Abstenção cresce pelo 5º pleito e 33 milhões de eleitores não comparecem às urnas
O primeiro turno das eleições 2026 manteve a tendência de forte abstenção do eleitorado. Com quase 100% das urnas apuradas, o índice subiu pelo quinto pleito seguido e chegou a 21,08%, com mais de 33 milhões de brasileiros que deixaram de votar.
Trecho
Na eleição de 2022, o percentual dos que se abstiveram foi de 20,95% - o mais alto desde 1998, quando chegou a 21,49%. Ontem, um em cada cinco eleitores não votou.
“Esta é uma eleição das grandes variáveis ocultas”, diz Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília, a UnB. “Há certa apatia oculta, um desânimo do eleitor nos dois campos políticos. Existe frustração da base progressista em relação ao governo Lula e pouca mobilização em relação a Flávio Bolsonaro. Tirar hoje o eleitor de casa para votar é um grande desafio das candidaturas”, continua o cientista político. “Cansaço e desânimo são marcas desta eleição.”
Quem se absteve teve peso político importante no resultado do primeiro turno. A eleição, indo ao segundo turno, aumentará mais a pressão sobre esta parcela do eleitorado.
Outro segmento importante para definir o resultado é o chamado “eleitor pendular”. Trata-se do “indeciso, mas despolarizado, não preocupado com disputas ideológicas, mas sensível a problemas concretos do dia a dia como a pressão sobre o orçamento doméstico”, explica Medeiros. O “pendular” votou majoritariamente com Lula em 2022, mas demonstra alguma resistência agora. “Por outro lado, não quer radicalismo. É fluido a cada eleição”, diz o cientista político.
Um ponto que chama a atenção dos analistas é que tudo indica que a abstenção foi mais forte entre os segmentos de menor renda e de menor escolaridade, e nas faixas etárias mais elevadas. “Isso, em uma eleição apertada como esta, pode ter comprimido a votação de Lula no primeiro turno”, diz Medeiros.
A cientista política Cila Schulman, CEO do grupo Idea e colunista do Valor, dizia, no início da tarde de ontem, que estava interessada em “saber do não voto”, ou seja, quem votaria em branco, quem votaria nulo e quem optou por não votar. “O Brasil tem tido abstenção sistêmica em torno de 20%, bastante concentrada na baixa renda e na baixa escolaridade. Isso tende a prejudicar o PT, que concentra votos nesta faixa”, disse. “Esse é um dos motivos, inclusive, que tiram cerca de 1,5% do Lula, já que o eleitor que dizia na pesquisa que iria votar nele não aparece para votar.”
Ela atribui ao “eleitor pouco entusiasmado dessa vez” o resultado no primeiro turno do nível de abstenção - que, contudo, é uma tendência das últimas cinco eleições. “Mas desta vez tivemos um eleitor anestesiado, pouco energizado com as opções para presidente”, observa Cila Shulman. “O voto no Brasil não pode ser mais considerado obrigatório, pois é muito fácil justificar via aplicativo e a multa não é reajustada desde 1996”, diz. “Além disso, o incentivo é baixo, pois a exigência de estar quites com a Justiça Eleitoral é feita quando se vai tirar passaporte, concorrer em concurso público ou ocupar cargo público.”
Em seu último ato de campanha do primeiro turno, em São Paulo, no sábado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reforçou seu apelo contra a abstenção nas eleições. Pediu que o eleitorado acima de 70 anos fosse às urnas no domingo. Manifestou ali a maior preocupação da campanha na véspera do primeiro turno. “Eu tenho 80 e me sinto um menino de 15”, disse Lula, procurando incentivar quem não é mais obrigado a votar - os mais de 70 - a ir às urnas.
Desta vez tivemos um eleitor anestesiado, pouco energizado com as opções”
O quadro do que o economista e advogado Bruno Carazza, colunista do Valor, chama de “anestesia do eleitor” é ainda mais claro ao se observar também o número de votos brancos e nulos.
No primeiro turno, com quase 100% das urnas apuradas, 2,3 milhões de brasileiros votaram em branco (1,84%) para presidente e 3,7 milhões de eleitores (2,93%) anularam seu voto, um ato entendido pelos cientistas políticos como voto de protesto.
Em uma eleição tão disputada como esta, a alienação eleitoral (a soma dos eleitores que não compareceram para votar com os que votam em branco ou nulo) tem forte peso, pontuam os analistas. No primeiro turno de 2026, um eleitor em cada quatro não compareceu às urnas, anulou o voto ou votou em branco.
“O voto nulo é um voto de protesto, é um voto contra o sistema. O voto em branco é um voto de indiferença”, traduz Medeiros.
Esse ano teve passe livre no transporte público para que todos pudessem ir votar. “Costuma ser um incentivo a mais para o eleitor de baixa renda, visto que a passagem do transporte coletivo é mais cara que justificar o voto”, destacou Cila Shulman. Outro possível incentivo foi a novidade de se considerar o voto no primeiro turno como prova de vida para os aposentados.
Até 2022 não existia regra federal de gratuidade urbana nos transportes públicos. A decisão de liberar a catraca dependia da vontade política de cada prefeito ou governador. Na eleição de 2022, contudo, muitas capitais adotaram a medida por conta própria. Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade, em 2023, julgou que a falta de transporte gratuito violava o direito de voto das pessoas de menor renda.
A determinação foi oficializada de forma permanente pela Justiça Eleitoral através de resoluções do Tribunal Superior Eleitoral. Agora, governos municipais e estaduais são obrigados a oferecer transporte público gratuito e com frotas reforçadas em dias de votação.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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