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Vorcaro e Quadrado combinaram estratégia em Ambipar

Daniel Vorcaro tentou até o último momento ganhar com ações da Ambipar

Valor Econômico13 min de leitura
Vorcaro e Quadrado combinaram estratégia em Ambipar

Trecho

Ana Paula Paiva/Valor

“Daniel. O pessoal está te esperando para assinar. Temos que fechar hoje aqui com Tércio. Ele vai entrar com o pedido de RJ.”

A mensagem acima foi enviada a Daniel Vorcaro por Maurício Quadrado, ex-sócio e parceiro de negócios. Era 20 de outubro do ano passado, segundo registros do celular do então dono do Banco Master obtidos pelo Valor. A derrocada do Master era então iminente, e os dois vinham discutindo incessantemente como gerar liquidez e, ao mesmo tempo, salvar o que pudessem de ativos.

Quadrado aparentemente sabia do que estava falando. Naquele mesmo dia, a Ambipar, empresa de gestão ambiental controlada por Tércio Borlenghi Jr., apresentaria o pedido de recuperação judicial (RJ), desdobramento esperado de uma medida cautelar obtida no fim de setembro na Justiça do Rio. Quadrado e o empresário faziam negócios juntos e vinham mantendo contato frequente nas semanas anteriores.

Mauricio Quadrado fazia a interlocução com Tércio Borlenghi, da Ambipar

Reprodução

Estava em curso naquele momento uma tentativa de extrair ganhos de uma operação com ações da Ambipar montada mais de um ano antes, em 2024, por meio de fundos ligados à estrutura do Banco Master. As negociações envolviam Vorcaro, Quadrado e Tércio e, posteriormente, passaram a incluir o empresário Nelson Tanure, que tinha interesses na Emae, arrematada por ele na privatização promovida pelo governo de São Paulo em abril de 2024.

No auge da valorização da Ambipar, o lucro potencial da operação superava R$ 1 bilhão, segundo cálculos feitos por Quadrado. A operação foi crucial para aumentar o patrimônio líquido do Master, que passou de R$ 2,4 bilhões em dezembro de 2023 para R$ 4,7 bilhões no fim do ano seguinte. Transformar a alta das ações em caixa, porém, se mostraria muito mais difícil. Os papéis tinham pouca liquidez e parte deles passou a integrar estruturas que envolviam dívidas, garantias e aplicações em certificados de depósito bancário (CDBs) de instituições do conglomerado financeiro do Master.

Para piorar, as ações já haviam afundado desde que, em 24 de setembro de 2025, a Ambipar entrou na Justiça do Rio com pedido de cautelar - uma medida preparatória da RJ. Só naquela data, os papéis caíram mais de 24%, e continuaram recuando nos dias seguintes. Quando veio efetivamente o pedido de RJ, as ações tinham virado pó: fecharam a R$ 0,41 no dia 21 de outubro, quando a notícia veio à tona.

As mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) obtidas pelo Valor descrevem as tentativas de realizar ganhos e, depois, a corrida para reorganizar posições enquanto Master e Ambipar mergulhavam em suas respectivas crises.

Em 31 de julho de 2024, quando as compras de ações ainda estavam em curso, Quadrado calculava que o ganho com a Ambipar já chegava a R$ 500 milhões. “Dá para ficar para nós o ganho. Temos que falar com ele só que o risco fica para nós”, escreveu a Vorcaro. “Vamos fazer e dividir o ganho entre nós?”

Menos de um mês depois, a valorização havia ampliado consideravelmente o lucro potencial. Em 21 de agosto, Quadrado apresentou a Vorcaro uma divisão que, segundo ele, havia sido acertada com Tércio. “Travamos o ganho em 1 bilhão. 550 para ele. 285 para vc. 165 para mim”, escreveu.

Na mesma conversa, explicou como pretendia começar a desmontar a posição. A estrutura previa um empréstimo de R$ 650 milhões e a compra do fundo Esna por Tanure. Parte dos recursos corresponderia ao valor das ações e R$ 285 milhões seriam o ganho destinado a Vorcaro.

