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Caiado vai às urnas sem se consolidar como ‘terceira via’

Ronaldo Caiado tem evitado antecipar quem irá apoiar em um eventual segundo turno das eleições

Valor Econômico6 min read
Caiado vai às urnas sem se consolidar como ‘terceira via’

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Divulgação

Aposta do PSD para “furar” a polarização entre o petismo e o bolsonarismo nas eleições presidenciais, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado chega ao primeiro turno como mais um nome no pelotão de candidatos nanicos na disputa. Apesar da estrutura partidária e de um currículo respeitável na política, ele não conseguiu sequer se consolidar como uma “terceira via” e pode apresentar um resultado ainda mais amargo nas urnas, a depender do sucesso da campanha de voto útil.

Apesar da performance abaixo do esperado, Caiado tem evitado antecipar quem irá apoiar em um eventual segundo turno. O posicionamento à direita do espectro ideológico sugere que ele esteja no palanque de Flávio Bolsonaro (PL), embora nas últimas semanas ele tenha intensificado as críticas ao senador, que é investigado pela Polícia Federal (PF) por suspeita de corrupção e envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

A candidatura de Caiado começou a tomar forma em janeiro, quando ele deixou o União Brasil, partido no qual já não encontrava espaço para seu projeto presidencial, e se filiou ao PSD. A mudança, porém, não lhe garantiu imediatamente a cabeça de chapa. Ele entrou em uma disputa interna com os governadores Ratinho Junior (PR) e Eduardo Leite (RS). Em março, Ratinho desistiu e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, acabou optando pelo goiano, contrariando Leite, que chegou a criticar a escolha antes de se retratar.

Resolvida a candidatura, veio a dificuldade para ampliar a chapa. Caiado buscou alianças fora do PSD e chegou a negociar uma composição com Romeu Zema (Novo). Sem conseguir sucesso, acabou recorrendo a Kassab para a vaga de vice.

A capilaridade da legenda tampouco se converteu automaticamente em palanques para Caiado. Kassab liberou os diretórios estaduais para fazer alianças de acordo com as conveniências locais. Raquel Lyra, em Pernambuco, e Eduardo Paes, no Rio, dois dos candidatos mais competitivos do PSD, mantiveram distância do presidenciável. Em Minas, o governador Mateus Simões ficou com Zema.

A dificuldade é reconhecida por um dos principais nomes do PSD na Câmara. O deputado Otoni de Paula (RJ) entrou na última semana dizendo estar “com muita vontade” de votar em Lula já no primeiro turno. “Ele não conseguiu vencer a polarização, seu histórico não foi suficiente. E ainda há uma tendência de sofrer mais uma desidratação com essa campanha do voto útil”, apontou o aliado que considera “muito difícil” Caiado pedir votos para Flávio no segundo turno.

Ele não conseguiu vencer a polarização, seu histórico não foi suficiente”

Sem espaço nos principais palanques estaduais, Caiado limitou geograficamente a campanha. Desde o início oficial da disputa, em 15 de agosto, esteve em apenas quatro Estados - São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul -, além do Distrito Federal. Mesmo ampliando o recorte para abril, quando deixou o governo de Goiás, foram 15 Estados visitados. São Paulo e sua base eleitoral em Goiás concentraram boa parte das agendas.

Na tentativa de avançar nas pesquisas, Caiado apostou sobretudo na vitrine de sua gestão em Goiás e fez da segurança pública a principal bandeira. Propôs classificar facções e milícias como organizações de “terrorismo doméstico”, criar o Ministério da Segurança Pública e montar uma força policial sul-americana, a SulPol, inspirada na Europol. A proposta produziu um tropeço quando afirmou que a Europol realizava prisões - a agência europeia não tem esse poder - e, confrontado, disse que proporia aos vizinhos que a instituição tivesse essa atribuição.

Na economia, o discurso também encontrou dificuldades. Caiado prometeu um ajuste fiscal duro, combate a privilégios, corte de despesas, reforma administrativa e revisão de emendas parlamentares, mas resistiu a assumir medidas impopulares sobre aposentadorias e salário mínimo. Seu programa chegou a prever uma proposta de emenda à Constituição (PEC) de emergência fiscal, e o coordenador Roberto Brant falou em suspender temporariamente reajustes automáticos de aposentadorias e pensões, preservando o ganho real do salário mínimo. Ao longo da campanha, Caiado passou a enfatizar que o controle fiscal começaria por cortes nas emendas parlamentares e nos supersalários.

Para dar peso à campanha, antecipou nomes de um eventual governo. Citou Arminio Fraga como referência para a economia, Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), para Relações Exteriores, e a cardiologista Ludhmila Hajjar para a Saúde. Também anunciou que convidaria o promotor Lincoln Gakiya, conhecido pelo combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC), para a pasta da Segurança Pública.

Em meio à crise que atingiu o Supremo Tribunal Federal (STF), Caiado prometeu preencher com mulheres as quatro vagas que, segundo suas projeções, surgiriam na Corte durante um eventual mandato. Um dos nomes citados foi o da ex-procuradora-geral da República Raquel Dodge.

A relação com Flávio Bolsonaro foi um dos pontos de maior oscilação da estratégia. Caiado começou a campanha tentando ocupar o espaço de uma direita não bolsonarista, mas alternou momentos de cautela com ataques mais incisivos ao senador. Chegou a dizer que Lula e Flávio eram “farinha do mesmo saco”.

A mudança chegou à comunicação: um dia depois do início oficial da campanha, Paulo Vasconcelos deixou o marketing e foi substituído por Marcos Carvalho. Oficialmente, a justificativa foi unificar as estruturas de comunicação; nos bastidores, a divergência era atribuída também à estratégia para enfrentar Flávio Bolsonaro, já que Vasconcelos defendia menor confronto com o presidenciável do PL.

Nas últimas semanas, com o caso Master atingindo novamente Flávio, Caiado voltou a endurecer. Acusou o adversário de manter uma relação de “cumplicidade” com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e insistiu na tese de que sua baixa rejeição e seu histórico administrativo fariam dele uma alternativa mais competitiva contra Lula. A aposta não tem se traduzido em intenção de voto.

Questionado pelo Valor sobre o balanço da candidatura, Caiado rejeitou antecipar qualquer posicionamento para o segundo turno e afirmou que a eleição está aberta. Ao defender a campanha, no entanto, direcionou críticas apenas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT, e ignorou Flávio.

Segundo ele, sua campanha apresentou propostas para problemas “agravados pelos erros do governo Lula”. Caiado justificou a concentração recente de agendas em Goiás como parte da estratégia para chegar à segunda rodada da disputa nacional. Mas, no Estado, além de manter o seu grupo no governo, ele tenta eleger a mulher, Gracinha, ao Senado. “O objetivo é um só: consolidar nossa arrancada rumo ao segundo turno e fazer o que é preciso para que o Brasil se recupere: tirar o PT do poder”, disse o candidato do PSD.

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