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'Flávio é fenômeno quase tão impressionante quanto o pai', diz cientista político

Jairo Nicolau: Flávio está jogando parado, esperando o tempo passar. Não foi ao debate. Se puder ficará em casa

Valor Econômico10 min read
'Flávio é fenômeno quase tão impressionante quanto o pai', diz cientista político

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Stefano Martini/Editora Globo - 24/4/20216

Estudioso e testemunha ocular de nove das dez eleições presidenciais pós redemocratização, o cientista político Jairo Nicolau, veterano analista de 62 anos, professor titular e pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, esperava uma disputa acirrada no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, mas foi surpreendido, como os institutos de pesquisa, com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na pole position, com sinais trocados em relação à tendência de dianteira do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que as pesquisas Quaest e Datafolha registraram ao longo da campanha do primeiro turno.

“Flávio virou um fenômeno eleitoral impressionante, quase tão impressionante quanto seu pai em 2018”, analisa Nicolau, para quem a família que pode virar dinastia deu sobrenome ao antilulismo que vinha crescendo no Brasil.

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Nicolau considera a vitória do PL acachapante, não só na disputa pelo Planalto, mas nos Estados, na Câmara, onde o partido terá cerca de 120 deputados. Nesse contexto de avalanche da direita entram a reeleição em primeiro turno de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo, e os Estados do Sul, com destaque para o Paraná de Sergio Moro, ex-juiz e ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro.

Para o segundo turno, Nicolau prevê dificuldade para o presidente Lula capturar votos, já que não havia este ano outros candidatos de centro e centro-esquerda, como em outros pleitos presidenciais que o petista conseguiu vencer, como 2002 e 2022. O cientista político acredita que os debates na TV serão fundamentais para apresentar ao eleitorado um candidato, Flávio, que “jogou parado” no primeiro turno, ausentando-se dos debates e procurando expor ao mínimo suas intenções e seus planos de governo.

“Os debates são fundamentais, são necessários. Nunca antes na história da democracia brasileira um candidato chegou ao segundo turno com tamanho desconhecimento sobre suas ideias, seus projetos, seu programa de governo”, sustenta ele, destacando que Jair Bolsonaro, em 2018, foi muito mais claro sobre o que pretendia fazer.

Para Jairo Nicolau, uma das chaves da disputa presidencial estará no voto das mulheres. Lula vinha conseguindo vantagem entre o eleitorado feminino. “Se Flávio conseguir reduzir a rejeição que ele tem entre as mulheres, um abraço”, avalia o autor do recém-publicado livro “O país dividido - duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002-2022)”, no qual aborda também essa divisão de gênero. Leia os principais trechos da entrevista:

Valor: Quais foram as principais surpresas?

Jairo Nicolau: Duas coisas chamam atenção, acho que não só minha, mas de quem acompanha a política no Brasil. A primeira é o desempenho do Flávio, com 47%, um desempenho muito impressionante. Eu já observava o crescimento dele, as pesquisas mostravam, mas ele chegar à frente do Lula foi realmente um resultado surpreendente, que dá a ele uma vantagem importante de saída para o segundo turno. Mas é inegável que Flávio não foi a nenhum debate. Participou de algumas entrevistas, fez campanha discreta de rua e nas redes sociais, e virou talvez um dos mais impressionante fenômenos, acho que como o pai dele em 2018. O segundo fato foi o desempenho do PL. As estimativas são de que o PL deverá eleger cerca de 120 deputados. É uma bancada muito grande, muito expressiva.

Valor: E o que esperar do segundo turno?

