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Endividamento público traz risco ao crescimento global

A economia global resistiu a vários choques nos últimos anos, mas a resistência tem limites e eles podem estar perto de ser atingidos.

Valor Econômico5 min read
Endividamento público traz risco ao crescimento global

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REUTERS/Benoit Tessier/Foto de Arquivo

A economia global resistiu a vários choques nos últimos anos, mas a resistência tem limites e eles podem estar perto de ser atingidos. A conclusão do “Perspectiva Econômica Mundial”, documento do Fundo Monetário Internacional que abre sua reunião anual de outubro, traz uma recomendação: é necessária uma urgente ação fiscal. Os juros estão subindo nas principais economias avançadas, enquanto os governos não param de empilhar dívidas, algo que era indolor quando o dinheiro era barato. Isso acabou.

Há vários fatores interagindo que podem confluir em uma crise séria. Há o choque do petróleo, em que uma guerra sem fim à vista no Oriente Médio jogou os preços dos combustíveis nas alturas. No cenário base dos economistas do FMI, a interrupção do fluxo do óleo pelo Estreito de Ormuz pode terminar em março de 2027, com as cotações convergindo para os níveis pré-guerra a partir de outubro do ano que vem. É apenas uma aposta. O petróleo se mantém acima de US$ 100 o barril do tipo Brent, o que elevou o preço médio no ano para US$ 96 o barril, ao menos 20% acima do de 2025. Mais grave foi a disparada dos preços dos refinados, entre 70% e 95%, puxada pelos bombardeios a refinarias no Oriente Médio e na Rússia e pela redução das exportações por países produtores. Em um cenário mais adverso, os preços médios, segundo o FMI, ultrapassarão US$ 130 o barril, com escaramuças e bloqueio de Ormuz persistindo ao longo do próximo ano quase inteiro.

O salto dos preços da energia elevou os custos de insumos e transportes, transmitindo-se por toda a economia. O índice de preços ao consumidor dos EUA, por exemplo, subiu 0,6% em setembro e 3,7% em 12 meses. No período, a energia subiu 20,4%. O impulso à inflação ocorreu quando ela já desafiava há tempos as metas de bancos centrais, em especial o Federal Reserve americano, que não a cumpre há mais de cinco anos. O Fed voltou a subir os juros em setembro, em um movimento antecipado pelo Banco Central Europeu e que tem caráter geral. No segundo trimestre, 14 de 33 bancos centrais fizeram o mesmo.

A reação monetária ao choque do petróleo agrava outro problema mais sério, o aumento dos juros de longo prazo dos títulos soberanos, evidenciado com mais clareza nos papéis do Tesouro americano de 10 a 30 anos, que pagam agora rendimentos não vistos desde o início do século. A maior fonte da pressão é o enorme e crescente endividamento dos países, que continuou em expansão após a pandemia.

Há outras razões, como o boom ininterrupto de investimentos na inteligência artificial (IA), bancado parcialmente com a emissão de dívidas de longo prazo. Em um par de anos, os papéis de empresas relacionadas a IA saíram de 1% para 10% do total da dívida com grau de investimento. A IA puxa os investimentos globais, garante o crescimento do comércio global e carrega a valorização das bolsas nos EUA. A interrupção abrupta das promessas de retorno da tecnologia ou a reavaliação dos investimentos pode por si só provocar uma crise nos mercados financeiros. Uma forte correção nos mercados seria facilitada pela grande concentração nos papéis das Big Techs e pela alta alavancagem de participantes do mercado, como os fundos hedge, os mais especulativos. Os índices de ETFs alavancados, por exemplo, perfazem 28% do volume de dinheiro aplicado nessa modalidade de investimento. Já os fundos hedge têm disponíveis US$ 13 trilhões para investir nesse e em outros mercados.

IA e inflação ampliam a conta de juros que só cresce com os déficits públicos de muitos países avançados e emergentes. O endividamento dos países ricos passará de 108% do PIB em 2025 para 115% em 2031. Nos países emergentes, crescerá de 74% no ano passado para 84% no início da próxima década. Se a projeção estiver correta, os emergentes não chegarão nem em seis anos aos mais de 90% do PIB da dívida bruta do Brasil, pelos critérios do FMI, que nela inclui os títulos do Tesouro em poder do Banco Central.

Com os elevados juros brasileiros, decorrentes da rápida expansão do endividamento no governo Lula, a necessidade de financiamento para fazer frentes a novas obrigações e rolar débitos que vencem é muito alta. Pelos números do FMI, será de 8,12% do PIB em 2026 e de 7,67% do PIB no ano que vem, e sempre superior a 6% até 2031. São muitos os problemas que decorrem das dívidas altas dos países de modo geral, segundo o Fundo. Um deles: “O espaço fiscal e de política monetária para mitigar os efeitos de instabilidades financeiras é hoje muito mais limitado do que nas duas últimas décadas”. Daí a urgência para se recompor a capacidade fiscal dos governos.

O FMI aponta três riscos principais ao crescimento global. A reversão do boom da IA pode causar reprecificação turbulenta dos ativos. Alta da inflação e preocupações fiscais podem disparar os juros dos títulos soberanos e provocar instabilidades em mercados já alavancados. Ameaças à cibersegurança de serviços financeiros altamente conectados tornaram-se risco sistêmico. Possíveis coadjuvantes nesse cenário são o prolongamento da guerra no Oriente Médio, eventos climáticos extremos e novas tensões no comércio, que amplifiquem pressões inflacionárias.

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