país vive o pior surto de sarampo desde que a doença foi declarada eliminada, em 2000: já são mais de 3,6 mil casos só este ano, 59% a mais que em todo o ano passado, que já havia sido o pior em décadas. Especialistas norte-americanos ouvidos pelo g1 explicam que os Estados Unidos correm o risco de voltar a viver o sarampo como na era pré-vacinação.

A vítima, assim como as outras quatro, era uma pessoa não imunizada. Desde o início do ano, dois bebês e dois adultas já morreram. Os dados da quinta pessoa não foram divulgados.

E você pode se perguntar: o que faz um país desenvolvido viver mortes de uma doença prevenível por uma vacina que existe há pelo menos 30 anos?

A resposta não está no surto deste ano isoladamente. Há pelo menos seis anos a taxa de imunização vem caindo no país. Para impedir a circulação do sarampo, um dos vírus mais contagiosos que existem, a cobertura vacinal precisa ficar acima de 95%, patamar que garante a chamada imunidade de rebanho, quando o vírus não encontra gente suscetível suficiente para se espalhar, mesmo diante de um caso importado.

Em 2011, quase metade dos 50 estados americanos, 21, vacinava acima desse patamar. Hoje, são apenas 10.

Uma estimativa com base nos dados do CDC aponta que 1,7 milhão de crianças não se vacinaram contra a doença nos últimos sete anos, mas os dados podem ser subnotificados por causa do formato de saúde no país, que é privado e descentralizado.

O que há por trás disso é uma onda antivacinação, incluindo discursos endossados por Trump e Kennedy Jr., de que a vacina causa autismo, explicam os especialistas. Ainda que não haja evidência nenhuma disso e que a tese já tenha sido derrubada pela ciência.

Eles contam que, mesmo com mortes de bebês no país, é difícil convencer os pais norte-americanos de que é preciso vacinar seus filhos. Ao g1, o infectologista Peter Hotez, da National School of Tropical Medicine, do Baylor College of Medicine, do Texas, e ele explica que o país abriu uma fresta perigosa.

Temos um extenso movimento antivacinação que abrange condados inteiros. Tudo isso resultado do movimento antivacinação e é cada vez mais difícil convencer os pais de que as crianças precisam ser vacinadas (...) É provável que precisemos mudar o esquema vacinal em breve como é feito em países de baixa renda em que o sarampo é endêmico

E soma-se ao movimento antivacina os cortes no Medicaid, que dificulta ainda mais o acesso à imunização, que lá não é de graça. Crianças e adultos que precisam de doses têm que pagar por elas, o que dificulta ainda mais ações de controle nos casos de surto, como agora.

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A queda da cobertura vacinal

Para proteger contra o sarampo, existe a MMR, a vacina da tríplice viral. Nos Estados Unidos, a recomendação é de que ela seja aplicada em duas doses: uma a partir do um ano de idade e a segunda até os seis anos.

Para conter a circulação do sarampo — um dos vírus mais contagiosos que existem —, a cobertura vacinal precisa ficar acima de 95%. É o patamar que garante o que a ciência chama de imunidade de rebanho: proteção suficiente para que o vírus não encontre gente suscetível para se espalhar, mesmo quando um caso importado aparece.

Abaixo disso, começam a se acumular grupos suscetíveis e o vírus – que é extremamente transmissível – começa a se proliferar.

No país, a taxa de imunização varia de estado para estado. O g1 analisou os dados de cada um deles com base nos dados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention), que é a agência de saúde pública dos Estados Unidos.

E há alguns achados importantes:

Em 2011, quase metade dos estados americanos — 21 dos 44 que incluíram as informações — vacinava contra o sarampo acima de 95% da população infantil.

O cenário começa a mudar entre 2020 e 2021, com o primeiro ano letivo atingido pela Covid-19: o número de estados com cobertura acima de 95% cai de 20 para 16 em um único ano.

O problema é a que a Covid é controlada, mas as doses nunca mais voltam a esses patamares. Pelo contrário, o número não para de despencar.

Hoje, apenas 10 dos 49 estados avaliados ainda mantêm essa proteção.

Sarampo é doença prevenível com vacina

Adobe Stock

Estados que por anos figuraram entre os mais bem vacinados do país, como Minnesota, Utah e Ohio, hoje estão nessa lista. O caso mais extremo é Idaho, que caiu 15 pontos percentuais em uma década e hoje tem a pior cobertura do país, a quase 20 pontos do patamar considerado seguro.