Nicolau: A eleição em segundo turno tem uma série de especificidades: o tempo igual dos candidatos, a possibilidade de haver um debate, um encontro entre os dois. E sobretudo uma oportunidade para o Brasil conhecer o Flávio. Eu imagino que alguns eleitores que votaram no movimento anti-Lula conhecem pouco o Flávio do ponto de vista das ideias que ele defende, a sua biografia. Então, é uma oportunidade que os eleitores terão de conhecer o candidato que passou em primeiro lugar. Há um enigma com relação à transferência de votos. Hoje ela parece favorecer mais o Flávio, por razões de alinhamento ideológico. Os candidatos que não passaram estão alinhados com posições mais à direita do espectro político. Então, é um desafio para o Lula, porque, enquanto nas outras eleições em que ele passou para o segundo turno ele tinha um potencial de votos para serem capturados, digamos assim, de candidatos de centro-esquerda, desta vez ele não tem. Mas talvez a gente consiga ver algum nível de debate de ideias e de confronto entre os dois candidatos que a campanha, por várias razões, fez com que nós não tivéssemos oportunidade de observar.

Valor: O antilulismo, a rejeição ao Lula, ficou mais forte?

Nicolau: A polarização, no Brasil, antes da ascensão do bolsonarismo, sempre foi pela negativa. Paramos praticamente de falar de antipetismo, é um conceito que desapareceu. O antilulismo permanece, mas estou dizendo que o antilulismo agora passou a ter um nome próprio: o bolsonarismo. Surpreende o fato de que, nas simulações de segundo turno, a posição do Flávio foi parecida com a que praticamente qualquer um obtinha. Quando você olhava o Ronaldo Caiado, o Romeu Zema, Augusto Cury, Renan Santos, todos chegavam perto de Lula nas simulações de votação no segundo turno.

Valor: A força é do bolsonarismo, mas é muito mais do antilulismo. Essas pessoas querem votar em qualquer um no segundo turno contra Lula. É isso?

Nicolau: É justamente isso. Daí essa situação muito curiosa: é como se, na campanha de primeiro turno, as pessoas não se importassem tanto porque já existia uma decisão tomada para o segundo. Vai ser o Lula e o contra-Lula.

Valor: Vamos falar sobre a taxa de aprovação ao governo e até ao desempenho do Lula como presidente. Há pessoas que votam em qualquer um contra o Lula, mas também tem gente que avalia mal o governo, que não gostaria de votar em Lula mais uma vez. Porém, eles vão olhar para o outro lado e vão ver o Flávio Bolsonaro. E aí?

Nicolau: Poderão falar: “Ah, melhor ficar o Lula aí mesmo, porque esse Flávio, eu tenho medo, eu não sei do que ele é capaz, eu não sei que governo ele vai fazer”. Não estou falando do bolsonarista raiz, claro. Há muita incerteza.

Valor: Como é que você vê esses dois fatores na balança? Desaprovação ao Lula e, por outro lado, uma rejeição e até um temor do que poderia ser o governo Flávio.

Nicolau: Se a gente estivesse nos EUA, com essa taxa de aprovação, saberíamos que a probabilidade de o Lula ser derrotado seria muito alta, não é? Poderia até ganhar no Colégio Eleitoral, mas no voto popular dificilmente venceria. Então, esse é um ponto quase incontornável, a teoria das eleições. Alguém que conheça pouco de eleição no Brasil, olhando essas taxas, vai falar: “As coisas estão difíceis para esse presidente, a taxa de aprovação dele é baixa, índices de ótimo e bom estão baixos”. Mas é isso. Do outro lado, tem um candidato medíocre do ponto de vista da sua carreira, que carrega o peso de só ser filho do Bolsonaro, que está preso por uma tentativa de golpe de Estado, e cuja campanha ofereceu ao país muito pouco informação de quem ele é realmente. É um negócio impressionante, porque [Jair] Bolsonaro tem uma carreira. Tudo bem, medíocre, como deputado, militar e tal. Mas só que, depois desse ciclo, ele se torna uma liderança conservadora no debate dos temas comportamentais no Congresso. Ele passa três anos, entre 2015 e 2018, percorrendo o Brasil, sendo recebido nos aeroportos, falando em dezenas de programas de rádio e televisão. Ou seja, Bolsonaro assustava o país, mas ele era alguém que você conhecia minimamente. E conhecia suas ideias, porque ele expressou isso. Ele foi ao primeiro debate, antes da facada, em 6 de setembro.

Valor: A participação em debates faz muita falta para o eleitor, para a democracia. Mas o eleitor brasileiro conhece Lula profundamente. Sobre Flávio, a principal informação é a de que ele é filho de Jair Bolsonaro.

