Dianteira de Lula diminui entre pretos e pardos e eleitores com menor instrução
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é mais votado entre pretos e pardos e na população com menor instrução. A força do lulismo nestes recortes, já atestada em pesquisas de opinião, foi novamente confirmado no resultado eleitoral do primeiro turno, mas perdeu potência.

Trecho
Arte/Valor
A média nacional de pretos e pardos na população brasileira é de 55,5%, de acordo com o censo. No microcosmo dos 200 municípios com maior proporção de negros , com percentual acima de 86,9%, Lula ficou em primeiro lugar em todos tanto em 2022 quanto em 2026, mas com uma nuance importante. A votação dele nestas cidades decresceu quatro mil votos. A de Flávio Bolsonaro (PL) em relação ao do pai, Jair Bolsonaro (PL), subiu 102 mil votos. E a abstenção neste recorte caiu de 654 mil para 621 mil votos.
É preciso cautela antes de estabelecer uma relação de causalidade entre cor de pele e opção política. A população preta e parda é concentrada no Nordeste e Norte, áreas de força do lulismo desde 2006. A população mais maciçamente branca no Brasil está toda na região Sul, onde o desempenho eleitoral de Lula é historicamente ruim e foi particularmente muito ruim nesta eleição . Ignorar a correlação entre a questão racial e a da desigualdade social e a da pobreza, contudo, é impossível.
Nordeste e Norte também concentram os municípios com menor percentual de eleitores com ensino superior, abaixo de 3% ( a média nacional é 13%). Trata-se de universos muito semelhantes. E na comparação entre as duas eleições, a de 2018 e 2022, também se observa a elevação do eleitorado da família Bolsonaro e a redução do número de abstenções.
Qual explicação possível para este fenômeno? Uma boa hipótese é a do avanço evangélico, fortemente inclinado ao antipetismo. Entre o censo de 2010 e o de 2022 a população evangélica aumentou de 9,7% para 15,6% no Piauí e de 17,2% para 23,3%, para citar dois exemplos.
A população evangélica cresceu em todos os Estados brasileiros, obviamente, em menor ou maior medida, mas nestas fortalezas lulistas é a variável que pode contrabalançar a questão social. A opção religiosa joga a favor de Flávio, a vulnerabilidade social a favor de Lula. É bastante sintomático o fato da abstenção ter caído no microcosmo das 200 cidades com maior população preta e parda e no segmento das com menor proporção de eleitores com ensino superior , na contramão da tendência nacional de crescimento das ausências nas urnas. Significa que aumentou o engajamento político nos segmentos mais vulneráveis da população, e aumentou de forma conservadora.
Ainda há outros fatores que podem explicar a perda de vigor do lulismo nestas faixas. Uma delas é que estas áreas são fortemente dependentes de benefícios sociais como o Programa Bolsa Família e o reajuste dos pagamentos, anunciado de forma eleitoreira por Lula no mês passado, pode ter vindo tarde demais. Ele começará a ser pago nos últimos dez dias de outubro, e o valor estava sem correção desde 2023. O total de beneficiados também caiu de 21,6 milhões de famílias para 19,3 milhões, em parte pelas operações de pente fino no cadastro, em especial a das famílias unipessoais. A limpeza do cadastro era necessária, mas as pessoas atingidas obviamente não devem ter ficado satisfeitas. A redução dos beneficiados também se deve a aumento de renda em determinados grupos acima da linha da pobreza.
No grupo dos 200 municípios com maior proporção de eleitores com ensino superior, segmento muito concentrado nas regiões Sul e Sudeste, a tendência conservadora foi mais acentuada. A votação de Lula decresceu 1 milhão de votos, a de Flávio Bolsonaro subiu 700 mil em relação a do pai em 2022 . A abstenção, entretanto, foi na direção oposta, e subiu de 10,8 milhões para 11,4 milhões.
O eleitorado que se abstém é a única reserva a que Lula pode recorrer no segundo turno quando Flávio Bolsonaro saiu com vantagem do primeiro turno e recebeu o apoio dos quarto e sexto colocados na eleição presidencial. Mas trata-se de tentar se aproximar de um eleitor que não tem o perfil do votante no presidente.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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