O banqueiro não gostou da conta. Disse que as ações valiam R$ 1,5 bilhão e, depois, estimou a posição total em R$ 2 bilhões. “Muito estranho e ruim vendermos posição por 285 de ganho. Eu prefiro correr o risco”, disse.

Quadrado insistiu. Lembrou que o papel tinha pouca liquidez e refez o cálculo. Segundo ele, o preço médio era de R$ 35,44 e, com a ação a R$ 78, o ganho chegava a R$ 1,125 bilhão. “Ele está me cobrando”, escreveu, em referência a Tércio. “Vc sugeriu pedir 50% do ganho e ele topou. 45% ficou ótimo. Eu não posso voltar com ele e falar outra coisa.”

A dificuldade de transformar a valorização em dinheiro acompanharia as negociações. Em setembro de 2024, as ações da Ambipar já apareciam como uma forma de levantar recursos na XP e resolver outros acertos financeiros.

“Estamos com situação séria sobre a questão dos 250 do Nelson”, escreveu Vorcaro a Quadrado em 3 de setembro, em referência a Tanure. “Mais uma vez me desdobrei pra atender o prazo dele Santander e fiquei na mão.”

Quadrado respondeu que o entendimento era usar as ações da Ambipar “para levantar dinheiro na XP”. “Achamos melhor fazer esta da Ambipar. Entendi que vc tinha concordado”, afirmou.

A operação de compra das ações da empresa acabaria entrando no radar da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A área técnica da autarquia identificou indícios de atuação coordenada entre Tércio e os fundos Esna, Texas e Kyra na aquisição de papéis da Ambipar em 2024. O caso levou a uma determinação para realização de oferta pública de aquisição de ações (OPA) por aumento de participação. Em 2025, porém, o colegiado da CVM afastou essa obrigação após empate resolvido por voto de qualidade, ao entender que não havia elementos suficientes para caracterizar os fundos como pessoas vinculadas ao controlador.

A derrocada do Master era iminente, e os dois vinham discutindo como gerar liquidez e salvar o que pudessem de ativos

Em novembro de 2024, Vorcaro já reclamava da atenção do Banco Central ao negócio. “Não pode mexer nesta operação da Ambipar no Let’s [Letsbank, uma das instituições do conglomerado do Master]. O meu ganho ficou aí e diferença vou devolver para o Tercio”, escreveu Quadrado em 11 de novembro. “Sim, bacen [Banco Central] esta enchendo demais esse negocio ambipar [sic]”, respondeu Vorcaro.

Naquela noite, Quadrado voltou ao assunto. “O Tercio está me perguntando se vc conseguiu marcar com o NT?”, escreveu, usando as iniciais de Tanure.

As conversas mostram que Ambipar e Emae passaram a fazer parte de um mesmo quebra-cabeça financeiro. Dias antes, em 5 de novembro, Quadrado havia proposto que Vorcaro comprasse uma dívida da XP, retirasse o aval de Tércio e liberasse as ações da Ambipar dadas em garantia no financiamento da compra da Emae. Em contrapartida, Vorcaro ficaria com uma participação na Emae e teria acesso ao caixa da companhia. “Boas ideias”, respondeu Vorcaro.

No dia seguinte, Quadrado voltou a pressionar. “Eu desenhei passar Ambipar para você para dar 250 mm de lucro. Precisamos falar ele está indo viajar estou preocupado de ele mudar de ideia [sic].”

Tanure havia arrematado a Emae em abril por R$ 1 bilhão e liquidado a compra em outubro com a ajuda de Tércio. Os empresários deram ações da Ambipar, além de papéis da própria Emae, em garantia ao financiamento da transação, obtido junto à XP e à Braslight, fundo de pensão dos funcionários da Light.

Como o Valor já noticiou, houve uma triangulação de recursos entre Vorcaro, Quadrado, Borlenghi e Tanure a partir da operação de compra de ações - que agora fica mais evidente com base nos diálogos. Ao conversar sobre a operação em curso, no fim de julho de 2024, Vorcaro disse a Quadrado que preferia ficar com as ações. “E combinamos um prazo para aplicação”, acrescentou.

