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Por que, em todo o mundo, as pessoas não querem mais ter filhos

Queda da natalidade costuma ser vista como uma escolha, mas estudos mostram que homens e mulheres chegam ao final da vida desejam ter mais filhos

Valor Econômico10 min de leitura
Por que, em todo o mundo, as pessoas não querem mais ter filhos

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Quando Susannah McIntyre, de 37 anos, atravessa a área onde vive, em Cambridgeshire, na Inglaterra, levando seus três filhos pequenos, os pedestres resmungam. Os funcionários dos cafés parecem aliviados quando a família vai embora. Quando ela era pequena, as famílias com cinco filhos é que pareciam numerosas. Mas, na escola primária local, apenas outras duas famílias têm três filhos. Hoje, ela diz que se sente uma “exceção” vista com desconfiança por pessoas que “consideram a criação dos filhos uma escolha de estilo de vida indulgente consigo mesmo”.

Em todo o mundo, a parentalidade está em declínio. Na Europa, ter filho único está se tornando a norma: metade das famílias com filhos dependentes tem apenas um. No Reino Unido, esse percentual é de 45%, e apenas 14% das famílias têm três filhos ou mais. O mesmo fenômeno se repete em lugares inesperados.

Os Emirados Árabes Unidos e o Estado indiano de Tamil Nadu agora têm taxas de natalidade inferiores à da Alemanha. A taxa do México caiu abaixo da dos EUA, onde as famílias com um filho já superam aquelas com dois.

As taxas de natalidade em mais de dois terços dos países do mundo caíram abaixo da chamada “taxa de reposição”, de 2,1 filhos por mulher, necessária para manter uma população estável. Em breve, a população mundial começará a diminuir pela primeira vez desde a Peste Negra do século 14. Uma estimativa prevê que o “pico da população humana” poderá ocorrer já em 2064.

Há muitos fatores por trás da tendência. Os jovens têm menos probabilidade de estar em um relacionamento do que as gerações anteriores na mesma idade. É mais difícil para os casais jovens comprar o primeiro imóvel e alcançar estabilidade econômica suficiente para considerar um bebê. E alguns se perguntam se seria correto trazer uma criança ao mundo em cenário tão turbulento.

Há também outro fator em jogo: uma forma de contágio social. Em um mundo que parece tratar os pais com hostilidade e no qual as vantagens de criar filhos ficam obscurecidas, permanecer sem filhos se torna mais fácil quando todos tomam a mesma decisão.

Outro fator adicional - os efeitos das redes sociais de relacionamento - pode explicar as notáveis semelhanças entre a queda das taxas de natalidade em lugares e culturas muito diferentes. Também oferece uma maneira de reverter esse declínio, tornando novamente atraente a decisão de ter filhos.

A queda das taxas de natalidade costuma ser apresentada como uma simples questão de escolha. No entanto, em uma pesquisa realizada por Ester Lazzari e Eva Beaujouan em dez países com baixa fecundidade, até metade dos homens e das mulheres chega ao fim da vida reprodutiva desejando ter tido mais filhos.

Embora ultrapassar o pico da população humana alivie a pressão sobre os recursos naturais, projeta-se que a redução da população mundial seja rápida, dando lugar a enormes contingentes de idosos que vão sobrecarregar os sistemas de proteção social e as economias.

Na China, onde a política do filho único, introduzida em 1980, distorceu o planejamento familiar durante 35 anos, existe agora o “problema 4-2-1”: um filho único responsável pelo sustento de dois pais e quatro avós.

Há outros efeitos, mais sutis. À medida que as crianças se tornam menos visíveis, a tolerância ao comportamento barulhento e imprevisível delas diminui. No Japão, mapas colaborativos chamados Dorozoku mostram como evitar ruas onde “crianças brincam com bolas”. Em um elegante bairro de Paris, juízes determinaram no ano passado o fechamento do pátio de uma escola primária depois que vizinhos reclamaram do barulho.

