Inflação de alimentos influencia percepção negativa da economia
O economista Fábio Romão: “Comer ficou mais caro e os alívios de curto prazo pouco têm ajudado”

Trecho
Silvia Costanti/Valor
A conta do supermercado subiu em ritmo maior que a inflação média desde a pandemia. Os preços de alimentação no domicílio cresceram 60,8% em pouco mais de seis anos, entre abril de 2020 e agosto de 2026. A variação é quase uma vez e meia a alta de 42,7% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no período. A maior parte desse aumento se deu até meados de 2022, quando houve rearranjo das cadeias produtivas globais.
Entre abril de 2020 e o fim de 2022, a alta de preços foi de 42,4% na alimentação no domicílio e de 21% no IPCA geral. Entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, essas variações foram de 12,9% e de 17,9% no IPCA, respectivamente. O levantamento foi feito pelo economista da 4intelligence Fabio Romão.
O rendimento médio dos trabalhadores subiu 9,5% em termos reais (já descontada a inflação) entre abril de 2020 e julho de 2026.
Esse custo maior que o da inflação de uma despesa tão relevante no orçamento das famílias é um dos fatores de uma lista ampla que ajuda a explicar o desconforto do brasileiro com a economia, afirmam especialistas, mesmo quando indicadores macroeconômicos mostram um retrato mais positivo, com emprego e renda recordes.
O quadro de uma percepção negativa é resultado de uma combinação de elementos que reúnem crescimento econômico em cima de uma base depreciada após a recessão de 2015 e 2016; ganho de renda ainda insuficiente para garantir um patamar de vida considerado digno e geração de empregos concentrada em postos de menor rendimento.
A esse conjunto somam-se também um prêmio salarial menor para os trabalhadores com ensino médio e ensino superior completo e aspirações maiores de consumo em tempos de redes sociais.
O custo de vida, o poder de compra e esse mal-estar da população - que vem sendo apontado em pesquisas e também estudado em trabalhos acadêmicos - aparecem como tema de destaque nas eleições presidenciais deste ano. Os dois candidatos que disputam o segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, trocam acusações e apelam ao interesse da população neste campo.
Às vésperas do primeiro turno, Lula reconheceu a situação: “Eu sei que ainda não está bom. Mas eu vou garantir, a inflação seguirá sob controle. Você não vai mais pagar a taxa das blusinhas, salário mínimo seguirá sempre acima da inflação. Vamos investir para gerarmos empregos de qualidade, com salários melhores”.
“A compra de supermercado hoje está muito mais cara que antes da pandemia. Houve uma mudança de patamar: comer ficou mais caro e os alívios de curto prazo pouco têm ajudado. O custo da alimentação é parte da explicação da insatisfação das pessoas”, afirma Fabio Romão.
As contas do economista mostram aumento mais concentrado de preços logo após a pandemia, tanto da inflação como um todo quanto da alimentação no domicílio. Mais recentemente, a guerra entre Irã e Estados Unidos e do El Niño começam a pesar mais.
Esse maior custo de vida é uma tendência mundial que também gera insatisfação em outros países, segundo a professora de economia da USP e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) Laura Carvalho. Desse contexto, fazem parte choques sucessivos na inflação com a pandemia, início da guerra na Ucrânia em 2022 e, neste ano, a guerra no Irã. Pesquisas no mundo apontam o custo de vida como principal razão para a percepção negativa sobre economia das pessoas, comenta.
Nos Estados Unidos, foi criado em 2022 o neologismo “vibecession”, usado para descrever essa desconexão entre os indicadores econômicos e a sensação negativa do público em relação à economia. O termo une “vibe” - energia ou vibrações - e “recession”.
“Há uma questão adicional: aumentos de preços são percebidos como culpa do governo, independentemente de onde vem o choque, enquanto ganhos de renda são percebidos como mérito pessoal. Isso cria uma assimetria que está no coração do mal-estar da economia”, diz Carvalho.
