Desembargador convidou Daniel Vorcaro para tomar vinho com Nunes Marques
Conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram que o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), chegou a convidar o então controlador do Banco Master para tomar “vinho com o min Kassio” e que encaminhou ao ex-banqueiro os contatos do ministro do Supremo Tribunal Federal…

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Conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram que o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), chegou a convidar o então controlador do Banco Master para tomar “vinho com o min Kassio” e que encaminhou ao ex-banqueiro os contatos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques e do filho dele. Há ainda uma conversa na qual eles tratam de um possível encontro em uma casa em Brasília que pertence ao ministro, que atualmente preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O diálogo, porém, não deixa claro se a reunião ocorreu. Em nota, o ministro afirmou que Vorcaro nunca esteve em sua casa.
No dia do convite para o vinho com o ministro, o então banqueiro avisou que estava indo para Londres. As datas coincidem com o evento realizado pelo Master naquele ano na capital inglesa com autoridades brasileiras dos três Poderes. A sequência do diálogo, porém, mostra que Vorcaro e Newton Ramos voltaram a conversar sobre encontros em Brasília, sem mencionar o nome de Nunes Marques, mas fazendo referência a um “amigo” de ambos.
A Polícia Federal (PF) não encontrou mensagens diretas entre o ex-banqueiro e o ministro do STF. O relatório, no entanto, mostra que a conversa estava configurada para apagar as mensagens a cada sete dias. Em nota, o ministro afirmou que “nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro”.
Em relação a Kevin Marques, filho do ministro, a conversa estava configurada para apagar as mensagens a cada 24 horas. Por isso, a PF também não conseguiu identificar se houve efetivamente troca de mensagens entre eles. Os dados extraídos do celular de Vorcaro, no entanto, mostram que ele adicionou Kevin a sua lista de contatos no mesmo dia que recebeu número do desembargador.
As mensagens entre o ex-banqueiro e o desembargador revelam ainda que os dois mantiveram contato entre março de 2024 e abril de 2025, período no qual conversaram sobre ao menos cinco encontros com um “amigo” de Newton Ramos em Brasília, enquanto o magistrado pedia favores ao banqueiro.
Questionados, Vorcaro, Newton Ramos, Nunes Marques e Kevin não responderam à reportagem quem seria o “amigo” mencionado nas mensagens. Em um dos diálogos, de 6 de novembro de 2024, Newton e Vorcaro combinam de se encontrar com o “amigo”. No decorrer do diálogo, o desembargador encaminha o endereço de uma casa do ministro do STF, em Brasília e, na sequência, os dois se falam por chamada de telefone.
“Oi. Confirmado 19:30? Ele ficou de me avisar se atrasar”, afirmou o desembargador às 17h46min. “Sim; Confirmado”, respondeu o banqueiro, que logo emendou: “E ai. Me passa o endereço”. Na sequência os dois realizaram uma chamada de voz e, depois dela, Vorcaro afirmou: “Vamos eu e vc. Quando puder”.
O desembargador então enviou o endereço do imóvel que pertence a Nunes Marques e, na sequência, os dois fizeram uma chamada de voz pelo WhatsApp. Esse diálogo foi o único em que eles indicaram que haveria um encontro na casa do ministro.
Em outra conversa, realizada um dia antes, Vorcaro pediu para se encontrar com o “amigo” no dia 6 de novembro. Os dois chegaram a acertar um possível horário para o encontro e falaram por telefone duas vezes. Newton Ramos teria tentado realizar o encontro naquele dia mesmo.
“Como está tua agenda agora?”, indagou o desembargador, às 19h44. “Ele disse que está aí perto e que poderia passar na 26 [possível referência à quadra onde Vorcaro mantinha uma casa em Brasília, no Lago Sul]”.
“Agora tô com gente aqui”, respondeu o então banqueiro. Os dois fizeram uma chamada de voz na sequência e não voltaram a se falar mais no WhatsApp naquele dia.
Em outra ocasião, em 9 de outubro de 2024, Vorcaro e o desembargador combinaram um encontro, e o magistrado avisou ao banqueiro que o “amigo” teria pedido para não ir mais ninguém.
“Tudo bem? Ficou marcado?”, perguntou Vorcaro às 11h02. “Tudo sim. Ficou”, respondeu Newton Ramos. “19?”, questionou o banqueiro. O desembargador então enviou uma sequência de mensagens: “Que horas lá? Combinado. O amigo pergunta se pode ser um pouco mais cedo. Por volta das 18”. Newton Ramos, então, tentou ligar para Vorcaro, que não atendeu, e na sequência enviou a sugestão de horário: “18:30”.
Vorcaro respondeu: “Combinado. Pode sim”. O desembargador, então, confirmou e na sequência fez o aviso: “Blz. Tinha esquecido. Ele pediu para não chamar outras pessoas”. O ex-banqueiro respondeu: “Claro, seremos só nós”.
As datas ainda indicam que todos os encontros discutidos entre Vorcaro, Newton Ramos e o “amigo” teriam ocorrido depois que o então dono do Master assinou um contrato com o escritório da advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador, para atuar em processos envolvendo R$ 8,5 bilhões em precatórios de interesse do banco.
O desembargador e sua esposa eram tratados em conversas de Vorcaro como a “Turma do KN”, uma possível referência ao ministro do STF, que foi desembargador do TRF-1, onde Newton Ramos atua, antes de ir para o Supremo.
Por meio de nota, o gabinete de Nunes Marques afirmou que o ministro “nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro”.
O texto também afirmou que o filho do ministro, Kevin Marques, nunca recebeu dinheiro do Master e que Vorcaro “nunca esteve na casa do ministro”. “O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros.”
O advogado Kevin Marques afirmou em nota que “não autorizou ninguém a falar em seu nome” e que “tampouco pode ser responsabilizado por iniciativas ou ações de terceiros”. Já o desembargador Newton Ramos afirmou que “os diálogos mencionados possuem caráter estritamente privado, inserindo-se na esfera de proteção do direito à intimidade, sem qualquer relação com o exercício da atividade jurisdicional do magistrado ou com a atuação profissional do escritório de advocacia citado”.
Já a advogada Camilla Ramos afirmou que nenhum dos casos em que seu escritório atua para o Master tramita no STF ou “tem qualquer vínculo com ministros da Corte” e que o escritório “não recebeu nenhum pagamento do Master até agora, seja a título de pró-labore ou de êxito”.
A defesa de Vorcaro afirmou, também em nota, que “não confirma o conteúdo das supostas conversas atribuídas a ele, nem reconhece a origem, autenticidade ou integridade do material apresentado”. No texto, a defesa ainda repudiou os vazamentos de comunicações privadas e reafirmou que o ex-banqueiro possui informações relevantes e personalíssimas e segue disponível para contribuir com as autoridades”.
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