Ucrânia acusa Rússia de violar cessar-fogo anunciado por Trump
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, acusou a Rússia de violar o cessar-fogo no setor de energia anunciado por Donald Trump após um ataque a uma usina termelétrica na cidade ucraniana de Kharkiv e pediu aos Estados Unidos que garantam que Moscou cumpra qualquer acordo.

Trecho
Pressionado pelos altos preços da energia às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato EUA, no próximo mês, Trump surpreendeu Kiev e seus aliados europeus ao anunciar que Kiev e Moscou haviam concordado com um cessar-fogo no setor de energia durante o fim de semana. Ele também anunciou um acordo para comprar diesel da Rússia, provocando a indignação da Ucrânia.
"Houve violações russas do cessar-fogo no setor de energia anunciado pelo presidente Trump", disse Zelensky, por videoconferência, durante um evento em Varsóvia.
"Esse cessar-fogo no setor de energia pode funcionar e se tornar um grande passo para o fim da guerra, se os americanos realmente intervirem agora e garantirem que os russos o respeitem", completou.
Zelensky ainda afirmou que ainda aguardava detalhes do acordo. Kiev vê com cautela qualquer entendimento que considere capaz de dar uma vantagem à Rússia ao obrigar a Ucrânia a interromper unilateralmente os ataques contra refinarias russas.
"Estamos aguardando os detalhes das condições acertadas entre americanos e russos e esperamos ver uma medida concreta que os americanos estejam dispostos a tomar", afirmou Zelensky, que disse ter tomado conhecimento do acordo de cessar-fogo pela imprensa.
Zelensky afirmou que a Ucrânia não realizou ataques contra refinarias russas durante a noite, mas deixou claro que, se a Rússia quiser que Kiev suspenda essas operações, terá de parar de atacar o sistema energético e a infraestrutura crítica da Ucrânia.
A Rússia ainda não se pronunciou.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou que preferiria um cessar-fogo "que também impedisse que pessoas fossem mortas" e que não estava claro se a Rússia o cumpriria.
"Pedimos aos Estados Unidos que implementem as sanções para que possamos realmente pôr fim à guerra", disse ela durante uma reunião de ministros das Relações Exteriores em Luxemburgo.
Para manter a pressão sobre Moscou, ministros da União Europeia aprovaram a inclusão de quase 1.600 novos alvos nas listas de sanções contra o complexo militar-industrial russo, segundo Kallas.
"Mais da metade está ligada à cadeia de produção de mísseis balísticos", afirmou ela em uma publicação no X.
O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou não ter visto, nas últimas 48 horas, qualquer sinal de que a Rússia estivesse respeitando algum tipo de acordo de cessar-fogo no setor de energia.
Uma pessoa a par da situação afirmou que os EUA ameaçaram interromper o compartilhamento de informações de inteligência com a Ucrânia e o fornecimento de armas pelo mecanismo da Lista de Necessidades Prioritárias da Ucrânia (PURL, na sigla em inglês), como forma de pressionar Kiev.
Sob Trump, os Estados Unidos já praticamente interromperam o fornecimento de armas à Ucrânia, mas permitem que países europeus as comprem em nome de Kiev por meio do PURL.
O ministro para Assuntos Europeus da Alemanha, Gunther Krichbaum, afirmou esperar que os Estados Unidos continuem sendo um parceiro confiável.
Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, participa por vídeo de fórum de segurança na Polônia
Aleksandra Szmigiel/Reuters
Tensões EUA e Ucrânia
Trump quer que a Ucrânia interrompa os ataques contra refinarias de petróleo russas, atribuindo a essas ofensivas a alta dos preços do diesel, que está prejudicando seu Partido Republicano às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA.
Em meio a uma acentuada deterioração das relações, Trump advertiu Zelensky, no sábado, de que era "bom que parasse de uma vez por todas" de atacar refinarias russas e pediu aos ucranianos que substituíssem seu líder em novas eleições.
As eleições estão suspensas na Ucrânia desde a invasão russa, em 2022. Zelensky afirmou que convocaria uma votação se o presidente russo, Vladimir Putin, concordasse com um cessar-fogo de 60 dias e que cabia "aos ucranianos" escolher seu líder.
Trump, cuja guerra no Irã tem sido amplamente apontada como responsável pela alta dos preços dos combustíveis no mercado global, já havia anunciado um cessar-fogo no setor de energia na Ucrânia em meados de setembro, embora nenhuma das partes tenha confirmado que tal acordo havia sido alcançado.
Zelensky rejeitou a acusação de que seria responsável pela alta dos preços da energia e acrescentou que "todo mundo no mundo" sabia que a guerra no Oriente Médio era um fator mais importante.
Desconfiança ucraniana
Ataques russos mataram seis pessoas em duas cidades diferentes no domingo, segundo autoridades ucranianas. Enquanto equipes de resgate vasculhavam os escombros deixados pelos ataques em Kharkiv, a testemunha Nataliia Minka contou que havia acabado de chegar a um abrigo quando um míssil atingiu uma área próxima.
"Mal haviam se passado dez minutos desde que prometeram não atacar instalações de energia e já tinham ocorrido cinco ataques. Meu filho e eu vimos um míssil atingir a Usina Termelétrica nº 5 e a vimos pegar fogo. É horrível", disse ela.
Pelo menos 12 pessoas também ficaram feridas em uma série de ataques russos contra Kharkiv na manhã desta segunda-feira, segundo o prefeito Ihor Terekhov.
Moradores de Kiev demonstraram ceticismo quanto à possibilidade de que qualquer promessa de cessar-fogo no setor de energia fosse cumprida.
"Encaro qualquer informação com muito ceticismo", disse Vira, uma funcionária pública de 37 anos. Durante as negociações, "às vezes se chega a uma decisão, mas, infelizmente, o agressor russo muitas vezes não a cumpre. Portanto, não faz sentido acreditar que amanhã estaremos salvos e que algum tipo de paz nos será concedido".
Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.
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