Aumentos de preços são percebidos como culpa do governo, independentemente de onde venha o choque”
Pesquisa de intenção de voto para presidente Quaest de agosto - última edição com um bloco exclusivo de perguntas sobre economia - apontou que 33% dos entrevistados acreditavam que o aumento da renda foi similar ao do custo de vida, enquanto 32% não perceberam aumento de renda e 23% acreditavam que o custo de vida aumentou mais que a renda.
Outro ponto para entender a insatisfação com a economia, afirmam os estudiosos, é a sensação de insuficiência da renda, diante da visão do que seria um padrão de vida digno e capaz de dar conta de necessidades básicas. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu nos últimos anos, em recuperação após a pandemia, mas isso ocorreu após um período de seis anos de queda ou alta pequena de 2014 a 2019.
“Existe uma ideia de insuficiência de renda. A questão é até que ponto a evolução da renda está de fato se traduzindo em melhoria de condição de vida e aumento de padrão de consumo ou se é insuficiente”, afirma o diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen, Vitor Hugo Neia.
Pesquisa recente da fundação em parceria com Instituto Cidades Sustentáveis e Ipsos- Ipec em dez capitais brasileiras mostrou que apenas 18% dessa população percebeu aumento da renda pessoal nos últimos 12 meses, enquanto 45% apontaram estabilidade e 31% sentiram redução. Outros 61% precisaram fazer atividades extras para complementar a renda e 41% tiveram que reduzir o consumo de carne.
“Mais do que renda, o que importa no fundo é poder de compra. Quando as pessoas falam que o salário não chega ao fim do mês não é só uma questão dos preços. O ganho de renda que ocorreu ainda não nos levou a um patamar do que é uma vida digna para boa parte dos brasileiros”, afirma Laura Carvalho.
Entre os trabalhadores ocupados no Brasil, 32,2% recebem até um salário mínimo por mês, segundo dados do IBGE do segundo trimestre deste ano. A parcela de quem ganha até dois salários mínimos chega a quase 70% (69,1%). Isso significa que apenas 30,9% das pessoas ocupadas têm renda mensal acima de R$ 3.242 por mês.
Outro fator apontado por especialistas para entender o descolamento entre o sentimento da população e os indicadores da economia brasileira é a mudança no nível de expectativas, com influência inclusive das redes sociais.
“Houve mudança importante nos últimos 20 anos da forma como se mede qualidade de vida. Antes as pessoas queriam um emprego estável e uma família de determinada maneira, mas isso foi alterado”, afirma o coordenador de relações institucionais do Instituto Cidades Sustentáveis, Igor Pantoja. “Hoje, uma boa qualidade de vida está muito relacionada a consumo. Há descompasso mesmo entre o que o sistema político e as instituições buscam oferecer e aquilo que são as demandas da população, muitas vezes baseadas na internet e em redes sociais.”
Carvalho também vê esse efeito das redes sociais em ampliar as aspirações de consumo da população, mas acredita que a influência seja secundária em relação a outras explicações para a disparidade entre percepção e indicadores. “As aspirações das pessoas não são as mesmas dos anos 2000. Não é mais sobre comprar geladeira ou andar de avião na primeira vez. É natural também que, quando uma sociedade se desenvolve, passe a demandar coisas novas. E essas demandas são amplificadas pelas redes sociais, onde todos compartilham suas vidas.”
A pesquisa feita por Fundação Grupo Volkswagen, Instituto Cidades Sustentáveis e Ipsos- Ipec também traz um horizonte de mais longo prazo para a percepção sobre a evolução das condições de vida, com foco na mobilidade social. Ao todo, 73% da população das dez capitais dizem que são mais escolarizados que os pais. Apenas 43%, porém, vê sua renda como superior à da geração anterior e 51% creem viver em condições melhores de moradia.
“Essa população reconhece que é mais escolarizada que seus pais. Só que a mobilidade de educação não se reflete na mesma proporção na mobilidade de renda e de moradia. Não é que a educação não é importante, mas há essa sensação de que a qualificação por si só não basta”, comenta Neia.
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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