“As famílias são a unidade mais básica da sociedade e a instituição mais indispensável da humanidade”, afirma Nicholas Eberstadt, demógrafo e titular da cátedra Henry Wendt no American Enterprise Institute. “Mas, à medida que as famílias e seus ramos se tornam menos numerosos, terão cada vez menos capacidade de suportar peso.” Os formuladores de políticas públicas, acrescenta ele, “não estão preparados para a era do despovoamento, que transformará sociedades, economias e a geopolítica”.

Os seres humanos imitam uns aos outros. Trata-se de um impulso primitivo que remonta à necessidade ancestral de nos protegermos em tribos. As normas sociais se desenvolveram como uma maneira de delegar parte de nossas decisões ao grupo. A cooperação coletiva tornou-se instintiva.

Mesmo no mundo moderno, a necessidade de se conformar às normas sociais é poderosa. Em experimento pioneiro realizado na década de 1950, que demonstrou a força do contágio social, o psicólogo Solomon Asch pediu aos participantes que executassem uma tarefa simples: comparar linhas desenhadas em um cartão, cuja resposta correta era evidente.

Sem saber que os demais participantes eram atores instruídos por Asch, mais de um terço dos participantes concordou com a escolha do grupo, apesar de ela estar claramente errada.

O impacto dos efeitos das redes sociais de relacionamento sobre as taxas de natalidade foi bem documentado em um estudo realizado no Brasil. A introdução gradual do sinal de televisão aberta em diferentes regiões durante a década de 1980 foi acompanhada por uma queda abrupta nas taxas de natalidade. As pessoas que passaram a receber o sinal ficaram fascinadas pelas telenovelas, que apresentavam protagonistas urbanas com poucos filhos ou sem filhos.

Em 1960, a mulher brasileira tinha, em média, pouco mais de seis filhos. Quarenta anos depois, esse número havia caído para pouco mais de dois: uma redução quase tão rápida quanto a registrada na China. O impacto foi mais forte entre as telespectadoras com idade mais próxima à das personagens femininas com as quais se identificavam.

Nenhum dos filhos únicos da China consegue imaginar como criar vários filhos”

Estudos mais recentes corroboraram essas conclusões. Uma pesquisa realizada na Suécia em 2010 mostrou que mulheres que trabalhavam em escritórios tinham maior probabilidade de ter um bebê quando uma colega de nível hierárquico semelhante tinha um filho, sem que houvesse efeito equivalente entre colegas de outros níveis.

Um estudo separado, realizado com 6.500 empresas alemãs, constatou que a taxa de transição das funcionárias para a primeira gravidez dobrava depois que uma colega tinha um bebê, e que o efeito durava cerca de dois anos.

Os cientistas sociais alemães Daniel Lois e Oliver Arránz Becker descobriram que o interesse dos casais em ter filhos aumenta quando amigos se tornam pais. Eles apontam três possíveis fatores: casais com filhos tornam a parentalidade menos misteriosa para as pessoas do círculo social, criam uma pressão social para que os demais também tenham filhos e despertam a sensação de que não seguir o mesmo caminho pode prejudicar os vínculos sociais.

“O comportamento dos pares indica o que se espera que pessoas como eu façam e em qual momento da vida”, afirma Anna Rotkirch, professora pesquisadora do Instituto de Pesquisa Populacional da Finlândia. “Evoluímos para prestar muita atenção aos sinais relacionados à reprodução em nosso ambiente”, diz ela, acrescentando que, em sua percepção, esses sinais se tornaram cada vez mais negativos.

A aceleração da queda da natalidade desde o advento dos smartphones talvez tenha menos a ver com o tempo gasto diante das telas, que desviaria a atenção dos relacionamentos amorosos, e mais com imagens negativas do parto e imagens positivas da vida de solteiro. “O medo da gravidez e o discurso que apresenta a maternidade como um sacrifício se tornaram mais comuns nos últimos 15 anos”, afirma Rotkirch.

