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O que vai mobilizar o eleitor no segundo turno?

Uma pesquisa eleitoral mede a temperatura política, capta como pensam os eleitores e identifica tendências e mudanças em opiniões e atitudes. O que uma pesquisa deve fazer, em outras palavras, é entender a população brasileira.

Valor Econômico6 min read
O que vai mobilizar o eleitor no segundo turno?

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Nessa era digital, a pesquisa funciona como um print de um story do Instagram: captura um momento no tempo, enquanto a política e os eleitores continuam em tendência de movimento. Em 28 de setembro, publiquei aqui no Valor um artigo em que, a partir das pesquisas Quaest, identificava dez grandes temas desta eleição. O primeiro turno permite retomar alguns deles, e já acrescentar outros que são relevantes para o segundo turno.

(1) O cenário de segundo turno se confirmou. Ao longo da campanha, sustentei que não havia elementos suficientes para se apostar em uma definição no primeiro turno. Nas pesquisas, o contingente de eleitores com voto já definido em outros candidatos superava a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro. A disputa chega agora à etapa decisiva com uma diferença estreita entre os dois e cerca de 8% dos votos dados aos demais candidatos.

(2) A polarização calcificada, diagnóstico tão debatido na imprensa, voltou a se manifestar pelo terceiro ciclo eleitoral consecutivo. Lula e Flávio foram, desde o início, os nomes mais competitivos, ambos com um piso de apoio de 30%, e o medo da vitória do adversário continuou orientando o comportamento dos dois lados. Antipetismo e antibolsonarismo seguem estruturando a disputa. O padrão de correlação do voto entre ciclos eleitorais chegou a um patamar inacreditável de 99%, como mostra a semelhança entre a distribuição dos votos por estado em 2022 e em 2026. (ver gráfico correlação de voto)

(3) A campanha foi morna durante boa parte do tempo, mas ganhou movimento na reta final. O voto útil à direita, saindo de candidaturas da terceira via, começou a se formar lentamente depois do 7 de Setembro e se intensificou nas últimas semanas. Entre a pesquisa de 28 de setembro e as urnas, Flávio passou de 40% para 47%, enquanto os demais candidatos, somados, recuaram de 14,1% para 7,84%. A direção desse movimento já aparecia nas pesquisas. (ver gráfico Quaest em votos válidos)

(4) Lula continuou sem colher os dividendos eleitorais da economia. Os tradicionais indicadores macroeconômicos, como PIB e taxa de emprego, não bastaram para mudar o humor de uma parcela decisiva do eleitorado: os independentes, que votaram contra o governo no domingo. Para conquistá-los no segundo turno, o presidente precisará mudar a abordagem. Quem escolheu outros candidatos dificilmente será convencido apenas por um balanço dos indicadores econômicos. Será preciso apresentar novos compromissos e razões para apoiar a reeleição.

(5) A criação de programas sociais deixou de garantir retorno eleitoral automático. As pesquisas da Quaest vêm mostrando que os benefícios passaram a ser percebidos como direitos, isto é, os beneficiários já não têm o mesmo medo de perdê-los e não expressam gratidão automática a quem os criou. Entre os que não recebem, aparece a percepção de que estão pagando uma conta cada vez mais cara. Essa mudança ajuda a entender os limites eleitorais dessas políticas apresentadas na reta final do primeiro turno.

(6) As estratégias partidárias também se refletiram na composição da Câmara. PL e PT usaram a disputa presidencial para impulsionar suas bancadas. Até aqui, o PL conquistou 121 cadeiras, a maior bancada, e o PT, 70, a segunda maior. União Brasil, PP, PSD, Republicanos e MDB concentraram esforços nas eleições para deputado e obtiveram 270 cadeiras.

(7) A disputa pelo Senado trouxe poucas surpresas em relação às tendências observadas nas pesquisas. Apesar da elevada indecisão na véspera, a Quaest identificou, nos estados pesquisados, o crescimento dos candidatos que acabaram eleitos, em muitos casos com arrancadas na reta final. No artigo anterior, destaquei que o voto para senador parecia mais associado à força dos governos estaduais e à preferência ideológica na eleição presidencial. Onde Flávio foi bem, vimos crescer candidatos alinhados a ele, como em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Goiás. Onde Lula teve melhor desempenho, as pesquisas mostravam a força do petismo, como na Bahia, no Ceará e em Pernambuco. Ex-governadores também garantiram vagas no Espírito Santo, em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, na Paraíba e no Pará.

(8) Nas disputas pelos governos estaduais, confirmou-se a disposição do eleitor de encerrar a eleição já no primeiro turno. Em 20 unidades da Federação, a escolha está definida. É um recorde, acima da marca de 2010, quando 18 estados elegeram seus governadores sem necessidade de uma segunda votação. Esse movimento já aparecia nas pesquisas da Quaest.

(9) A abstenção também merece atenção. Nas estimativas do modelo de eleitor provável, que considera a probabilidade de comparecimento às urnas, a vantagem de Lula diminuía. O modelo sinalizava que uma abstenção superior à de 2022 poderia prejudicar o presidente. O resultado foi compatível com esse alerta e reforçou a importância de considerar quem efetivamente comparece para votar. Mas é preciso dizer em alto e bom tom: nada de muito expressivo aconteceu aqui. Abstenção seguiu um curso normal e afetou pouco as estimativas da pesquisa. (ver tabela)

(10) A geografia do voto preservou padrões conhecidos. O Nordeste permaneceu lulista; o Sul e o Centro-Oeste, antipetistas. O Norte voltou a se dividir, e o Sudeste manteve o voto majoritariamente contrário ao PT. A novidade em relação a 2022 veio de Minas Gerais, onde Lula perdeu no primeiro turno. O resultado favorece Flávio à luz do histórico de coincidência entre a escolha dos mineiros e a vitória presidencial. Para se reeleger, Lula terá ainda de contrariar dois antecedentes: nenhum presidente se reelegeu com saldo negativo na avaliação do governo, e nenhum candidato à Presidência que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu vencer.

Esses padrões ajudam a compreender o ponto de partida do segundo turno. Transformá-los em sentença sobre o resultado seria contrariar tudo o que defendo sobre pesquisas. Nosso trabalho nas próximas semanas continuará sendo ouvir os eleitores e acompanhar seus movimentos. O story continua depois do print.

Felipe Nunes é CEO da Quaest

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