A aplicação a que ele provavelmente se refere são CDBs ligados ao conglomerado do Master que teriam ficado com a Ambipar nesse processo - mais tarde, quando a crise do banco já era evidente, os papéis foram trocados por pré-precatórios.

A compra das ações da Ambipar se deu em paralelo à movimentação de um fundo de investimentos em direitos creditórios (FIDC), o Fênix, cujo cedente era a Everest, uma empresa do próprio Tércio. A companhia era, na prática, credora da própria Ambipar e tinha como cotistas empresas também da Ambipar. Em paralelo, a Everest fez uma emissão de debêntures de R$ 700 milhões, integralmente adquirida pelo fundo Máxima, cujo cotista era o Master - essa transação tornou-se alvo de investigação da Polícia Federal sob a suspeita de que a estrutura tenha sido usada para desviar recursos do banco.

Com a deterioração do Master, a situação se tornaria ainda mais intricada em 2025. Em abril, as ações da Ambipar apareceram como possível fonte de liquidez em uma conversa sobre a situação do próprio banco.

Em 18 de abril, Vorcaro falava em “gerar um resultado pra elevar o PL [patrimônio líquido]”. Quadrado respondeu que havia uma demanda grande no fundo Texas, que tinha ações da Ambipar, e que poderiam entrar R$ 500 milhões em caixa. “Então ótimo”, respondeu Vorcaro. “Pq esse é o gargalo. Bacen. Resolvendo isso vai dar certo.”

Quadrado disse que a ideia era usar o caixa das ações para devolver metade de um CDB da Ambipar, deixando cerca de R$ 250 milhões aplicados. A empresa nunca admitiu que tinha dinheiro investido no Master.

Uma semana depois, em 25 de abril de 2025, os dois voltaram a discutir uma solução envolvendo Tanure, Tércio, Emae e XP. “Chamei o Nelson sozinho. Vou se eu consigo resolver esta merda”, escreveu Quadrado. “Foda é depois de tudo que pagamos nelson ter que assumir algo. Não faz sentido”, respondeu Vorcaro.

Quadrado propôs então trocar o fundo Esna por uma posição de Tércio na Emae e comprar cerca de R$ 250 milhões de uma dívida com a XP, convertendo o valor em participação na companhia de energia. “Com isto fazemos o desenho de ontem do CDB e Ações da Ambipar”, escreveu. “Topo”, respondeu Vorcaro.

A pressão aumentou nos meses seguintes. Em agosto, em meio a novas negociações sobre as ações da Ambipar, Quadrado encaminhou a Vorcaro uma planilha que, segundo a mensagem, havia sido alinhada entre as equipes de Vorcaro e Tanure.

No auge da valorização da Ambipar, o lucro potencial da operação superava R$ 1 bilhão, segundo cálculos de Quadrado

O documento apontava obrigações de R$ 4,18 bilhões de Tanure com Vorcaro e de R$ 3,76 bilhões no sentido contrário. O saldo era de R$ 426,4 milhões em favor de Vorcaro. A mensagem dizia que os valores estavam refletidos em contratos, inclusive pagamentos em ações da Ligga e da Alliança, investimentos de Tanure.

Em 5 de agosto, Vorcaro perguntou sobre Tércio e disse que precisava de informações sobre as ações para avançar. Quadrado respondeu que havia pedido ao empresário a transferência da custódia dos papéis. Na manhã seguinte, Vorcaro voltou a cobrar. “Vamos tentar resolver ações hoje! Tercio me mandou msg.”

Em 7 de agosto, surgiu um impasse. A advogada de Tércio resistia à constituição de ônus sobre as ações. Quadrado conversou com o empresário e voltou com uma resposta. “Falei com o Tercio. Ele tem muito medo destas ações serem vendidas. Se não der segurança ele não vai em frente”, disse. “Então melhor cancelar, vendida não será, mas não tem como fazer sem dar em garantia”, respondeu Vorcaro.