Segundo ela, “muitas mulheres sem filhos mencionam o medo do que acontece com o corpo durante o parto como motivo para não terem tido filhos”.

Diversos estudos constataram que ver e segurar bebês de verdade aumenta o desejo das mulheres de ter seus próprios filhos - embora possa haver um viés de seleção entre as participantes.

As redes sociais ampliam o grau em que os jovens adultos interagem com pessoas da mesma faixa etária ou modelos de comportamento que não conhecem pessoalmente e com quem não têm vínculos familiares.

“Conversei com mães jovens que ficam surpresas ao perceber que publicar no Instagram sobre ter um bebê gera menos ‘curtidas’ do que publicar sobre uma viagem de férias sofisticada”, diz Rotkirch. “Os jovens adultos estão cada vez mais tomando decisões sobre reprodução com base nos sinais transmitidos por pessoas ou plataformas que não têm interesse real, nem nada a ganhar ou perder, em relação aos seus objetivos de formar uma família.”

A situação atual na Inglaterra e no País de Gales é a seguinte: as mulheres nascidas em 1979 estão tendo famílias menores do que as de seus pais da geração do “baby boom” e de seus avós pertencentes à chamada “greatest generation” [“melhor geração”], enquanto se projeta que suas filhas da geração Z tenham famílias ainda menores.

Um dos principais motivos pelos quais as pessoas acabam tendo menos filhos do que gostariam é o adiamento do início da vida familiar. Na Europa, as mulheres têm o primeiro filho, em média, aos 31 anos, e os homens se tornam pais aos 34. Em 1975, as idades médias eram de 26 anos para as mães e 30 para os pais.

Mas o padrão geral corresponde à hipótese da “armadilha da baixa fecundidade”, proposta pelos economistas Vegard Skirbekk, Wolfgang Lutz e Maria Rita Testa em 2006. Eles argumentaram que, quando a fecundidade cai abaixo do nível de reposição, a redução subsequente do tamanho de cada geração pode consolidar a ausência de filhos como norma social, tornando mais difícil reverter a tendência. A espiral descendente reduz a pressão social para constituir família.

É verdade que nenhum país cuja taxa tenha caído muito abaixo de dois filhos por mulher conseguiu voltar a um nível próximo desse patamar. A Coreia do Sul registrou uma pequena alta, de 0,75 em 2024 para 0,8 em 2025, mas ainda não está claro se isso é um fenômeno temporário, decorrente de mulheres terem o primeiro filho um pouco mais cedo.

Com o passar do tempo, uma recuperação poderá se tornar cada vez menos provável. Na China, a escritora Helen Gao sugeriu que “nenhum dos filhos únicos da China consegue imaginar como seria criar vários filhos”. Se você cresceu sem irmãos e seus amigos também, por que desejaria algo diferente? Some-se a isso as exigências absurdas da parentalidade intensiva moderna e todas as outras atividades que se pode realizar no mundo atual, e não é surpresa que tantos casais agora se declarem adeptos da filosofia “um filho e pronto”.

Eberstadt, do American Enterprise Institute, acredita que a teoria mimética - que trata das influências culturais sobre o comportamento humano - tem papel negligenciado na queda da natalidade. “A crescente raridade das famílias numerosas pode dificultar que as pessoas optem por voltar a tê-las - devido ao que os estudiosos chamam de perda da aprendizagem social -, prolongando os baixos níveis de fecundidade.”

As esperanças de preencher a lacuna demográfica muitas vezes são atribuídas à imigração. Mas recém-chegados a um país também são influenciados por normas sociais. Mulheres de origem somali têm em média sete filhos na Somália, mas dois na Noruega. (Tradução de Marina Della Valle)

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Matéria publicada por Valor Econômico. O Newra News coleta e organiza; o texto e a apuração são do veículo original.

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