Tese da ‘democracia em risco’ teve menos apelo no exterior, dizem analistas
Votação traz implicações diretas para os planos do governo de Trump (foto) para as Américas, segundo o NYT

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Nathan Howard/Reuters — 3/10/2026
O primeiro turno da eleição presidencial do Brasil foi acompanhado de perto ontem pela imprensa internacional, mas com um enfoque diferente do que marcou as disputas de 2018 e 2022. Analistas observam que a possibilidade de uma ruptura democrática, que ganhou destaque nas duas últimas eleições, perdeu espaço no noticiário estrangeiro, enquanto a importância da escolha para o futuro da região e os possíveis impactos na relação com os EUA passaram a ocupar o centro das atenções.
Para o professor do curso de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel, o destaque dado pela imprensa estrangeira ao primeiro turno foi menor do que nos pleitos anteriores, em parte porque a eleição passou a ser percebida como um processo menos violento, embora não menos polarizado.
“Quando eu falo dessa percepção de uma eleição menos violenta, eu me refiro a que não há, por exemplo, uma preocupação de que venha a se repetir um 8 de janeiro, na eventualidade de o presidente Lula ser reeleito”, afirma.
Com a menor preocupação em relação a uma eventual ruptura institucional, outros episódios da política brasileira passaram a despertar mais atenção no exterior. O jornal britânico The Guardian, por exemplo, destacou que a campanha foi marcada pelos escândalos do Banco Master e das fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.
“O que chama mais atenção é, de fato, os escândalos que estão acontecendo, do Banco Master, do Vorcaro, a relação dele com todos os atores da República, tanto da oposição como do governo”, afirma Uebel. “Isso sim chama atenção, mas não se tem aquela preocupação de que venha um golpe de Estado, uma contestação do resultado eleitoral”.
Ao mesmo tempo, as eleições brasileiras foram retratadas pela imprensa estrangeira como uma disputa capaz de redefinir os rumos da América Latina e de moldar o futuro das relações do Brasil com os EUA.
Segundo o New York Times (NYT), essa eleição representa “o maior teste até agora para a direita em ascensão” na região, movimento impulsionado pelas recentes vitórias de Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de La Espriella, na Colômbia.
“Na América Latina, os eleitores têm reiteradamente usado o voto para castigar os governos de turno”, observa Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais da UERJ. “É uma região em que o eleitorado se mostra frustrado e desacreditado com a política e com os partidos tradicionais e acaba, de alguma maneira, penalizando o presidente que está no poder. Tem sido assim reiteradamente”
O NYT ainda ressaltou que o resultado da votação também traz implicações diretas para os planos do governo de Donald Trump nas Américas, ao colocar frente a frente um presidente de esquerda que já desafiou repetidamente a Casa Branca em questões geopolíticas e o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e aliado de direita alinhado a Washington em temas como o combate ao crime organizado e a chamada “ideologia woke”.
O Financial Times fez uma leitura semelhante sobre a dimensão geopolítica da disputa. O jornal britânico destacou o interesse de Trump no resultado, avaliando que uma vitória de Flávio fortaleceria a estratégia americana de ampliar sua influência na América Latina, enquanto Lula mantém uma política externa mais voltada aos Brics e ao Sul Global.
Não se tem agora o temor de que possa haver um golpe ou uma contestação do resultado”
Já o francês “Le Monde” descreveu a campanha como “sem brilho” e “altamente incerta sob a sombra da interferência americana”. Para o jornal, apesar das implicações geopolíticas sem precedentes, o desfecho da disputa seguiu imprevisível e foi moldado sobretudo por questões internas.
A percepção de uma campanha morna também aparece no espanhol “El País”. O jornal descreveu os dois candidatos que disputarão o segundo turno, em 25 de outubro, como “um estadista desgastado”, em referência a Lula, e “o filho de um extremista”, em alusão a Flávio Bolsonaro.
Entre as principais preocupações da comunidade internacional com o pleito, Uebel destaca a importância da votação no Brasil como um possível “espelho” para outros países, sobretudo os vizinhos latino-americanos, diante da resposta da região ao governo Trump.
“Alguns temas que despontam são a questão das terras raras e dos minerais críticos. O Brasil chama atenção hoje na comunidade internacional porque tem a segunda maior reserva do mundo. Estados Unidos, China, Rússia e a própria União Europeia estão de olho nesse potencial aqui do Brasil”, afirma.
Nesse cenário, ele destaca também a repercussão do primeiro turno na imprensa da região, especialmente na Argentina. Ontem, a apuração dos resultados do primeiro turno foi acompanhada “minuto a minuto” pelos principais jornais argentinos, como La Nación, Clarín e El Cronista. O Clarín, por exemplo, destacou a menor participação eleitoral desde o retorno à democracia e classificou como “surpreendente” o resultado de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
“Aqui serve como se fosse um espelho, dadas as proporções, para os argentinos, que vão às urnas no ano que vem”, afirma. “Embora o presidente Milei tenha conseguido controlar a inflação, ele aumenta a desigualdade socioeconômica na Argentina. O empobrecimento da população tem batido níveis recordes.”
Nesse cenário, Velasco observa ainda que governos latino-americanos ideologicamente próximos de Trump tendem a ver com bons olhos uma guinada à direita no Brasil, que poderia aproximar o Palácio do Planalto da orientação da Casa Branca.
“A gente vê em governos de países vizinhos uma torcida quase oposta àquela que vê, por exemplo, na Europa ou nos países Brics. Ou seja, uma torcida por uma mudança”, afirmou. “O Lula acaba, de alguma maneira, transmitindo aos países vizinhos uma postura de resistência, uma postura de antagonismo das frentes”.
Até agora, Trump tem evitado comentar a eleição brasileira. A exceção foi uma declaração a jornalistas na Casa Branca, quando disse que acompanhava o pleito de perto, mas sem manifestar apoio a nenhum dos candidatos. Analistas avaliam, porém, que essa postura pode mudar à medida que o segundo turno se aproxima.
“Minha expectativa é que, mais perto do segundo turno, ele ou alguma autoridade americana se manifeste com mais contundência”, diz Velasco. “Algum sinal de que eles trabalhariam melhor com o Flávio Bolsonaro, por exemplo. Acho muito difícil que eles fiquem em silêncio nessas três semanas entre o primeiro e o segundo turno.”
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