Nicolau: É uma característica fundamental, ser filho. O que não sabemos são as ideias do Flávio, se ele tem alguma ideia própria, uma visão de país, uma visão de democracia. Nós não sabemos nada.. Tem uma entrevistinha ali, tudo muito controlado, por causa do horário eleitoral, camisa branca, uma propaganda. Flávio nem foi, nesse sentido, um candidato Bolsonaro clássico, que era muito mais enfático, tinha uma agenda.

Valor: Essa ausência de informação, de contato com o Flávio como candidato, torna muito importante, crucial, que no segundo turno ocorram debates. No horário de propaganda eleitoral obrigatória, ele terá o mesmo tempo que Lula. O que se pode esperar desta etapa?

Nicolau: Em 2022, tivemos mais de um enfrentamento entre o Lula e o Bolsonaro. Eu nem imagino a possibilidade de um presidente ser eleito sem um debate com seu adversário. Aí a gente fica muito próximo do modelo americano, onde há só dois debates presidenciais por ciclo. Debates polarizados, o país inteiro parando para ver. Agora, depois do que aconteceu com o cancelamento do debate de quinta-feira [na TV Globo], sou cético em relação a se os dois quererão ou se quem estiver na frente [nas pesquisas] vai querer ir.

Valor: Se o noticiário ficar muito quente, seja em cima do Banco Master e de Daniel Vorcaro, seja em cima de Lulinha, pode ser mais motivo para não quererem ir?

Nicolau: Lamentavelmente, a gente pode ter uma eleição sem um confronto entre os dois. A gente está falando do debate físico. Agora, e o debate de ideias? Não existiu. Os historiadores do futuro vão ficar desesperados para saber sobre o quê os brasileiros conversaram.

Valor: Tirando a Nossa Senhora Aparecida.

Nicolau: Pobreza total. Os outros candidatos tampouco conseguiram oferecer alternativas. Sem dúvida, foi a pior oferta de candidatos que a gente teve desde sempre, desde as eleições de 1989.

Valor: Queria lhe perguntar sobre a importância do voto das mulheres. O presidente Lula adotou nesta reta final do primeiro turno duas decisões muito importantes para as mulheres: a proibição das empresas de apostas (bets) e o aumento real de 15% no Bolsa Família. Qual o peso disso?

Nicolau: Se Lula se reeleger, ele deverá colocar [a eventual vitória] de novo na conta das mulheres. É bem provável que Flávio vença novamente entre os homens, pelo menos no segundo turno, e que Lula dependa das mulheres. Elas são maioria e comparecem em maior número, então são fatores importantes. Acho que a campanha dele provavelmente deve trabalhar com isso de novo. Não sei se [essas políticas] foram de caso pensado. A opinião pública era 60% contra as bets. Com relação ao Bolsa Família, é uma medida olhando o eleitorado clássico do Lula, e ele sinalizou mais uma vez para o seu eleitor. A vacina contra a Covid foi onde o Bolsonaro perdeu de vez as mulheres, que foram as que mais perderam, não só vidas, mas também assumindo o cuidado com os pais, com os filhos, com o marido. Não importam as razões, se evolucionistas ou culturais, as mulheres cuidam mais, são mais responsáveis pelos cuidados com os pais, com os filhos, do que os homens, na média. Então, quando o Bolsonaro foi contra a vacina e contra a vacinação das crianças, perdeu as mulheres de vez. Ele havia ganho entre as mulheres em 2018, vale lembrar. E o filho herdou todas as virtudes do pai em termos eleitorais e carregou junto as rejeições. Então, Flávio perde entre os pretos, ele não consegue nada no Nordeste, ele perde entre os católicos. A rejeição que o pai tinha em certos segmentos, ele herdou, notadamente junto às mulheres. Para ser vitorioso, Flávio tem que quebrar de certa maneira a distância que o Lula deve abrir entre as mulheres. Se Flávio conseguir reduzir a rejeição que ele tem entre as mulheres, um abraço.

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