Discurso antissistema naufraga, e Renan não deve apoiar ninguém
Renan Santos: intenção é fortalecer a bancada eleita este ano para nova candidatura presidencial em 2030

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Adriano Machado/Reuters
A aposta no discurso antissistema e contra a polarização não foi suficiente para fazer a candidatura de Renan Santos, do estreante Missão, decolar. Ele chega na reta final da eleição com status de “nanico”, sem conseguir ultrapassar a marca do 5% das intenções de voto nas pesquisas, e sinaliza que não apoiará nenhum dos concorrentes em um eventual segundo turno.
Presidente do Missão, partido criado no ano passado, Santos entrou na disputa com dois desafios: ampliar seu grau de conhecimento entre os eleitores e formar uma bancada representativa no Congresso. Hoje, a sigla conta apenas com um deputado, Kim Kataguiri (SP), que busca a reeleição e é considerado um dos principais nomes da legenda.
Ao fazer um balanço da disputa, a coordenadora Amanda Vettorazzo (União) aponta como principal acerto a decisão de “tirar a campanha do estúdio e colocar na rua”. Ainda na pré-campanha, Santos percorreu ao menos 100 cidades do interior do país para divulgar seu nome. Levantamentos da Quaest mostram que a parcela de eleitores que diziam não conhecer o candidato caiu de 75%, em abril, para 50%, no fim de setembro.
Após a primeira caravana por municípios classificados pelo partido como “esquecidos”, Santos antecipou o lançamento da campanha, sob o argumento de que havia recebido ameaças de facções criminosas, episódio que até agora não foi esclarecido.
Quase duas semanas depois de formalizar a chapa “puro-sangue”, que tem como vice Aroldo Medina, o Missão realizou um congresso para lançar o programa de governo e apresentar os candidatos da legenda aos Executivos estaduais. O evento teve ingressos entre R$ 94 e R$ 7 mil, do pacote básico ao VIP, como parte da estratégia de arrecadação para a campanha, que conta com orçamento enxuto.
O Renan fez campanha diferente, com coragem para colocar as ideias dele em debate”
O Missão recebeu R$ 3,3 milhões do fundo eleitoral para distribuir entre todos os candidatos. Santos decidiu, porém, custear a própria campanha por meio de uma vaquinha virtual, que arrecadou cerca de R$ 2,54 milhões.
A candidatura enfrentou ainda episódios envolvendo a Justiça Eleitoral. O ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), suspendeu e depois liberou a propaganda de Santos em sites e perfis nas redes sociais, após identificar ao menos 16 contas registradas depois do pedido de candidatura. Em outro episódio, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, foi filiado de forma fraudulenta ao Missão, caso que passou a ser investigado pela Polícia Federal (PF).
Desde o início da propaganda eleitoral, em 16 de agosto, Santos se apresenta como alternativa à polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o filho de Jair Bolsonaro. O discurso combativo contra os dois adversários marcou a campanha, especialmente no debate da Band, quando chamou Lula de “bêbado” e Flávio de “cagão”. Augusto Cury (Avante) reagiu e afirmou que o candidato do Missão tinha “um perfil muito agressivo”. Após o episódio, o candidato do Missão modulou o tom.
A estratégia de comunicação, porém, não se traduziu em crescimento consistente nas pesquisas. Santos oscilou entre 3% e 4% nos principais levantamentos ao longo da campanha. Na reta final, segundo o Datafolha divulgado na quinta-feira (1º), Lula e Flávio aparecem à frente, com 42% e 38% das intenções de voto, respectivamente, enquanto os demais candidatos estão abaixo de 10%.
Mesmo com dificuldade em “furar a bolha”, Santos conseguiu apresentar suas principais bandeiras ao eleitorado, como suas propostas para a área da segurança pública. O candidato é um entusiasta do modelo adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que costuma ser bastante criticado por especialistas da área por violações aos direitos humanos.
O líder salvadorenho adotou o regime de “tolerância zero” no combate às gangues locais e, desde 2022, o país vive sob um regime de exceção, com a suspensão de direitos constitucionais, o que permite prisões em massa sem mandado e detenções prolongadas.
Ao longo da campanha, o presidenciável destacou por diversas vezes que seu eventual governo vai declarar “guerra” contra o crime organizado para recuperar territórios ocupados por facções. Ele também afirmou que poderia decretar estado de exceção em favelas e que não cumpriria decisões monocráticas do Supremo Tribunal Federal (STF) que considerasse ilegais.
Outra proposta que ganhou repercussão foi fortalecer a soberania nacional por meio de um programa nuclear que poderia incluir a produção de bombas atômicas. Santos aventou, ainda, a possibilidade de o Brasil reconsiderar sua participação no Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), a exemplo da Coreia do Norte, que, segundo ele, é “respeitado internacionalmente”, embora não aprove o caráter do regime de Kim Jong-un. A Constituição, porém, estabelece que a atividade nuclear no país deve ter fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso.
Com os desdobramentos do caso Master, Santos ganhou munição para aumentar as críticas a Flávio, embora também direcione ataques a Lula e ao STF. Ao longo da campanha, o presidenciável defendeu uma reforma do Judiciário e afirmou que, se eleito, atuaria para “expulsar” ministros do Supremo envolvidos no escândalo, citando Toffoli e Alexandre de Moraes como exemplos.
Em um tour de ônibus por cidades do Sul e do Sudeste, onde estão as principais apostas do partido para o Congresso, anunciado 20 dias antes da eleição, Santos disse que não votará “em ladrão” nem pedirá aos eleitores que votem “em ladrão”, em uma referência a Lula e Flávio.
Embora as caravanas sejam apontadas como um dos pontos altos da campanha, um integrante ouvido sob reserva avalia que o trabalho de exposição deveria ter começado antes da reta final da corrida eleitoral e explorado também cidades do Nordeste.
Para Vettorazzo, o principal mérito da campanha foi levar a candidatura para fora dos estúdios. “O Renan fez uma campanha diferente, com coragem para colocar as ideias dele em debate e disposição para percorrer o Brasil”, afirmou. Segundo ela, a estratégia permitiu ao candidato percorrer o país, realizar eventos e apresentar suas propostas mesmo com menos recursos e sem tempo de televisão.
A campanha já trabalha também com o cenário pós-eleitoral. Mesmo diante de uma provável derrota no primeiro turno, integrantes do Missão falam em fortalecer a bancada que deve ser eleita de olho em uma nova candidatura presidencial em 2030.
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