‘A paternidade determinou minha identidade’: Vladimir Brichta faz monólogo sobre separação entre pai e filhos
“Não gosto de fazer da minha vida uma catarse”, diz Vladimir Brichta

Trecho
Julia Mataruna/Divulgação
O título da peça “O menor palco do mundo”, segundo Vladimir Brichta, gera leituras além da obviedade. Primeiro, o ator se imaginou em um espaço cênico, delimitado por fitas adesivas, referência à cela onde se ambienta o monólogo que estreia neste sábado, dia 10, no Teatro Vivo, em São Paulo. Esmiuçando o texto do autor australiano Kim Crotty, o intérprete compreendeu que esse palco reduzido não era uma noção física. O tablado tão pequeno diz respeito à paternidade. Desta questão, Brichta entende.
O artista de 50 anos é pai da atriz Agnes Brichta, de 29, do estudante Vicente, de 20, e participou da criação do ator Felipe Ricca, de 26, filho de sua mulher, a atriz Adriana Esteves, a mãe de Vicente. “Quando a Agnes nasceu, eu tinha 21 anos, e a paternidade determinou minha identidade”, afirma. “Agora, atravesso a crise do ninho vazio com todos eles adultos, e o Vicente cursando cinema em Los Angeles, porque não imaginava como é viver sem filhos por perto.”
Diante do momento sensível, Brichta conta que, ao receber o convite do diretor Luiz Felipe Reis e das idealizadoras Aura Cunha e Paula Picarelli para a peça, a resposta positiva estava na ponta da língua. No decorrer do processo, o ator entendeu o quanto suas experiências contribuiriam para o protagonista do seu primeiro solo em três décadas de carreira.
“O palco é onde o ator usa uma máscara para falar de sentimentos verdadeiros”, explica. “Entre pais e filhos, porém, não existe a representação, você se mostra o mais próximo do que é, então não há palco menor.”
O monólogo se inspira na história real do autor. Crotty, pai de dois filhos, começou a vender a maconha plantada no seu quintal, sem medir as consequências. Condenado a dois anos de prisão, busca minimizar o sofrimento escrevendo fábulas que são levadas pela mulher para as crianças de 3 e 5 anos. “É uma tentativa de manter o vínculo que ganha um efeito curativo e o faz se confrontar com os próprios demônios.”
Brichta sabe o que é ficar distante de uma filha contra a vontade. Em 1999, o ator ficou viúvo da cantora Gena Karla Ribeiro, de 28 anos, vítima de uma doença rara chamada porfiria aguda, que afeta a produção de hemoglobina. Sua ex-sogra, a procuradora de justiça Maria Eugênia da Silva Ribeiro (1940- 2025), tomou Agnes sem autorização legal. O pai só falou com a menina por telefone depois de três meses e levou meio ano para encontrá-la de novo.
Uma batalha judicial foi travada até o artista, já fixado no Rio de Janeiro e contratado da Rede Globo, garantir a guarda e voltar a morar com a filha depois de 1 ano e 10 meses. No meio do processo, Brichta participou da novela “Coração de estudante” (2002) como um peão que encontra um bebê abandonado e sofre com o retorno dos pais biológicos.
“Provavelmente, o autor, Emanuel Jacobina, sabia do meu problema e incluiu a trama”, lembra. “Não sei o quanto minha história pode ter interferido nas escalações, mas o fato é que fiz vários pais envolvidos em diferentes conflitos relativos aos filhos.”
Entre os papéis aparecem o pescador Enrico e o coronel Egídio, respectivamente nas novelas “Kubanacan” (2003) e “Renascer” (2024), e um juiz da peça “Hamelin” (2009), do espanhol Juan Mayorga, que, apesar da falta de atenção aos filhos, defendia crianças vítimas de pedofilia.
Nas séries da Netflix, a problemática é recorrente, como em “Pedaço de mim” (2024) e “Habeas corpus”, lançada no dia 23, em que Brichta interpreta o advogado Murilo Villar. “Várias falas explicitam o sonho do personagem em ser pai”, diz. “Uma tragédia, envolvendo a mulher dele, vivida pela Marjorie Estiano, impede essa concretização.”
Se, nesses casos, a arte pode ter imitado a vida, o protagonista rejeita a exploração das bagagens como matéria-prima explícita no trabalho. Na adaptação de “O menor palco do mundo”, assinada por Reis e Picarelli, há uma segunda camada que coloca em cena um ator em diálogo com os dramas de Kim Crotty.
Brichta ressalta que se trata de um tipo fictício e jamais ele mesmo se apresentaria recorrendo ao formato de depoimento. “Eu vejo sentido em aproximar experiências do personagem, mas não gosto de fazer da minha vida uma catarse.”
O artista controla ao máximo qualquer exibição como pessoa física e, a exemplo de Adriana Esteves, não possui ou se interessa por redes sociais. Diante disso, para ele, é impensável expor outras pessoas dentro de um contexto artístico.
Seu pai, o geólogo e ativista ambiental Arno Brichta, foi preso em 1975 pelos agentes da ditadura militar. O ator tomou conhecimento há alguns meses de uma carta enviada por Arno da cadeia ao seu avô que poderia resultar em inspiração nos ensaios. Bastou contar até três, e a ideia foi descartada.
“Nesta sociedade narcisista, se tornou comum as pessoas explorarem as vivências como fim no teatro”, diz. “Tive um pai muito presente, aprendo a cada dia com os meus filhos, mas respeito um limite que me faz preferir a liberdade de ser visto em cena apenas como Kim Crotty.”
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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