Em crise por gastos com aposentadorias e austeridade, escolas públicas da França perdem alunos ricos
Clemence Remy mudou-se para a cidade francesa de Nantes em 2020 e matriculou suas duas filhas em uma escola pública local. Os professores eram bons, mas ela ficou tão exasperada com as sucessivas greves de funcionários que acabou transferindo as meninas para uma escola particular.

Trecho
As preocupações com as escolas públicas ajudaram a alimentar alguns dos protestos mais violentos registrados na França em décadas. As manifestações começaram no mês passado em escolas de ensino médio dos subúrbios pobres do norte de Paris, onde a indignação com a ausência de professores e as instalações deterioradas rapidamente se transformou em um movimento nacional contra a desigualdade, a insuficiência dos gastos públicos e a queda da qualidade do ensino.
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As escolas públicas francesas são há muito tempo consideradas um símbolo do ideal republicano, um lugar onde crianças de famílias ricas e pobres podem receber uma educação de excelência, fundamentada nos valores de "liberdade, igualdade e fraternidade".
Mas o desempenho educacional vem piorando há anos, e o governo enfrenta dificuldades para reverter essa tendência, uma vez que os enormes gastos com aposentadorias e a necessidade de controlar as contas públicas deixam pouca margem de manobra.
Esses problemas têm levado um número crescente de pais de maior renda a abandonar o ensino público em favor das escolas particulares. Remy afirmou que as greves na escola de suas filhas em Nantes, cidade de tendência esquerdista no oeste da França, eram frequentemente anunciadas de última hora, obrigando-a a faltar repetidamente ao trabalho, com pouco aviso prévio.
"A escola é uma instituição com a qual deveríamos poder contar", afirmou. "No fim das contas, você percebe que não pode confiar no sistema."
Os níveis de proficiência em matemática e leitura dos estudantes franceses de 15 anos caíram drasticamente desde 2003, atingindo uma mínima histórica, muito abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo os resultados de 2025 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), conduzido pela entidade.
As escolas públicas de ensino secundário da França não conseguiram garantir professores para quase 10% das horas de aula no ano letivo de 2024/2025 — o equivalente a quase meio dia de aulas por semana. Três quartos desse déficit decorreram da falta de substitutos para professores ausentes.
Entre 10% e 20% dos prédios escolares franceses estão "em condições significativamente deterioradas", segundo um relatório de 2025 do Banque des Territoires, braço de investimentos da instituição financeira estatal Caisse des Dépôts.
A incapacidade do governo de reverter a deterioração do ensino é explicada, em parte, pelo aumento dos gastos com aposentadorias, que desviam recursos de outras prioridades, segundo especialistas.
O orçamento da França para a educação em 2027 é de 64 bilhões de euros (US$ 72 bilhões). As aposentadorias dos professores acrescentam outros 28% a esse custo.
Os gastos totais do governo com aposentadorias, que devem chegar a 436 bilhões de euros, ou 14% do Produto Interno Bruto (PIB), no próximo ano, cresceram mais rapidamente do que todas as outras categorias de despesas públicas nas últimas duas décadas, enquanto os gastos com educação diminuíram, segundo cálculos da Reuters com base em dados do Eurostat.
O crescimento contínuo dos gastos previdenciários se deve não apenas ao envelhecimento da população, mas também à resistência dos eleitores ao aumento da idade de aposentadoria ou à redução dos benefícios pagos aos aposentados.
O economista Erwann Tison, do centro de estudos Institut de l’Entreprise, afirmou que os gastos com aposentadorias "canibalizam" o orçamento da educação. Isso significa que a França só consegue pagar aos professores em início de carreira salários inferiores à média da OCDE, contribuindo para a insatisfação e as greves.
"Na prática, a França está concedendo grandes subsídios aos franceses mais velhos às custas de todos os demais", escreveu o economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel, em sua página no Substack, na quinta-feira. "As grandes manifestações nacionais de estudantes não deveriam surpreender ninguém."
A grande maioria das escolas particulares francesas funciona segundo o modelo de estabelecimentos "sob contrato" com o Estado.
Administradas quase inteiramente por instituições católicas, essas escolas têm maior autonomia para contratar funcionários e selecionar alunos. Seus professores são remunerados pelo Estado, enquanto as mensalidades cobrem os custos não relacionados ao ensino. A maior disponibilidade de professores substitutos faz com que sejam menos afetadas por greves ou ausências.
Mais de 2 milhões de crianças, ou 17,6% de todos os estudantes, frequentam uma das mais de 7.500 escolas particulares sob contrato com o Estado na França, segundo um relatório de 2023 do órgão nacional de auditoria pública.
Embora essa proporção tenha aumentado modestamente entre 2011 e 2021, a participação de crianças de famílias mais ricas cresceu em detrimento daquelas de famílias mais pobres, constatou o relatório. Segundo o documento, algumas famílias migraram para o ensino particular para evitar as escolas públicas locais ou por preocupações com a segurança e as faltas de professores.
Os alunos de famílias classificadas como "muito favorecidas" representavam 40,2% do total em 2021, ante apenas 26,4% em 2000. Atualmente, mais da metade dos estudantes das escolas particulares sob contrato com o Estado vem de famílias "favorecidas ou muito favorecidas", em comparação com menos de um terço nas escolas públicas.
"Há 50 anos, as famílias ambiciosas buscavam o ensino público", afirmou Louis Chauvel, sociólogo da Universidade de Luxemburgo. "Hoje, as instituições particulares são frequentemente vistas como o melhor caminho para quem deseja maximizar as chances de sucesso dos filhos."
Virginie Durin, presidente da Apel, principal associação francesa de pais de alunos de escolas particulares católicas, afirmou que nem todas as famílias são ricas e que muitos pais fazem grandes sacrifícios para conseguir pagar as mensalidades.
Ela reconheceu, porém, uma concentração crescente de estudantes de famílias mais ricas em determinados bairros.
Nantes, onde Remy mora, é um dos redutos das escolas particulares sob contrato com o Estado na França, com 38% dos alunos matriculados na rede privada.
Remy, que paga 191 euros (US$ 214) por mês por filha, reconheceu que as escolas particulares não são acessíveis a todos e correm o risco de se tornar espaços dominados pelos mais ricos. Mas não se arrepende da decisão.
"Acho que isso proporciona um ambiente em que, pelo menos, as crianças são incentivadas a se esforçar e a melhorar."
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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