No Rio, crise política e institucional marcou campanha que teve embates entre Paes e Ruas
Eduardo Paes, do PSD: ex-prefeito do Rio lidera e evita colar imagem em Lula

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Alexandre Cassiano
A eleição para o governo do Rio de Janeiro chega à reta final do primeiro turno em uma campanha que teve como pano de fundo a crise política e institucional do Estado. Pela primeira vez o Executivo estadual é ocupado pelo terceiro na linha sucessória, o presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ), desembargador Ricardo Couto, que foi mantido no cargo por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Nesse cenário, a campanha foi marcada, desde o início, por embates entre os dois líderes das pesquisas de intenção de voto, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) e o presidente da Assembleia Legislativa do Estado (Alerj), Douglas Ruas (PL).
A posse de Couto como chefe do Palácio Guanabara, sede do governo fluminense, ocorreu pois o então governador Cláudio Castro (PL) renunciou, em março deste ano, na véspera de ser condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. Na renúncia de Castro, o Estado estava sem vice-governador, uma vez que o ocupante do cargo, Thiago Pampolha, havia renunciado em 2025 para assumir vaga no Tribunal de Contas do Estado (TCE). O segundo na sucessão seria o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil), que também terminou cassado pelo TSE e está preso.
Ex-aliado de Castro e Bacellar, Ruas passou a ocupar a presidência da Alerj. O candidato do PL também esperava assumir o governo para usar a influência da máquina pública e impulsionar sua candidatura, tornando-se mais conhecido. Já Paes acabou capitalizando politicamente ações feitas pela gestão interina de Couto, como a faxina sobre cargos fantasmas e as auditorias em contratos públicos do governo Castro.
Desde que assumiu, Couto promoveu mais de 6 mil exonerações em órgãos da administração estadual. O pente-fino resultou em redução de cerca de 43% do total de mais de 14 mil cargos comissionados que existiam. Conforme revelou o jornal O Globo, o governo do Estado conclui 30 auditorias em contratos de pelo menos R$ 2,6 bilhões. Entre eles está um que mira Ruas pela atuação dele como secretário estadual das Cidades do governo Castro. Ruas nega qualquer irregularidade.
Douglas Ruas, do PL: candidato explorou proximidade com Flávio Bolsonaro
Alexandre Cassiano
A campanha ao Guanabara também é marcada por discussões judiciais envolvendo a candidatura do ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos). Na terça-feira (29), o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) manteve o indeferimento do registro da candidatura de Garotinho em caso de condenação por improbidade administrativa na época em que foi secretário de governo da mulher, Rosinha Matheus. A defesa do candidato recorreu ao TSE na noite de quarta-feira (30), mas até ontem não havia decisão do tribunal.
A discussão sobre o futuro de Garotinho nas urnas tem mobilizado as campanhas de Paes e Ruas. Paes conta com que os votos de Garotinho sejam anulados no TSE, o que poderia fazer com que a disputa seja concluída a favor do ex-prefeito do Rio sem a necessidade de realização de segundo turno.
No debate da Globo, na terça-feira (29), Garotinho reafirmou a candidatura e disse: “Meu nome estará na urna”. A decisão do TSE sobre Garotinho pode ficar para depois do primeiro turno de modo que os votos no ex-governador seriam computados “sub judice”, pendentes de validação pelo tribunal.
Na pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (1º), Paes segue na liderança das intenções de voto ao governo do Rio, com 42%, um ponto abaixo na comparação com o levantamento anterior, de 24 de setembro, enquanto Ruas subiu um ponto, para 31%. Garotinho caiu de 8% para 7%, enquanto William Siri (Psol) passou de 2% para 3%. Cyro Garcia (PSTU) se manteve com 2% e André Marinho (Novo) e Coronel Busnello (Missão) passaram de 2% para 1%. Juliete (UP) se manteve com 1% nos dois levantamentos e Luan Monteiro (PCO) passou de 0% para 1%.
Em outra frente, o TRE-RJ fez um cerco a candidaturas com suspeitas de ligação com o crime organizado. A corte barrou 16 candidatos nesta eleição.
Na liderança da disputa, Paes passou a campanha elogiando as ações do governador em exercício Ricardo Couto. A principal estratégia foi buscar colar Ruas no grupo político de Castro, a quem o candidato do PSD costuma creditar a “infiltração do crime organizado no Palácio Guanabara”. Mas apesar dos embates o candidato do PL cresceu nas pesquisas e reduziu a diferença para Paes no primeiro turno para 11 pontos percentuais, segundo o Datafolha, em cenário com Garotinho na disputa.
Ruas apostou em nacionalizar a campanha, de olho na força do bolsonarismo no Rio. Segundo a última pesquisa Quaest, Flávio Bolsonaro (PL) vence o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, por 38% a 31% no Rio. Ruas valeu-se de referências e imagens do clã Bolsonaro na propaganda de TV, redes sociais, agendas de rua e debates. Já Paes optou por modular a proximidade com Lula. Apesar de ter participado de duas agendas de campanha com o petista no Estado, não há registros nas redes sociais de Paes em atos com o presidente.
No debate da TV Globo, marcado pelos confrontos entre Paes e Ruas, o ex-prefeito buscou manter uma distância segura do PT. “Não fico usando o Lula de bengala, como o Douglas Ruas faz com o Flávio Bolsonaro”, disse. Ruas, por outro lado, buscava sempre se associar ao bolsonarismo: “Eu tenho meu candidato, é Flávio Bolsonaro, e não escondo. O Eduardo Paes tem o Lula e cisma em esconder”.
Na disputa ao Senado, as sucessivas operações da Polícia Federal no Estado definiram as candidaturas no campo da direita. Os dois postulantes anunciados inicialmente na chapa de Ruas, Cláudio Castro e o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União Brasil), abriram mão da corrida após serem alvos de investigações da PF. Canella optou por disputar vaga na Alerj. Já Castro se afastou da disputa e é investigado pela PF nos casos do banco Master e da Refit.
Com problemas para montar o palanque, o PL fez uma chapa puro-sangue. Foram escolhidos o senador Carlos Portinho e o deputado federal Carlos Jordy, ambos da legenda. Na esquerda, o racha ocorreu pela escolha de Pedro Paulo (PSD) ao lado de Benedita da Silva (PT) para compor a chapa entre Lula e Paes no Rio. Parte da militância de esquerda defende o voto em Monica Benicio (Psol). No Datafolha, Benedita lidera com 19%, seguida de Portinho e Jordy, cada um com 13%. Pedro Paulo tem 8%, Benicio, 7%, e Marcelo Crivella (Republicanos) surge com 5%.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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