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Vorcaro tentava vender créditos do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool desde 2024

Daniel Vorcaro buscava ao menos desde 2024 vender parte de sua carteira de precatórios e outros direitos creditórios, entre eles créditos relacionados ao antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que agora estão no centro de decisões do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Valor Econômico5 min de leitura
Vorcaro tentava vender créditos do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool desde 2024

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É o que indicam mensagens trocadas entre o então controlador do Banco Master e o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro obtidas pelo Valor.

Nas conversas, Faria relata a Vorcaro contatos que teria mantido, por exemplo, com o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, sobre uma possível negociação envolvendo os créditos do IAA. Não há, no material analisado, mensagens trocadas diretamente com Esteves que permitam confirmar os termos relatados. Faria trabalhou na área de relações institucionais do BTG de março de 2023, após o fim do governo Bolsonaro, até fevereiro de 2024.

Vorcaro e Faria discutem entre si a possibilidade de venda de 50% da carteira, valores, deságio, pagamento inicial, participação no resultado e uma estrutura por meio de um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC).

As mensagens mostram uma relação próxima entre Faria e Vorcaro. Os dois discutiam negócios e investimentos, e o ex-ministro aparece em diferentes ocasiões como uma espécie de ponte entre o então banqueiro e potenciais parceiros. Em abril de 2024, Faria chegou a propor que reservassem uma hora por semana para planejar os negócios que desenvolviam. “Amizade, negócios e lazer. Vamos fazer as 3 coisas respeitando essa ordem”, escreve. Vorcaro responde: “Temos tantas coisas que estamos fazendo e que vamos fazer, importante é estarmos juntos”.

Todo Bacen vai reunir hoje com a AGU pra falar específico dos meus precatórios. Estou preocupado”

Na mesma ocasião, Vorcaro demonstra preocupação com sua exposição a precatórios. “Todo Bacen [Banco Central] vai reunir hoje com a AGU [Advocacia-Geral da União] pra falar específico dos meus precatórios. Estou preocupado pois uma batida nesse tema em cima de mim prejudica demais pois tenho volume grande”, escreve em 3 de abril de 2024.

A discussão ocorreu meses antes de a situação do Master se agravar. Em 28 de março de 2025, o BRB assinou contrato para adquirir a maior parte do capital Master, que acabou rejeitada pelo BC.

Em 27 de maio do ano passado, o BTG acertou a compra de cerca de R$ 1,5 bilhão em ativos de Vorcaro. O pacote incluía 15,17% da Light e participação indireta de 8,12% na Méliuz, além de imóveis, créditos, direitos creditórios, fatias de empresas fechadas e posições inferiores a 5% em outras companhias abertas. Vorcaro se comprometeu a disponibilizar os recursos ao Master. Precatórios também estavam entre os ativos negociados, assim como o prédio do hotel Fasano, no Itaim, em São Paulo.

As informações disponíveis não permitem afirmar que os precatórios dessa operação fossem os mesmos créditos do IAA discutidos por Faria e Vorcaro em 2024. Os créditos ligados ao IAA voltaram ao centro das atenções neste mês. Em 23 de setembro, a Corregedoria Nacional de Justiça determinou o cancelamento de 16 precatórios expedidos pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) antes do trânsito em julgado da fase de execução e a devolução dos valores à Conta Única do Tesouro Nacional. Em 28 de setembro, a medida foi estendida a outros 14 precatórios, que somavam cerca de R$ 1,87 bilhão nas respectivas datas-base.

Procuradas, as defesas de Vorcaro e Faria não se manifestaram. O BTG não se pronunciou.

A busca por capital e liquidez também se manifesta em outros diálogos extraídos do celular de Vorcaro. Uma conversa entre ele e Luiz Rennó, ex-diretor jurídico do Master, sugere que a J&F, holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista, teria negociado um aporte de capital no banco e a compra de R$ 1,5 bilhão em letras financeiras emitidas pela instituição enquanto estava em andamento a operação de venda de parte do Master ao BRB. A estrutura consta de um memorando de entendimentos discutido por Vorcaro e Rennó em mensagens trocadas em abril de 2025.

Questionada pelo Valor, a J&F disse que “analisou ativos do Banco Master oferecidos em 2025 e não seguiu adiante na negociação após seus assessores jurídicos entenderem que os ativos não se sustentavam”.

As negociações da J&F com Vorcaro se tornaram públicas no início de maio daquele ano, mas foram apresentadas à época principalmente como tratativas para a compra de ativos do banqueiro e de ativos que ficariam fora da operação com o BRB. Entre os negócios de interesse da holding dos Batista estavam o Credcesta (cartão de benefício consignado voltado principalmente para servidores públicos, aposentados e pensionistas), a carteira de precatórios e pré-precatórios (títulos de dívidas judiciais) e ativos pessoais do controlador do Master.

As mensagens sinalizam, porém, que a negociação discutida entre Vorcaro e Rennó teria escopo mais amplo e envolvia diretamente o próprio Banco Master. O memorando previa aumento de capital da instituição a ser integralizado pela J&F, sujeito à aprovação do Banco Central, além da emissão de R$ 1,5 bilhão em letras financeiras do Master que seriam adquiridas pela holding.

O documento que aparece nas conversas entre Rennó e Vorcaro também vinculava parte da negociação ao destino da operação com o BRB. Caso a transação anunciada em 28 de março de 2025 não fosse concretizada - o que de fato aconteceu -, a J&F teria uma opção de compra do Credcesta por R$ 500 milhões.

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master

Victor Moriyama/Bloomberg

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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