‘Conselho da Paz dos EUA não está funcionando em Gaza’, diz Mary Robinson
Mary Robinson: ‘A abordagem do Conselho da Paz precisa ser substituída por um conselho de segurança mais eficaz’

Excerpt
Rogerio Vieira/Valor
Primeira mulher a presidir a Irlanda e ex-alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Mary Robinson acompanha há décadas as principais crises internacionais. Diante de um mundo em conflito em múltiplas frentes, ela alerta para o abandono da Faixa de Gaza e avalia que o Conselho da Paz, criado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para liderar a reconstrução do enclave, “não funcionou de jeito nenhum”.
“Eu não achava que funcionaria desde o início, porque ele foi estruturado de uma maneira que dava ao presidente Trump poder total. E agora ele está distraído com outras coisas”, diz Robinson, em entrevista exclusiva ao Valor , durante visita a São Paulo para participar do Global Agribusiness Forum (GAFFFF).
Aos 82 anos, a ex-presidente da Irlanda (1990-1997) segue dedicada à defesa dos direitos humanos, da justiça climática e da igualdade de gênero em diferentes frentes. Com o The Elders, grupo de líderes globais fundado por Nelson Mandela, ela visitou a Cisjordânia em julho ao lado da ex-primeira-ministra da Nova Zelândia Helen Clark, e conta ter encontrado uma situação muito pior do que na visita anterior, em 2023.
“A situação em Gaza também é muito pior”, diz Robinson. “As pessoas estão amontoadas em um espaço cada vez menor. Pessoas estão sendo mortas todos os dias. É inaceitável o que está acontecendo”.
Deveríamos ter liderança, mas estamos divididos, e o mundo está em uma situação triste”
Na entrevista, ela avalia que o mundo vive “o período mais difícil” de sua vida, em meio a diferentes conflitos e uma crise de liderança global. Reconhecida internacionalmente pela atuação na agenda climática, Robinson também alerta para um cenário desafiador pela frente, com a chegada de um "super El Niño" a um planeta já aquecido.
“Estamos todos divididos, e o mundo está em uma situação triste”, diz. “Mas não estou sem esperança. Sou uma prisioneira da esperança.”
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: Os ataques de 7 de outubro completam três anos. Apesar do cessar-fogo de quase um ano na Faixa de Gaza, os combates continuam. A senhora vê um caminho para paz nesse conflito?
Mary Robinson: Infelizmente, a iniciativa do Conselho da Paz não funcionou de jeito nenhum. E eu não achava que funcionaria desde o início, porque ela foi estruturada de uma maneira que dava ao presidente Trump poder total. E agora ele está distraído com outras coisas. Então, infelizmente, há uma negligência em relação a toda a situação, o que é realmente terrível.
Valor: O Conselho da Paz deveria ser substituído?
Robinson: Acho que precisamos reavaliar a situação e perceber que a abordagem do Conselho da Paz não está funcionando. E ela precisa ser substituída por um conselho de segurança mais eficaz e adequado, como a iniciativa franco-saudita do passado, que era baseada em uma solução de dois Estados, que tinha a Declaração de Nova York e trabalhava para colocar uma força no local para manter a paz. Existe um grande desafio sobre o desarmamento do Hamas. Na Irlanda do Norte, aprendemos sobre o desarmamento do IRA. O desarmamento é um processo longo, de dar e receber. Você consegue o desarmamento porque cede um pouco, você dá alguma coisa e, então, consegue o desarmamento. Não é uma questão de o Hamas ter que se desarmar antes que Israel se retire sequer um centímetro. Isso não funciona. E Israel sabe que isso não vai funcionar. Eles não querem que funcione, infelizmente.
Valor: A senhora vê alguma possibilidade de o Conselho da Paz e o governo israelense aceitarem uma solução de dois Estados?