O médico infectologista Peter Hotez, da National School of Tropical Medicine, do Baylor College of Medicine, no Texas, explica que a baixa adesão às vacinas, mobilizadas por movimentos antivacinação pós-pandemia são os responsáveis pelas quedas bruscas nas taxas.

E ainda reforça um ponto: para entender o que está acontecendo com o sarampo no país é preciso uma lupa ainda maior sobre o mapa. Os dados do CDC se organizam por estado, mas ele explica que especialistas no país vem defendendo há anos que ele seja feito por condado – uma divisão entre os estados.

Isso porque a vacinação não é uma política homogênea dentro dos estados e nem mesmo o acesso, com a saúde privada no país.

A universidade John Hopkins, uma referência em pesquisa em saúde, tem um mapa em que fez o recorte com os dados por condado e eles revelam bolsões com baixos índices mesmo em estados em que os dados mostram uma alta taxa de vacinação, como a Califórnia e o Novo México. (Veja abaixo)

Isso significa que há grandes grupos de populações suscetíveis, onde o vírus pode começar a circular. E, como explicam os médicos no país, um surto local com a política de medicina privada do país é mais difícil de controlar.

Vacinação por condado mostra bolsões sem imunização mesmo em estados em que a taxa aparece alta no CDC

Arte/g1

Segundo Hotez, o sarampo começa nessas comunidades e se espalha. Isso pode explicar, por exemplo, o caso da Pensilvânia. O estado tem 92,7% de taxa de imunização e não está entre as menores dos Estados Unidos. Ainda assim, reúne o maior número de casos e mortes até agora – já são mais de 700 casos e 5 mortes, entre elas dois bebês.

Os números são ainda subnotificados e a forma como analisamos a cobertura vacinal omite bolsões de risco. (...) Neste momento, o país está em queda livre e caminha para que o próximo ano seja ainda pior do que o que estamos vivendo agora.

Qual a consequência de um país com redução na taxa de imunizados?

E você pode se perguntar: qual o tamanho do risco se a maior parte dos Estados Unidos ainda parece ter taxa de imunização em mais de 90%?

A pediatra, referência em imunização e diretora na Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) , Flavia Bravo, explica que essa porcentagem se traduz em milhões de pessoas quando se pensa matematicamente.

Veja:

De acordo com o CDC, este ano letivo, os Estados Unidos avaliaram a carteira de vacinação de 3,7 milhões de crianças que entraram na pré-escola. A cobertura média foi de 92,5%.

Isso significa que quase 284 mil crianças completaram a pré-escola sem as duas doses da vacina tríplice viral só neste ano. Essa conta se repete ano a ano, com variações até maiores, há pelo menos seis anos.

Se levarmos em conta que o número de não vacinados é sempre nessa média, são pelo menos 1,7 milhão de crianças sem a imunização completa contra a doença no país nos últimos seis anos.

“A redução da imunização, ainda que pareça uma taxa mínima, tem resultados sem precedentes, como o que estamos vendo. O país criou uma multidão de pessoas suscetíveis e que hoje são crianças e adultos vulneráveis ao vírus”, explica Bravo.

Aumento de casos de sarampo nos EUA leva ao pior surto desde os anos 2000

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O médico infectologista Peter Hotez, da National School of Tropical Medicine, do Baylor College of Medicine, do Texas, que publicou diversos artigos sobre a imunização no país, explica que os Estados Unidos enfrenta um desafio e que, para evitar um cenário de escalada ainda mais intensa do sarampo, precisa mudar a política de imunização.

Em países desenvolvidos, em que a doença é controlada, a vacinação é feita a partir dos primeiros doze meses. Já em locais onde a doença se dissemina, é preciso que antes dos seis meses, as crianças recebam uma dose de “controle”.

No entanto, as autoridades de saúde enfrentam um desafio. Por lá, a MMR não é gratuita. Só tem acesso quem tem seguro saúde ou é coberto pelo Medcaid. Do contrário, é preciso pagar pelo imunizante em duas doses. Isso faz com que muitos não coloquem a vacina como prioridade e seja mais difícil tomar ações de prevenção.

A corrida contra a vacina

Ao longo do governo, o presidente Donald Trump e o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., vêm relacionando publicamente a vacina tríplice viral ao autismo — e chegaram a sugerir que o próprio imunizante estaria por trás do aumento de casos de sarampo no país.

A hipótese não é nova, e também não é apoiada por evidências científicas. Ela remonta a um estudo fraudulento de 1998, do médico britânico Andrew Wakefield, que associou a vacina tríplice viral ao autismo.

