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Entre os entraves na educação, há os professores desmotivados

O mais recente levantamento “Education at a Glance”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), lança luz sobre a Educação pelo ângulo de um dos mais importantes pilares para o sucesso do ensino: o professor. O retrato que emerge não é definitivamente positivo no caso brasileiro.

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Entre os entraves na educação, há os professores desmotivados

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Leo Martins/Agência O Globo

O mais recente levantamento “Education at a Glance”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), lança luz sobre a Educação pelo ângulo de um dos mais importantes pilares para o sucesso do ensino: o professor. O retrato que emerge não é definitivamente positivo no caso brasileiro.

Baseado no “Teaching and Learning International Survey” (Talis), que envolveu entrevistas com pouco mais de 127 mil docentes de 55 países, em 2024, o estudo da OCDE concentrou o foco em 38 países e constatou que o Brasil está em terceiro lugar em número de professores descontentes com o salário que recebem. O levantamento inclui membros da OCDE, nações que estão em processo de adesão e aquelas que fazem parte do G20.

Pouco mais de dois terços dos professores brasileiros entrevistados, ou 77,7%, estão frustrados com o salário; mais da metade, ou 55,7%, estão descontentes com a carga de trabalho, o estresse e até a falta de prestígio. Na média dos 38 países incluídos na pesquisa pela OCDE, 61,3% estão insatisfeitos com os salários, e o percentual dos descontentes com as condições de trabalho em geral é menor ainda, de 31,6% — índices melhores do que os registrados no Brasil.

Entre as queixas relatadas por 89,4% dos professores brasileiros sobre as condições de trabalho, está a necessidade de ter que acalmar alunos indisciplinados “frequentemente” ou “sempre” na sala de aula. O Brasil é o quarto país com mais queixas desse tipo, percentual só inferior ao registrado em Portugal (91,2%), Chile (91,2%) e Arábia Saudita (93,4%), e acima da média de 72,1% da OCDE.

Os educadores brasileiros trabalham por mais tempo do que os de outros países da OCDE. No Brasil, a carga horária mínima anual de ensino é de 800 horas em todos os anos. Em muitos casos, o professor trabalha em mais de uma escola, o que intensifica o problema de deslocamento pelas cidades. Somente 63% dos professores brasileiros têm emprego permanente, o segundo percentual mais baixo, atrás apenas da Costa Rica (55,8%). Nos países da OCDE, os professores dos anos iniciais do ensino fundamental lecionaram 770 horas por ano, e os dos anos finais, 710 horas anuais, em média. Entre os países europeus, sobressai a “queixa” de ter que lidar com estudantes de origem de outros países.

Os trabalhos administrativos também estão se avolumando, na percepção dos professores, à medida que as escolas buscam reduzir seus quadros, e isso é motivo de queixa para 54,4% dos docentes brasileiros.

Todas essas condições contribuem para a percepção de elevado estresse no trabalho, relatada por 20,9% dos professores brasileiros em 2024, acima dos 13,6% de 2018 e da média da OCDE. Além disso, 85,9% se queixam da falta de reconhecimento pela sociedade, o dobro dos 38,7% da média da OCDE. Apesar disso, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), de 2025, divulgado recentemente também pela OCDE, constatou que 82% dos alunos brasileiros afirmaram reconhecer o esforço dos professores, mantendo o patamar de 81% de 2015. Na média da OCDE, 61,3% dos professores afirmam ter o trabalho reconhecido pela sociedade.

Nesse quadro, não é de se estranhar que o relatório da OCDE constatou que 10,3% dos professores brasileiros do ensino fundamental e médio deixaram a profissão entre 2024 e 2025, incluindo os que se aposentaram. As perspectivas não são positivas. Outros 12,3% dos professores de 30 a 49 anos informaram que pretendem deixar a profissão nos próximos cinco anos. O percentual de professores brasileiros que desistem da profissão é o quarto mais alto entre os 24 países com dados a respeito do assunto, atrás apenas de Bélgica, com 11,6%, Letônia, com 12%, e Dinamarca, com 14,5%.

O “Education at a Glance” também traz dados a respeito do investimento na educação dos países pesquisados. O Brasil investiu cerca de US$ 4,1 mil por estudante do ensino fundamental até o superior público, menos de um terço da média dos países da OCDE, que foi de US$ 13,6 mil em 2023. O valor só é maior que os gastos da Colômbia (US$ 3,4 mil) e do Peru (U$ 1,8 mil), considerando 44 países com informações sobre o tema, o que ajuda a explicar a situação dos salários.

O setor público é a principal fonte de recursos para o investimento em educação. Na média da OCDE, gastaram 4% do PIB, enquanto a contribuição privada foi de 0,6%. No Brasil, a despesa governamental do ensino fundamental ao superior foi de 4,5% do PIB em 2023, e 75% das despesas correntes das escolas dos anos iniciais do fundamental vão para remuneração de pessoal, ante 79% na média da OCDE. O restante é destinado a outras despesas correntes, como compra de bens e serviços.

Esses problemas explicam em parte, mas não justificam, os resultados ruins do ensino no país. O baixo desempenho não deve ser visto como uma condenação, mas sim como base real para um plano de ação que corrija os problemas e mude o quadro. Sem professores motivados e preparados, a educação brasileira não progredirá.

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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