O eleitor brasileiro merece mais
O cidadão brasileiro que trabalha de sol a sol e gasta mais de duas horas por dia deslocando-se entre sua casa e seu local de atividade, que empreende, que investe, que arrisca, que faz bicos como uber ou entregador de aplicativo para pagar boletos e dívidas, merecia mais respeito dos partidos e dos candidatos nestas…

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O cidadão brasileiro que trabalha de sol a sol e gasta mais de duas horas por dia deslocando-se entre sua casa e seu local de atividade, que empreende, que investe, que arrisca, que faz bicos como uber ou entregador de aplicativo para pagar boletos e dívidas, merecia mais respeito dos partidos e dos candidatos nestas eleições.
Chegamos ao dia D, ao dia que, como acontece no Brasil há mais de duas décadas, ganha ares de véspera do fim do mundo. Desde que a então presidente Dilma Rousseff enfrentou Aécio Neves (PSDB) em busca da reeleição, em 2014, toda eleição presidencial é um mega teste de estresse. E pensar que o Fla-Flu eleitoral já foi Fernando Henrique Cardoso (PSDB) x Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Caberá aos historiadores analisar por que Aécio Neves, neto de Tancredo Neves, presidente eleito pelo Colégio Eleitoral em 1985 como parte do acordo possível para que o Brasil retornasse aos braços da democracia após 21 anos de ditadura militar, por que justamente Aécio Neves seria o homem a nos levar a esses tempos de estresse permanente, de crise política que não se dissipa, de golpes e contragolpes, em que cada eleição presidencial tem esse aspecto de dia do Juízo Final.
Ao contestar sua derrota para a então presidente Dilma Rousseff (PT) no segundo turno de 2014; ao pedir, de forma inédita, auditoria ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alegando dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas; ao solicitar a cassação da chapa vencedora, Aécio e seus tucanos abriram o caminho da insegurança política .
Sim, essa atmosfera de tensão estivera presente em 1989, no segundo turno que botou cara a cara Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, com o resultado conhecido. Se o Lula de hoje é melhor ou pior do que o do milênio passado é assunto para opinião pessoal, mas experiência e temperança dificilmente são inúteis a políticos. Se Collor era melhor ou pior que Flávio Bolsonaro, também está no terreno da escolha individual. Um prometia “caçar marajás” do serviço público; o outro promete soltar e anistiar criminosos que atentaram contra a democracia. Cada um sabe de si.
Não custa lembrar que as eleições de 1989, que levaram a chapa Collor-Itamar ao poder, deixaram de fora do segundo turno Ulysses Guimarães (PMDB), Mário Covas (PSDB), Leonel Brizola (PDT), Guilherme Afif Domingos (PL), Aureliano Chaves (PFL), Fernando Gabeira (PV), Roberto Freire (PCB), Paulo Maluf (PDS) e Ronaldo Caiado (PSD), montado em seu cavalo branco. Salvo o nome de Caiado, melhor não repetir aqui quem serão os preteridos neste domingo de outubro de 2026, passados 37 anos.
O efeito da comparação, não de preferência política, mas de estatura política e/ou humana, é inequívoco: nossa democracia está definhando, encolhendo em tamanho, qualidade e diversidade. Noves fora o nanismo, nenhuma mulher, nenhum preto, nenhum homossexual participou dos poucos debates realizados. A culpa não é das emissoras de TV e de rádio, obviamente. É dos partidos, que preferem cumprir (ou driblar) as leis de representatividade de outros modos.
No início da década de 1990, com o país ainda enchendo os pulmões de liberdade, vieram denúncias de corrupção contra Collor, o homem da mensagem na camiseta usada para a corrida dominical. Dá para imaginar o que Collor e sua marquetagem teriam feito no Tik-Tok?
O tempo fechou, o povo vestiu preto nas ruas, o Congresso aprovou em 1992 o impeachment de Collor. Aquele foi um marco positivo: um teste agudo a avalizar o vigor das instituições e do arcabouço legal da Constituição de 1988.
Depois veio Itamar Franco, o vice alçado à Presidência, com seu temperamento um tantinho mercurial. Visto com os olhos de hoje, um problema sem importância. Itamar bateu cabeça até encontrar Fernando Henrique e a equipe do Plano Real, os brasileiros capazes de domar a inflação. Quem só recebeu salário ou renda em reais a vida inteira (caso de todos os que viraram adultos depois de 1994) pode ter dificuldade para entender a grandeza daquela conquista.
No atual milênio, e de novo sem entrar em julgamento de valor ou em preferências ideológicas, os candidatos de oposição foram, além do próprio Lula em 2002, os tucanos Geraldo Alckmin, José Serra e, sim, Aécio Neves.
Em 2018, Jair Bolsonaro teve como principal contendor o ex-ministro Fernando Haddad (PT), dado que Lula estava preso, condenado por corrupção. O MDB do então presidente Michel Temer lançou como candidato oficial o eleitoralmente inexpressivo Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central do Brasil. Mas havia candidatos peso-pesado na disputa, como Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), além de caras novas como Guilherme Boulos (então no Psol) e João Amoêdo (Novo).
Em 2022, com Lula reabilitado e Bolsonaro tentando com todos os recursos (legais e ilegais) manter-se no poder, vivemos o ápice da eleição “doomsday”. Uma sensação que só foi agravada pela tentativa de golpe de Estado articulada e executada pelo bolsonarismo, chegando ao paroxismo em 8 de janeiro de 2023, sete dias após a posse de Lula para seu terceiro mandato.
Neste domingo, passados 96 anos desde que os revolucionários liderados pelo gaúcho Getúlio Vargas amarraram seus cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco, no coração do Rio, os 158 milhões de brasileiros com direito a voto decidirão se e como a disputa se dará, ou qual será seu desfecho imediato.
Vão reafirmar a escolha de 2022 e botar o “retrato do velho” (Lula) no mesmo lugar, como dizia o jingle de campanha de Getúlio (então com 68 anos) em 1950? Ou Flávio, o filho 01, herdeiro preferencial de Jair Bolsonaro, será alçado à categoria dinástica? Os dois vão juntos para o segundo turno? E quem terá a pole position?
Saberemos em poucas horas. O fato é que o eleitor merecia mais sinceridade e transparência na campanha eleitoral. A começar pelos programas de governo registrados pelos candidatos a presidente junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde sobraram platitudes e compromissos vagos.
Em um pleito marcado pela interferência desmesurada do Supremo Tribunal Federal (STF) e por uma disputa fratricida dentro da instituição, vistas com estarrecimento pelos eleitores, cabe uma reflexão final sobre os deveres dos cidadãos brasileiros.
As mesmas pessoas que criticaram o ministro do STF Gilmar Mendes por intervir no debate presidencial marcado pela TV Globo para a noite de quinta-feira (dia 1), impondo a presença de Renan Santos (Missão) e afugentando Flávio Bolsonaro (PL), muitas dessas mesmas pessoas aplaudiram o mesmo Gilmar quando, em 18 de março de 2016, em pleno processo de impeachment da presidente Dilma, ele impediu Lula de assumir o cargo de chefe da Casa Civil.
A democracia se renova. O Brasil continua a produzir talentos para a política e para a gestão pública. Há muitos nomes promissores. É só escolher.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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