A pesquisa foi posteriormente identificada como fraudulenta — os demais autores retiraram os nomes do trabalho, a revista que a publicou a retratou, e Wakefield perdeu a licença para exercer medicina. Desde então, estudos em diferentes países, acompanhando milhões de crianças, não encontraram nenhuma relação causal entre vacinas e autismo.

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No início de agosto, Trump assinou um decreto reformulando o calendário nacional de vacinação — Kennedy Jr. estava presente no momento da assinatura. O texto reduziu de 17 para 11 o número de vacinas obrigatórias e reclassificou outras seis, que passaram a valer apenas para grupos específicos ou por decisão médica caso a caso.

Uma das mudanças recaiu justamente sobre a MMR: o novo padrão deixou de recomendar a dose combinada contra sarampo, caxumba e rubéola, priorizando doses separadas para cada uma das três doenças.

A decisão veio mesmo com o país já enfrentando alta expressiva de casos. Ainda assim, o presidente optou por atacar publicamente a vacina combinada, afirmando — sem apresentar dados que sustentassem a alegação — que ela poderia causar mortes e estaria ligada ao autismo. Apesar do discurso, o governo manteve a aplicação da MMR até que versões separadas estivessem disponíveis.

“As decisões sobre políticas de vacinação são tomadas principalmente pelos estados, e não pelo governo federal; no entanto, a linguagem e a retórica da Casa Branca podem exercer grande influência. (...) A frequência de resistência ou recusa por parte dos pais pela imunização vem aumentando constantemente”, explica.

São Paulo tem 4 novos casos de sarampo confirmados

Recentemente, houve mais um revés: depois de incluir as duas primeiras mortes por sarampo do país, o CDC voltou atrás e retirou os dados de seu balanço – que agora voltaram nesta terça-feira (29), apesar de ignorar outras duas mortes já confirmadas.

Ao g1, Hotez, que tem livros e artigos publicados sobre a imunização no país e é uma autoridade no assunto, diz que o tema vem sendo politizado. “Não vejo evidências científicas que sustentem essas ações”, explica.

Para o médico Omer Awan, especialista em saúde pública que atua na Pensilvânia, reverter o quadro exige justamente o oposto do que o governo tem feito: uma fala uníssona e campanha por imunização. Do contrário, o país pode viver uma cenário como no pré-vacina nos próximos anos.

“Conter a propagação do sarampo exigirá campanhas de conscientização, a oferta da vacina tríplice viral — especialmente para comunidades onde as taxas de vacinação caíram — e mensagens claras sobre a segurança e a eficácia do imunizante”, explica.

Casos de sarampo no Brasil

Arte/g1

E qual o cenário no Brasil?

No Brasil, a cobertura vacinal completa contra o sarampo, com as duas doses da tríplice viral, está abaixo de 80% — bem distante dos 95% considerados ideais para bloquear a circulação do vírus.

Mesmo assim, o país registrou apenas 42 casos neste ano, a maioria concentrada em São Paulo: 36 deles (85,7%) no estado, sendo dois em São Bernardo do Campo, um em Guarulhos, um em Santo André e os demais na capital.

Para a pediatra Flávia Bravo, da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a diferença entre os Estados Unidos e o país não está na cobertura vacinal, mas na resposta aos casos.

O Brasil mantém um sistema de vigilância constante e que tem uma pronta resposta em um sistema que gratuito.

"Se nós temos casos, temos um sistema de acompanhamento, rastreio e de resposta para aquela região. Como em São Paulo, por exemplo, que houve campanha de vacinação massiva para evitar a circulação do vírus. Isso inclui até estrangeiros", explica.

O país já viveu a experiência de perder essa margem de segurança. O Brasil chegou a perder o certificado de país que eliminou o sarampo em 2019, mas recuperou o status em 2024, depois de um trabalho de contenção e vigilância epidemiológica.

Ainda assim, a especialista reforça que a cobertura precisa continuar subindo. Para ela, manter os pais vacinando as crianças é a única forma de evitar que o país acumule, ano após ano, uma população cada vez maior de pessoas suscetíveis à doença — o mesmo mecanismo que, segundo ela, já levou os Estados Unidos à situação atual.

“Nós também temos esse tipo de movimento antivacinação no país, mas conseguimos controlar o vírus ainda. Quem nasceu antes dos anos 90 e da vacina da tríplice viral viveu um sarampo letal, que levava pessoas à morte, que tinham consequências graves para a saúde. É preciso que os pais lembrem que essa é a doença”, explica.

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Matéria publicada por G1. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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