Robinson: Neste momento, Israel, sob o atual governo, não aceita. Mas há pessoas - os Elders sabem disso -, israelenses e palestinos trabalhando juntos em algo chamado “Land for All”, que seria uma maneira de ter uma solução de dois Estados com uma espécie de confederação, na qual os colonos na Palestina se tornariam residentes de um Estado palestino e cidadãos de Israel. E aqueles que voltassem para Israel como refugiados, ex-refugiados, seriam residentes de Israel e cidadãos de um Estado palestino. Isso poderia funcionar. E acho que provavelmente esse é o único futuro possível, porque tanta terra foi tomada que já não é possível fazer uma divisão territorial. Achávamos que isso seria possível alguns anos atrás. Isso acabou. Os Elders querem a paz. Querem que os israelenses vivam em paz na região, como deveriam, e tenham paz com seus vizinhos.
Valor: Em julho, a senhora esteve na Cisjordânia com os Elders. O que mais a impressionou?
Robinson: Os Elders estão muito preocupados com o que está acontecendo tanto em Gaza quanto na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Fui lá dois ou três anos atrás com Ban Ki-moon, que era meu vice na época em que eu presidia os Elders. Ficamos chocados naquela ocasião. Voltei em julho passado com Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia. Fiquei ainda mais chocada com o quanto a situação havia piorado, mesmo desde a última vez em que estive lá. A ocupação está simplesmente muito visível. Fomos a uma aldeia. Ela estava cercada por postos avançados, por militares e comportamentos agressivos de colonos. Os moradores estavam aterrorizados. Eles não conseguiam colher suas azeitonas. As mulheres não saíam sozinhas. Tinham que sair juntas em um ônibus. Não podiam mais sair como faziam antes, individualmente. E nos encontramos novamente com a ministra das Relações Exteriores da Palestina, em Ramallah. E ela nos disse: como se administra um país sem impostos? Israel reteve os impostos desde 7 de outubro. Eles não conseguem pagar seus funcionários públicos. Então é uma situação realmente muito ruim. E a situação em Gaza é muito pior. As pessoas estão amontoadas em um espaço cada vez menor. Pessoas estão sendo mortas todos os dias. É inaceitável o que está acontecendo.
Valor: Para além da situação entre Gaza e Israel, estamos diante de múltiplas crises, com guerras na Ucrânia, no Irã, além de outras tensões ao redor do mundo. Como a senhora avalia o momento atual?
Robinson: É um momento muito difícil, para ser sincera. Acho que vivi uma vida longa, e este é o período mais difícil. É o período mais difícil porque temos tantas crises. Temos as guerras que não deveríamos ter, guerras envolvendo membros permanentes do Conselho de Segurança, os chamados P5: a Rússia invadindo a Ucrânia, os EUA e Israel atacando ilegalmente o Irã. Essas guerras estão causando muitos problemas. Também temos a crise climática e da natureza. Temos a pandemia. Desde a covid, não encontramos uma maneira de lidar com uma futura pandemia. Temos o problema nuclear e agora temos a inteligência artificial. Então, todas essas coisas estão desestabilizando o nosso mundo. E existem também as guerras esquecidas no Sudão, na República Democrática do Congo, em Mianmar, às quais precisamos prestar mais atenção.
Queremos que os israelenses vivam em paz na região e que tenham paz com seus vizinhos”
Valor: Olhando para a guerra no Irã, você vê um caminho para que os países encontrem um meio-termo nas negociações de paz?
Robinson: Acho realmente importante que tenhamos uma resolução pacífica de uma guerra que não deveria ter acontecido, uma guerra contrária à Carta da ONU. É uma guerra ilegal promovida pelos EUA e por Israel contra o Irã. Temos que continuar repetindo isso porque é importante. O Estado de direito é muito importante. E estamos vendo violações muito graves dele. Mas o Estado de direito precisa ser respeitado.
Valor: O que mais preocupa a senhora nesse cenário de crises?
Robinson:Para mim, a que precisa de atenção realmente séria é a crise climática e da natureza, porque a natureza está nos dizendo que estamos em uma zona de perigo real. Precisamos sair dos combustíveis fósseis e migrar para a energia limpa. Portanto, temos muitos, muitos problemas. Mas, felizmente, os países ainda estão tentando lidar com eles. E estou ciente de que, nos próximos meses, teremos um super El Niño. Eu tinha um mandato da ONU antes do Acordo de Paris, como representante especial do secretário-geral da ONU. Eu nunca tinha ouvido falar em El Niño. E então, em 2016, voltaram a falar comigo e disseram: temos uma crise neste ano, o El Niño. E 2016 foi um ano muito ruim. Foi o ano mais quente por vários anos. Depois, 2023 se tornou o ano mais quente, com um El Niño. Agora temos um super El Niño sobre um mundo que já está quente. Será muito ruim. Muitas pessoas serão empurradas para a fome, para a insegurança alimentar, por causa do que está acontecendo. Deveríamos estar lidando com isso com liderança. Em vez disso, estamos todos divididos, e o mundo está em uma situação triste. Mas não estou sem esperança. Sou uma prisioneira da esperança.
