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Desaceleração vai dificultar recuo da inadimplência

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Valor Econômico5 min read
Desaceleração vai dificultar recuo da inadimplência

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O endividamento das empresas bateu o recorde do século, e a de seus consumidores atingiu o maior nível desde que as séries históricas sobre o assunto começaram a ser feitas. Apesar dos programas de renegociação de dívidas — os já acelerados para serem anunciados em época de eleições e os que virão —, a perspectiva de curto prazo não é boa. A economia está em desaceleração, empurrada a tal situação por uma carga de juros muito forte, a mesma que tem colocado as dívidas financeiras de companhias e pessoas físicas distantes da capacidade de pagamento. Em modo eleitoral, o governo Lula vai comprar R$ 150 bilhões em dívidas de longo prazo dos consumidores e criou programas para aliviar débitos inadimplentes de MEIs e empresas com faturamento de até R$ 48 milhões. Os programas passados, como o Desenrola e o Desenrola 2.0, mal terminados, não evitaram o aumento dos atrasos nos pagamentos. A diminuição do nível de atividades deve dificultar esse objetivo. Não há saída fora da queda dos juros, o que implica que o maior credor, a União, tem de conter seus gastos para que os juros caiam para toda a economia.

O endividamento das mil maiores empresas do país atingiu 72,2% do patrimônio líquido, um nível superior ao registrado em 2015, no auge da mais longa recessão do período republicano (anuário Valor 1000). Parte das dificuldades enfrentadas pelas empresas tem origem na expansão do crédito em 2020, quando a taxa básica de juros (Selic) caiu a 2% ao ano. No entanto, com o aumento da inflação, os juros voltaram a subir, chegando a 15% em 2025. O custo de capital de giro e o de empréstimos para investimentos subiram muito, enquanto a inflação se desgarrou da meta. A taxa média do crédito livre para empresas em agosto foi de 24,2% ao ano, mesmo após vários cortes de juros. Para as pessoas físicas, foi de 61,7%.

A aceleração dos pedidos de recuperação judicial dimensiona o problema. O levantamento mais recente do Monitor RGF-BizDoc, parceria entre a Consultoria RGF e a plataforma BizDoc, informa que no primeiro semestre foram registrados 370 novos pedidos de recuperação judicial, 6,2% a mais do que no mesmo período de 2025. Em 2025, o quadro já tinha sido preocupante, com o crescimento de 7,3% dos pedidos no primeiro semestre e de 14,1% no segundo, sempre comparados ao mesmo período do ano anterior.

Nesse ritmo, o estoque de empresas em recuperação judicial foi recorde da série histórica, 6.341 empresas. Desse total, 1.028 são empresas grandes ou muito grandes que reúnem valores expressivos, como a Braskem, com R$ 56,5 bilhões em dívidas, e a Casas Bahias, com R$ 17,3 bilhões. Há ainda gigantes como a Raízen, com R$ 65 bilhões em dívidas, e o GPA, com R$ 4,6 bilhões, que buscaram a recuperação extrajudicial, teoricamente por ser mais rápida, mais barata e menos estigmatizada.

No entanto, nenhum caminho é mais fácil. Das empresas que pediram recuperação judicial desde 2013, apenas 17,5% concluíram o processo, de acordo com levantamento da RGF Consultoria feito a pedido do Valor (11/09). Outros 10,7% pediram falência ou fecharam. A imensa maioria, ou 71,8%, continua em recuperação judicial. Mais da metade delas entrou em recuperação judicial depois de 2023.

Segundo a Serasa Experien, havia 9,2 milhões de CNPJs de empresas inadimplentes em julho, novo pico da série histórica; e o estoque de dívidas em atraso chegou a R$ 238,6 bilhões. Segundo o Banco Central, a inadimplência das pessoas jurídicas em agosto foi de 3,3% do total de R$ 2,7 trilhões da carteira de crédito, acima dos 2,8% do mesmo mês de 2025. Já nos empréstimos em recursos livres, atingia 4,3% da carteira de R$ 1,57 trilhão, superando os 3,8% de um ano antes.

Um número crescente de empresas buscou recursos também no mercado de capitais nos últimos anos. Somente nos 12 meses encerrados em junho de 2026 foram levantados R$ 555 bilhões (Valor, 22/9). Mas o calendário de pagamento dos papéis emitidos até agora é apertado. O total de vencimentos previstos de setembro até 2030 soma R$ 1,48 trilhão, entre juros e amortizações, segundo cálculos da Prisma Capital, o que vai ser um bom teste para a vitalidade do mercado de capitais.

A situação é preocupante diante da perspectiva de desaceleração da economia. Instituições financeiras já reviram previsões. O Itaú reduziu a previsão para o PIB deste ano de 1,9% para 1,7%, e o de 2027, de 1,5% para 1,2%. O Santander manteve a estimativa de 1,8% neste ano e de 1,7% no próximo. Mas ambas instituições notam a desaceleração do crédito e das emissões de dívida.

O cenário demanda cautela redobrada de empresas e credores. A combinação de dívidas elevadas, custo ainda alto do dinheiro, desaceleração e maior dificuldade para acessar fontes de financiamento pode prolongar a agonia de companhias já fragilizadas e transformar problemas de liquidez em insolvência. A extensão dos programas de renegociação do governo, que já atingem amplos setores da economia, serão reivindicados pelas empresas urbanas e rurais. Sua concessão aumenta o problema que quer reduzir: o maior credor do país aumenta suas dívidas e paga taxas exorbitantes de juros, que são o piso das cobradas de todos os setores da economia.

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