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Compras em massa de livros pela Anthropic no Japão geram reação negativa de editoras

Editoras japonesas estão criticando as compras de livros em grande quantidade realizadas pela Anthropic junto a uma distribuidora.

Valor Econômico4 min read
Compras em massa de livros pela Anthropic no Japão geram reação negativa de editoras

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Embora tais transações sejam provavelmente legais, elas reacenderam o debate sobre como proteger os direitos dos autores quando suas obras são utilizadas para treinar inteligência artificial (IA).

Entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, a Nippan Group Holdings vendeu grandes quantidades de livros — provenientes de editoras integrantes da Associação de Editores de Livros do Japão — para a desenvolvedora americana de IA.

O fato veio à tona no início de setembro, quando se soube que documentos judiciais dos Estados Unidos, referentes a uma ação judicial por violação de direitos autorais movida por autores contra a Anthropic, mencionavam um acordo de vendas com a Nippan.

Em meados de setembro, a associação enviou uma carta à Nippan solicitando esclarecimentos sobre as transações e os termos do acordo. A distribuidora respondeu na segunda-feira, confirmando as vendas, mas alegando desconhecer se os textos serão utilizados para o treinamento de IA.

Tanto a Nippan quanto a Anthropic recusaram-se a comentar transações específicas.

A Anthropic afirmou que a compra de livros físicos para treinar grandes modelos de linguagem é uma prática comum na indústria de IA e que nenhum dos programas de aquisição de dados da empresa envolve a compra e destruição de livros raros.

A empresa também negou que grandes volumes de textos sejam destruídos após o treinamento, conforme alegado por alguns críticos.

A Nippan declarou que suas transações estavam em conformidade com a lei.

Uma situação semelhante surgiu no Japão envolvendo livros usados. A Associação de Livros Usados de Tóquio, que conta com cerca de 500 empresas associadas, informou ter recebido consultas em julho sobre pedidos em grande escala, supostamente provenientes de vendedores americanos de livros usados. Entre julho e setembro, algumas lojas aceitaram encomendas de centenas ou milhares de volumes.

O rápido fluxo de pedidos sobrecarregou as lojas, que tiveram de correr para enviar os livros e atualizar seus estoques. Um estabelecimento que recebeu um pedido de 2 mil itens fechou temporariamente e contratou mais funcionários para realizar o envio ao longo de vários dias.

As compras abrangeram diversos gêneros das áreas de humanidades e ciências sociais, mas não incluíram praticamente nenhum mangá ou texto relacionado a animes — e não houve qualquer duplicidade de títulos. Os endereços de entrega estavam associados a empresas na província de Okayama, no oeste do Japão. A associação de livreiros de livros usados também recebeu uma solicitação de um parceiro interessado em compras em grande volume. O solicitante informou que não haveria limite máximo de quantidade — podendo chegar a centenas de milhares de livros — e não estabeleceu restrições quanto a gênero ou conteúdo.

"Pareceu bem diferente das compras habituais]que já vimos antes", disse um representante. A organização não sabe se os livros seriam utilizados como dados para treinamento de IA.

O uso de livros físicos para treinamento de IA "é legal segundo a legislação japonesa de direitos autorais", afirmou Tatsuhiro Ueno, professor de direito da Universidade Waseda especializado em propriedade intelectual.

Se o treinamento for realizado por uma empresa americana nos Estados Unidos, aplica-se a legislação americana. Ainda assim, "desde que o conteúdo dos livros em si não seja reproduzido, é provável que também seja legal nos Estados Unidos, com base em precedentes recentes", disse Ueno.

Em uma ação coletiva nos Estados Unidos, constatou-se que a Anthropic havia baixado cerca de 7 milhões de livros pirateados para uso como dados de treinamento. A Anthropic concordou em pagar um acordo de valor elevado.

Mesmo que as vendas da Nippan fossem legais, as editoras — que estão entre os principais acionistas da distribuidora — ficaram insatisfeitas com a forma como a questão foi conduzida.

"O fato de não terem conversado com as editoras com as quais mantêm negócios há anos antes de realizar as vendas demonstrou má-fé", declarou uma grande editora.

Enquanto isso, pesquisadores universitários manifestaram preocupação de que não conseguirão mais comprar livros valiosos caso estes desapareçam do mercado.

Livros antigos ainda não digitalizados são vistos como um recurso de treinamento importante na indústria de IA, onde muitos acreditam que os dados utilizáveis na internet estão começando a se esgotar.

A Anthropic considera as informações em idiomas locais cruciais para adaptar seus modelos de IA a novos mercados. Acredita-se que a empresa esteja utilizando uma ampla gama de dados em japonês, incluindo livros usados, para desenvolver uma IA fluente no idioma e com vasto conhecimento em áreas como cultura e direito. "Espera-se que isso leve a avanços na cooperação para criar estruturas construtivas, inclusive para devolver mais valor aos autores", disse Atsushi Okada, advogado com experiência em normas de IA, sobre os casos recentes.

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