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Brasil vai às urnas para a disputa mais acirrada da história do país

Os 158,7 milhões de eleitores do Brasil chegam às urnas com a campanha presidencial em primeiro turno mais acirrada da história do país em um sentido amplo, considerando todas as 13 eleições disputadas pelo sufrágio universal direto e secreto, desde a primeira, em 1945.

Valor Econômico7 min read
Brasil vai às urnas para a disputa mais acirrada da história do país

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De acordo com a pesquisa divulgada pelo Datafolha na quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 42% das intenções de voto, ante 38% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o que significa um empate no limite da margem de erro. Os demais concorrentes somam 13%. Há uma migração para os dois primeiros inflada pela campanha do voto útil, sobretudo por parte do bolsonarismo, mas no momento insuficiente para encaminhar a disputa para uma definição já no primeiro turno.

Já houve incertezas relevantes no processo das sucessões brasileiras. Nas de 1950 e 1955, a posse dos vencedores, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, foi motivo de debate. Nas de 1989, 2002 e 2014, a definição do segundo turno era motivo de suspense. Fernando Collor, Lula e Dilma Rousseff, respectivamente, eram líderes isolados, mas havia dúvida sobre quem seria o oponente na rodada decisiva. Nas de 1994,1998, 2006 e 2022, a dúvida era se haveria ou não segundo turno. Não houve nos dois primeiros casos e houve nos dois últimos. Empate em relação a quem está em primeiro lugar é a primeira vez.

O acirramento da disputa não significa uma eleição de reviravoltas. Desde que Flávio Bolsonaro se consolidou como a opção do bolsonarismo, entre janeiro e março, há um quadro de estabilidade entre os concorrentes. As curvas oscilaram, mas o ponto de partida é virtualmente igual ao de chegada. Em abril, o Datafolha apontava 39% para Lula, 35% para Flávio e 11% para os demais.

Lula ficou travado por uma avaliação de governo anêmica - segundo o Datafolha, a soma das avaliações boa e ótima não passaram de 35%, ante 41% de conceitos ruim e péssimo -, o que lhe conferiu um desempenho muito inferior ao que tinha às vésperas do primeiro turno da eleição de 2022. Ele mantém, contudo, suas fortalezas. O presidente tende a vencer com folga em todos os estados do Nordeste, com cerca do dobro de intenção de voto em Flávio, exceto em Alagoas, terra do vice do candidato do PL, o deputado Alfredo Gaspar, onde o quadro é um pouco mais disputado.

Na reta final da disputa, Lula fez sinais para sua base tradicional, como o reajuste de 15% no benefício do Bolsa Família, com grande contingente de beneficiados na região. A vantagem que o presidente consegue na região Nordeste compensa com folga a dianteira inequívoca que Flávio conta nos estados com base no agronegócio: região Sul, Centro-Oeste e no cordão ocidental da região Norte (Acre, Rondônia e Roraima).

Na região Sul, Flávio conta com estrutura partidária. O PL lidera a corrida para o governo estadual no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Também está em primeiro em Rondônia e em Roraima. A força do voto evangélico contrabalançou a favor de Flávio o peso regional do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado no seu reduto e nos vizinhos Distrito Federal e Tocantins.

Assim como foi na eleição presidencial de 2022, a região Sudeste é o palco da maior disputa. Os últimos levantamentos feitos pela Quaest mostram uma vantagem de apenas seis pontos percentuais de Flávio Bolsonaro em São Paulo e de sete no Rio de Janeiro, além de uma dianteira de apenas quatro pontos percentuais em Minas Gerais. Em relação ao que aconteceu há quatro anos, essa fotografia mostra Flávio mais fraco do que o pai no Rio, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro saiu das urnas com dez pontos de vantagem em relação a Lula. Nos casos mineiro e paulista, os cenários mostrados pelas pesquisas são muito similares aos do resultado final.

A fragilização do bolsonarismo no Rio de Janeiro, ainda a ser confirmada pelas urnas, está ligada à crise política no Estado. O ex-governador Cláudio Castro foi tornado inelegível logo depois de se desincompatibilizar, em março, e o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, que lhe sucederia, foi preso por envolvimento com o crime organizado. O PL perdeu o controle da máquina estadual, que ficou sob as rédeas do governador interino, o desembargador Ricardo Couto.

A campanha presidencial de 2026 também entrará para a história como particularmente vazia na discussão de programas e propostas. O cancelamento do debate da TV Globo ontem, após decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que mudaram as regras, foi um marco neste sentido, embora não o único e não inédito. Também não houve debates presidenciais em 1998. O que deixou a eleição de 2026 em segundo plano na agenda nacional foram os escândalos do banco Master e do INSS que derivaram para uma crise interna do Judiciário.

Vazamentos dos casos sob relatoria do ministro André Mendonça atingiram Flávio Bolsonaro, um filho do presidente Lula, Fábio Luis Lula da Silva, o ministro Alexandre Moraes (STF) e o presidente do TSE, Kássio Nunes Marques. Isso levou a uma crise de governança dentro do Supremo.

As acusações entre Mendonça e Moraes, com representações pedindo investigações de um contra o outro, foram o segundo assunto mais comentado nas redes sociais, segundo um ranking divulgado pelo Instituto Democracia em Xeque (IDX) com 13 episódios emblemáticos. Houve 1 milhão de menções em 24 horas, com pico de 76,4 mil menções horárias nove horas depois do evento. Só ficou atrás, em termos de repercussão, da proibição das bets, medida de apelo eleitoral tomada por Lula a nove dias das eleições.

A crise no Judiciário levou ainda a liminares de ministros do STF interferindo diretamente no processo eleitoral, muitas vezes com decisões contraditórias.

Dois casos foram marcantes em setembro. O ministro Mendonça, também integrante do TSE, determinou censura sobre publicações nas redes sociais que poderiam relacionar Flávio a propostas que reveem o status de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. O ministro Flávio Dino, que não é do TSE, suspendeu a decisão de Mendonça. Na quinta-feira, o ministro Gilmar Mendes, que também não faz parte da corte eleitoral, determinou que o candidato Renan Santos, do Missão, participasse do debate da TV Globo. Outras iniciativas, estas do próprio TSE, já haviam alterado também ontem regras previamente estabelecidas para debates eleitorais. O encontro foi cancelado pela próprio Globo, em função da insegurança jurídica provocada pelas decisões em série.

De forma também inédita na história brasileira de sucessões presidenciais, a eleição de 2026 foi marcada pela interferência estrangeira. Desde março do ano passado, o bolsonarismo procurou tornar a Casa Branca protagonista no cenário político doméstico. Com auxílio do lobby desencadeado pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o presidente americano Donald Trump sancionou o Brasil em julho de 2025, citando como um dos motivos o processo judicial que terminaria por condenar por golpismo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A repercussão das sanções americanas foi capitalizada por Lula, que, de modo sem precedentes em relação às suas candidaturas anteriores, lançou mão da carta da defesa da soberania. Este ano, Flávio viajou para Washington para um encontro rápido com o presidente americano poucos dias antes de Trump declarar as facções criminosas PCC e Comando Vermelho organizações terroristas, contra a posição do governo brasileiro. Flávio compareceu ainda a uma audiência pública do Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para sugerir que o governo Trump suspendesse sanções contra o país até a realização das eleições no país.

Bandeiras americanas e de Israel tornaram-se comuns nas concentrações populares bolsonaristas durante a campanha presidencial, mas não houve até o momento uma declaração explícita de apoio de Trump a Flávio, nem há expectativa de que este gesto venha a acontecer até a eleição de domingo.

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