China e EUA buscam convívio com ‘estabilidade estratégica’
A recente visita do presidente chinês, Xi Jinping, aos EUA foi marcada mais pela forma do que pelo conteúdo. Jantar de gala, roupas parecidas, risadas e trocas de elogios chamaram a atenção em encontros cuidadosamente coreografados. De concreto, houve principalmente um pequeno avanço em questões comerciais.

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AP/Alex Brandon
A recente visita do presidente chinês, Xi Jinping, aos EUA foi marcada mais pela forma do que pelo conteúdo. Jantar de gala, roupas parecidas, risadas e trocas de elogios chamaram a atenção em encontros cuidadosamente coreografados. De concreto, houve principalmente um pequeno avanço em questões comerciais. Mas, tanto em diplomacia como em relações pessoais, a forma importa, assim como a regularidade dos contatos. Isso sugere que a visita pode ter sido mais positiva do que faz pressupor a escassez de anúncios práticos. E ela colocou em evidência uma expressão que poderá moldar um futuro menos conflituoso da relação entre as duas superpotências: “estabilidade estratégica”.
O termo, cunhado pelos chineses para estabelecer uma competição a mais pacífica que for possível, pressupõe que divergências agudas que surgirem podem ser amortecidas por reuniões frequentes. Pressupõe também, sem que seja um reconhecimento tácito ou uma regra escrita, que a China negocia em pé de igualdade com os Estados Unidos.
A preocupação com a forma começou já na recepção de Xi pelo presidente Donald Trump na pista do aeroporto. Isso não é a praxe. O protocolo diplomático prevê a recepção por uma autoridade inferior. Tratou-se de um gesto raro, uma demonstração inequívoca de deferência ao líder chinês. Em seus quase seis anos de governo, Trump nunca recebeu um líder ocidental no aeroporto. O único até agora havia sido o presidente russo, Vladimir Putin, na cúpula no Alasca, em agosto de 2025. Na escala de respeito de Trump, China e Rússia estão claramente à frente dos aliados.
O estilo pompa e circunstância contrastou com o resultado magro da visita em termos práticos. Dos oito pontos de consenso oficiais alcançados, apenas um tem efeito imediato: a redução recíproca de tarifas sobre uma cesta de produtos que soma US$ 30 bilhões em vendas de cada lado. O valor total de US$ 60 bilhões representa cerca de 12% do comércio entre os dois países, pelos dados de 2025. Isso poderá ter impacto para o Brasil, pois inclui produtos agrícolas que exportamos para a China, apesar de a soja ter ficado fora. Foi decidida ainda a extensão da trégua comercial entre os dois países, o que já era esperado. Isso significa que, enquanto há uma acomodação nas relações comerciais com Pequim, Trump continua mantendo a pressão contra aliados tradicionais dos EUA, como União Europeia e Canadá.
A maioria dos demais pontos de consenso é uma repetição de posições já conhecidas, como a de que o Irã deve cumprir seus compromissos internacionais e não desenvolver armas nucleares. Foi criado um canal de diálogo sobre os riscos relacionados ao desenvolvimento da Inteligência Artificial, o que parece subterfúgio para disfarçar que não há novidades nesse tema.
Pouco se sabe sobre o que eles discutiram a respeito de temas fundamentais para o mundo, como as guerras na Ucrânia e com o Irã. A China é o principal apoiador de Moscou e de Teerã nos dois conflitos. Também não houve referência à questão de Taiwan, ilha que Pequim considera uma província sua rebelde.
Xi buscou, ao longo do seu governo, equiparar-se em estatura política e histórica a Mao Tsé-tung, o fundador da China moderna. Ele centralizou o poder e eliminou o limite de mandatos. Seu pensamento virou doutrina oficial do Partido Comunista chinês, como era o de Mao. Xi parece querer deixar como legado a unificação total do território chinês. Ele violou os termos do tratado, assinado com o Reino Unido, de devolução de Hong Kong, ao assumir controle direto do território. Falta-lhe Taiwan. É improvável que esse não seja o seu objetivo final.
Mas a falta de avanços não significa um fracasso. O próprio contato pessoal regular entre os líderes já é significativo, pois reduz o risco de mal-entendidos e de um conflito acidental. Trump esteve em Pequim em maio. Os dois se encontrarão novamente nas cúpulas da Apec (em novembro, na China) e do G20 (em Miami, em dezembro). Tudo isso aponta uma intensa atividade diplomática. Para efeito de comparação, Putin invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, após mais de dois anos quase sem contato com líderes ocidentais.
Por fim, o ponto talvez mais importante do consenso fala de uma relação construtiva de “estabilidade estratégica”. Não foi detalhado o que seria essa estabilidade, mas parece ser um compromisso mútuo de gerenciar a competição global entre os dois países. Se isso for feito de um modo que salvaguarde a segurança global sem dividir o mundo em áreas de influência, será benéfico para todos. Os riscos da Armadilha de Tucídides, isto é, de um confronto entre uma potência emergente e uma potência dominante, persistirão por muito tempo ainda. O abandono por Trump da ordem global que vigorou desde o pós-Segunda Guerra Mundial torna o cenário mais imprevisível. O avanço tecnológico e industrial da China assusta a comunidade internacional. As relações podem se deteriorar com rapidez. Nesse contexto, qualquer sinal de relações funcionais entre Washington e Pequim é alentador.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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