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'É possível ser inovador no mercado imobiliário, reduzir o risco e ganhar dinheiro'

Quando chegou ao Brasil, nos anos 1990, o arquiteto francês Greg Bousquet trazia na bagagem a convicção de que a boa arquitetura, quando combinada a um urbanismo eficiente, agrega valor substancial aos empreendimentos imobiliários.

Valor Econômico6 min read
'É possível ser inovador no mercado imobiliário, reduzir o risco e ganhar dinheiro'

Excerpt

Quase três décadas depois, seu nome se tornou sinônimo de criatividade e inovação no mercado nacional, com projetos em 17 estados — que são referências em suas praças.

Formado em Arquitetura pela École de Paris, com mestrado na Sorbonne University, foi um dos fundadores do escritório Triptyque Architecture, onde ficou mais de duas décadas até abrir seu próprio estúdio na capital paulista, o Architects Office, em 2021. Já assinou mais de 50 diferentes produtos residenciais, comerciais e "masterplans". Mas um fio condutor os une: o respeito ao contexto local em que os projetos estão inseridos.

Por que a relação do projeto com o contexto é relevante?

Greg Bousquet — Temos trabalhado no Brasil todo e aprendemos que cada projeto é único e deve ser pensado para apenas aquele lugar. Tem cliente que pede para reproduzir conceitos desenvolvidos em outras cidades, mas não aceitamos porque é importante respeitar o contexto. O Brasil é um país muito diverso, cada estado tem sua cultura, seu clima, sua temperatura e sua natureza. Há diversos exemplos de lugares no mundo onde isso não respeitado, e o resultado são "assets" de pouco valor no mercado. O incorporador precisa respeitar o contexto antes de definir o produto.

Investir em arquitetura é outro fator que pode influenciar o sucesso do empreendimento?

Sem dúvida. Em geral, as incorporadoras encomendam pesquisas de mercado para saber o que está dando certo e minimizar riscos. Mas isso acaba resultando em mesmices. Buscamos fazer diferente, vendendo inovação. Fizemos uma pesquisa para apresentar dados tangíveis sobre o valor agregado da arquitetura na precificação dos imóveis, e a resposta foi uma variação positiva de 5% a 22% acima, entre produtos na mesma praça. Então, sim, é possível ser inovador, reduzir o risco e ganhar dinheiro.

As empresas do setor estão mais avessas a riscos nos últimos anos?

Sim, mas é compreensível. Em um cenário internacional crítico, com guerras, taxa de juros alta e eleições no Brasil, esse valor agregado da arquitetura é o mais fácil de ser cortado, infelizmente. Muitas vezes, opta-se por quase fazer um caixote pelo medo de gastar à toa. Ao mesmo tempo, é essa diferenciação que pode ajudar o incorporador a vender melhor seu produto.

Criado para a incorporadora AG7, em Curitiba (PR), o edifício AGE 360 foi um foi um divisor de águas no mercado local e na trajetória do escritório liderado por Greg Bousquet

Joana França/Divulgação

Como você avalia o mercado nacional quanto ao investimento em arquitetura?

Há lugares onde essa reflexão está mais madura e em outros, não. Em Curitiba (PR), por exemplo, temos projetos que provocaram uma transformação no mercado pelo design. Temos conseguido levar esse olhar mais contextualista graças a uma nova geração de incorporadores, que tem desejo de mudança e quer marcar o mercado a seu modo. Mas o Brasil é um país muito diverso. Estamos em 17 estados e são 17 "países" totalmente diferentes: clima, cultura, temperatura, sotaque e natureza. No Norte, é preciso se proteger do sol poente; no Sul, ao contrário. É complexo e, ao mesmo tempo, muito gostoso de projetar assim.

O que define a boa arquitetura no alto padrão imobiliário?

Para mim, são três pilares. Primeiro, respeito ao contexto. O luxo está mais "low profile", a sofisticação não está mais no excesso ou na arquitetura extravagante, mas em valorizar o contexto. Se o lugar oferece boas paisagens, é só enquadrá-las e pronto. Nada mais.

Outro pilar é o uso de menos recursos, até por conta da questão climática. E isso não deixará a casa menos luxuosa, pelo contrário: em pouco tempo, será risível ver um prédio com brilhos, neon e esquadrias em aço. Nosso pensamento está mais com o luxo silencioso como solução real para a redução de impacto do projeto no meio ambiente.

E terceiro, evitar reproduzir a arquitetura vernacular do lugar onde está o projeto. Usamos os princípios locais e só. No litoral do Ceará, por exemplo, tetos de palha só existem em pousadas. Nenhuma casa originalmente nordestina tem isso. É um viés "Disney" que não existe na realidade local.

Mas é importante dizer que a boa arquitetura não deve servir apenas a projetos de alto padrão — o que é uma noção equivocada. Na França, todos os arquitetos começam a carreira desenvolvendo, primeiro, empreendimentos de interesse social. A ordem é criar um produto aceitável, inteligente e inovador no segmento popular. Depois, vai para o luxo.

Pesquisa encomendada pelo escritório Architects Office mostrou que o valor agregado da arquitetura pode impactar, em até 20%, o preço de um imóvel. Em São Paulo (SP), o projeto Samanea, da Idea!Zarvos, busca confirmar essa valorização em Pinheiros

Architects Office/Divulgação

Como analisa a nova geração de arquitetos brasileiros?

Tenho visto muitos escritórios surgindo, com gente nova e talentosa que cortaram o cordão umbilical com o passado e têm feito trabalhos atuais muito interessantes.

Qual passado?

O modernismo brasileiro foi um movimento muito forte, com personagens maravilhosos como Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, que viveram por muito tempo. E essa permanência não favoreceu a uma mudança de pensamento arquitetônico no Brasil. Isso aconteceu só recentemente.

Ainda hoje, vejo projetos novos com referências a prédios e casas feitos há 50, 70 anos. Tivemos enormes transformações no mundo neste período, do tamanho dos carros ao jeito de se deslocar das pessoas, da internet à inteligência artificial. É estranho ver projetos assim hoje, porque o jeito de viver daquela época não é mais o mesmo. Brasília, por exemplo, é um dos mercados onde mais atuamos, e o modernismo foi muito forte lá. Mas encontramos novos empresários e famílias donas de grandes terrenos que estão determinados a dar um passo adiante.

WTC Biotic, na capital federal: planejamento urbano e uma superquadra de uso misto com praça central, edifícios modulares e cobertura verde para mitigar o impacto do clima local

Architects Office/Divulgação

O escritório tem feito também projetos de "masterplan". O que te atrai em trabalhos assim?

Temos trabalhado com dois tipos de "masterplan": um mais urbano, criando novos bairros; e outro para desenvolver e valorizar destinos. Quando cheguei aqui no Brasil, há 27 anos, me deparei com uma velocidade de desenvolvimento urbano totalmente diferente. A lentidão europeia por questão da sedimentação histórica dos prédios contrasta com a aceleração do que acontece nas cidades brasileiras, como São Paulo. E quem faz isso é o mercado privado — e não estou julgando se isso é certo ou não.

O que me atrai é tentar mostrar que é possível melhorar as coisas e ganhar dinheiro também. Além de Brasília, temos projetos assim no Ceará e na Bahia. Por sorte, encontramos uma nova geração de lideranças nas incorporadoras que está interessada em deixar um legado nas cidades, com propósito mais coerente, sem deixar de ter lucro.

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