Valor: Como a senhora avalia a resposta da comunidade internacional a essas crises?
Robinson: Acho que os EUA estão passando por um período muito ruim de liderança, que está chocando o mundo pela forma como está sendo ruim em todos os níveis, incluindo o enriquecimento pessoal que está acontecendo, a corrupção que está acontecendo. Mas isso vai passar. Veja o meu país, a Irlanda. Éramos um país muito fechado, dominado pelo catolicismo, até poucos anos atrás. Agora somos um país muito aberto e pluralista. Tivemos uma verdadeira mudança. Isso vai acontecer novamente nos EUA. Mas, neste momento, perderam a liderança no mundo. São vistos como não oferecendo o tipo de liderança de que o mundo precisa.
Valor: A escolha do próximo secretário-geral da ONU acontece em meio a esse cenário turbulento para cooperação internacional. O que a senhora espera da disputa?
Robinson: Certamente espero que seja uma mulher, que tenhamos uma boa secretária-geral. Porque, se for uma mulher, acho que existem tantas redes de mulheres ao redor do mundo que elas vão se mobilizar. E isso seria bastante significativo para reforçar o papel da ONU. Sobre esse momento que a organização vive, foi interessante notar que houve muita discussão em Nova York sobre a crise da inteligência artificial. Os líderes de tecnologia estiveram no Conselho de Segurança. Isso foi muito bom para a ONU. Mas o Conselho de Segurança também assume sua responsabilidade. E, no fim de semana antes de nos encontrarmos em Nova York para a Assembleia Geral anual da ONU, os líderes da Noruega e da Finlândia escreveram uma carta e fizeram um chamado à ação. E 22 países aderiram. Isso é o que agora chamamos de liderança das potências médias. O Brasil está exercendo uma boa liderança. E espero que continue exercendo esse tipo de boa liderança. Precisamos disso.
Valor: Em novembro, a COP31 acontece na Turquia. Em um cenário global tão conturbado, a senhora vê disposição dos governos para avançar na agenda climática?
Robinson: Sim, porque houve uma conferência muito boa convocada pelo secretário-geral em Nova York, durante a semana da Assembleia Geral, especificamente sobre transição justa. Muito importante. Muitos países participaram e estão aderindo ao roteiro. Eu estive em Belém para a conferência em novembro do ano passado. Muito quente e muito úmido para uma irlandesa. Mas fiquei feliz que o presidente Lula tenha destacado, primeiro, a importância de sair dos combustíveis fósseis e, depois, que o Brasil, como presidência, tenha decidido que precisávamos desses dois roteiros para sair dos combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento. E estive em Santa Marta, em abril passado. Foi uma conferência muito interessante na Colômbia, porque todos os delegados estavam dizendo, os mesmos delegados que vão às COPs, que é muito diferente tentar resolver os problemas juntos, tentando descobrir o que é uma transição justa para diferentes países. Isso continuou em Nova York. E vou à COP31, na Turquia. Acho que precisamos avançar. Observo que nenhum país seguiu os EUA ao se retirar da conferência. Ainda estamos focados. Não estamos avançando rápido o suficiente, mas estamos avançando.
Valor: No que precisamos avançar desta vez e que não foi alcançado em Belém?
Robinson: Existe uma iniciativa que foi muito discutida em Nova York, a eletrificação global: meta que prevê que a eletricidade responda por 35% da demanda mundial de energia até 2035. Essa é uma iniciativa turca. Infelizmente, não está ligada à abordagem dos roteiros, que foi muito positiva por parte do Brasil, para sair dos combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento. Eles precisam estar conectados. Precisamos de uma eletrificação limpa, não apenas de qualquer eletrificação. Precisamos seguir na direção certa, rapidamente.
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