Cada brasileiro desperdiça 90 kg de alimentos por ano
Todo ano, cada brasileiro desperdiça em média mais de 90 quilos de alimentos em casa.

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Somados os descartes no varejo e nos serviços de alimentação, como restaurantes e padarias, o volume chega a 145 quilos por pessoa, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em cálculo feito com base em dados de 2022. No mundo, quase 20% dos alimentos vai parar no lixo - desperdício equivalente a 1 bilhão de refeições anuais. Se somadas as perdas anteriores à chegada dos produtos ao varejo, o total soma US$ 1 trilhão (ver quadro). A conta também chega ao meio ambiente. No trajeto entre a colheita e o prato, os descartes respondem por algo entre 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).
Para identificar as causas das perdas e desperdícios ao longo da cadeia produtiva, a engenheira agrônoma Milza Moreira Lana, pesquisadora da Embrapa, vem acompanhando o percurso de hortaliças da lavoura à mesa - ou ao lixo. O problema pode começar no campo, com o descarte de produtos fora dos padrões de tamanho ou de formato exigidos pelo mercado. Na colheita, o sol forte ou o acúmulo de legumes em baldes podem prejudicar a casca - danos que podem só se tornar mais visíveis mais tarde. O estrago pode se agravar no trajeto até o varejo, no caso de veículos abertos ou sem refrigeração, estradas mal conservadas e trocas de caixas. No supermercado, pilhas muito altas para exposição podem esmagar os produtos que ficam embaixo.
Má gestão de estoques e compras exageradas no varejo também pesam, sobretudo no caso de vendas consignadas. “Muitas vezes, o varejista não se importa muito com as perdas, já que pode repassar o prejuízo ao fornecedor”, diz ela. “Já vi produtores perderem mais de 50% da mercadoria por conta de devoluções”. Por isso, argumenta, a solução passa pela organização de toda a cadeia produtiva. “É necessário um acordo entre o mercado e o supermercado, entre o produtor, o fornecedor e o comércio varejista.”
Mas é nos domicílios e nos serviços de alimentação que se concentram os desperdícios. “Nos restaurantes, o problema começa com falta de controle do giro do estoque, que pode levar à perda por vencimento”, diz Marcelo Marani, fundador da Donos de Restaurantes, que forma empresários do setor. Jogam contra falhas no armazenamento, falta da padronização de receitas e produção sem cálculo do movimento esperado para cada dia.
Já em casa, compras mal planejadas, a dificuldade de encontrar embalagens menores e fatores culturais, como a valorização da fartura à mesa, também contribuem para o desperdício, afirma Beatriz Martins Carneiro, representante interina do Pnuma no Brasil. Segundo ela, o problema é parecido tanto em países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento, Também varia pouco entre a classe média baixa e classe média alta. “Em comum, as pessoas não consideram desperdício jogar fora partes de vegetais com aparência ruim, folhas mais murchas ou as pontas do pão”, exemplifica.
Para evitar o descarte de produtos próximos do vencimento, ela defende parcerias entre supermercados, governos, prefeituras, varejistas e bancos de alimentos para dar destino aos itens antes que se tornem impróprios para consumo. Um exemplo de iniciativa é o Sesc Mesa Brasil, programa que recolhe alimentos de mais de 3 mil estabelecimentos, entre feiras, supermercados, atacadistas, indústrias e cooperativas agrícolas, e os redistribui a 7,9 mil instituições assistenciais.
“A gente faz o resgate desses alimentos que seriam descartados por excedente de produção ou por perda do valor comercial, mas que estão totalmente próprios para consumo”, afirma Mariana Ruocco, gerente de alimentação e segurança alimentar do Sesc São Paulo. Em 2025, a iniciativa distribuiu 57,6 mil toneladas de alimentos e outros itens em 1.011 municípios do país.
A recolocação de alimentos também pode gerar negócios. É o caso da Gooxxy, startup que conecta cerca de 200 indústrias a mais de 7 mil varejistas, distribuidores e cozinhas industriais para comercializar produtos próximos do vencimento, descontinuados ou fora do padrão estético. Com o uso de inteligência artificial, a plataforma identifica compradores para esses lotes, negociados com descontos de até 80% em relação ao preço de venda ao consumidor. Segundo a empresa, no ano passado foram colocados cerca de R$ 1 bilhão em produtos - 75% entre alimentos e bebidas não alcoólicas.
O fundador da Gooxxy, Vinicius Alves, diz que a ideia surgiu em 2016, em visita a uma fábrica de panetones. Na entrada, três crianças pediam dinheiro para comida. Lá dentro, o diretor lhe disse que 14 mil panetones seriam descartados por não atenderem ao padrão estético. “Então pensei num negócio para fazer esses produtos chegarem aos consumidores por preços menores.”
Story published by Valor Econômico. Newra News collects and organizes it; the text and the reporting are the outlet's.
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