A operação não foi abandonada. Em 25 de agosto, Vorcaro perguntou: “Acoes ambipar vamos conseguir rodar?” “Sim. Ele gostou”, respondeu Quadrado, dizendo que trataria da custódia dos papéis. “Vamos tocar rapido entao pra nao perder timing”, escreveu Vorcaro.

Dois dias depois, Vorcaro voltou à carga. “Como ficou tema ambipar. Estou com o contrato. Quadrado respondeu que havia se reunido com Tanure para tratar da dívida com a XP. “Uma das ideias do Tercio é usar estes recursos da sua operação para liquidar XP”, afirmou. Disse ainda que estava montando um fundo para receber US$ 100 milhões em ações.

Em 9 de setembro, as conversas indicam que uma venda havia ocorrido. “Eu vendi AMBIPAR e entra como capital. Eu passo DI para o Master. Correto?”, escreveu Quadrado. “Acho que ate vermos qual ativo mandar amanha, sim”, respondeu Vorcaro.

Três dias depois, Quadrado informou ter usado parte dos recursos de precatórios para liquidar R$ 500 milhões em CDBs da Ambipar. “Com isto o Texas está livre”, escreveu. Disse ainda que restava uma dívida de R$ 800 milhões a ser paga a ele.

Em 24 de setembro, a Ambipar recorreu à Justiça com uma medida cautelar para suspender cobranças e impedir o vencimento antecipado de dívidas. A proteção foi concedida no dia seguinte.

Mesmo depois disso, as conversas sobre Tércio continuaram. Em 26 de setembro, Quadrado contou a Vorcaro que estivera com o controlador da companhia. “Estive com o Tercio. Quando der eu te explico a estratégia dele.”

As tratativas chegaram a 20 de outubro, dia em que a Ambipar apresentou formalmente o pedido de recuperação judicial. Às 12h27, Quadrado e Vorcaro tiveram uma ligação de pouco mais de um minuto. Às 14h31, Quadrado cobrou a assinatura de documentos.

“Daniel. O pessoal está te esperando para assinar. Temos que fechar hoje aqui com Tercio. Ele vai entrar com o pedido de RJ.” No dia seguinte, porém, Vorcaro reclamou de um documento. “A carta da ambipar nao funciona. Ou fazem direito ou vamos reverter operação de ontem.”

Quadrado respondeu que havia segurado a transação até receber todos os documentos, inclusive uma carta do Plena. “Eu mandei esta cópia só para proteger caso o Tercio mude de ideia. Chegou aqui dos advogados dele.”

Procurada, a defesa de Vorcaro não se manifestou até o fechamento desta edição. A Ambipar não comentou.

Quadrado enviou nota: “As mensagens referem-se à discussão preliminar de uma possível operação estruturada no mercado de capitais, envolvendo aquisição de participação societária, negociação de créditos e eventual reorganização de garantias. As referências feitas na conversa devem ser compreendidas no contexto das instituições e sociedades envolvidas nas operações, não constituindo, por si, indicação de benefícios financeiros pessoais aos interlocutores. A estrutura mencionada não chegou a ser implementada nos termos discutidos, não tendo sido concretizada a operação descrita naquela mensagem.”

Também por meio de nota, Tanure afirmou que “não tem conhecimento das mensagens que teriam sido trocadas pelos interlocutores mencionados, uma vez que esse material não foi apresentado em qualquer procedimento no qual esteja formalmente representado por seus advogados”. Frisou, contudo, que “não participou de qualquer ação coordenada envolvendo ações da Ambipar, tampouco se beneficiou de eventual valorização artificial desses papéis”. Disse que não foi instado a se manifestar nesse processo, “que também não tem relação com a aquisição da Empresa Metropolitana de Águas e Energia, Emae, pelo Phoenix FIP. A operação foi realizada com recursos privados cedidos pela XP, que auditou as garantias e financiou o negócio seguindo elevados padrões de mercado.” Tanure reiterou que sua relação com o Master e outras gestoras ocorreu na condição de cliente. “Qualquer tentativa de apresentar essa relação como algo diferente disso é incorreta.” (Colaborou Liane Thedim, do Rio)

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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