Após freio de arrumação, Lula vai para o tudo ou nada
A esta altura, resta ao PT olhar cada um dos cerca de dez dias até o segundo turno como um “jogo de seis pontos”.
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A expressão é usada no esporte para descrever uma partida entre duas equipes que estão muito próximas na tabela na etapa final de um campeonato, seja para disputar o título ou na luta para evitar o rebaixamento. Nesse tipo de confronto direto, quando uma equipe conquista três pontos para si também impede que a outra some três pontos. Na prática, há uma virtual oscilação de seis pontos, o que permite uma arrancada ou uma ultrapassagem.
É o que os petistas veem agora, em uma eleição que terminou o primeiro turno com uma pequena vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), uma alta abstenção a ser reduzida e um percentual não desprezível de eleitores que ainda concebem mudar de voto.
Não é uma missão fácil. Nos primeiros dias do segundo turno, Flávio fez um arrastão nos partidos de direita, reforçando a mensagem de que pode ter uma maioria consolidada no Congresso. Uma das principais novidades da campanha de Lula era a notícia de que o presidente passaria a gravar vídeos em formato “selfie”. Mas o freio de arrumação foi feito, ainda que as fraturas estejam expostas e possam demorar a cicatrizar, o que permitiu ao partido implementar um plano de ação para tentar mitigar a vantagem bolsonarista. E para preocupação dos que observam com atenção a trajetória das contas públicas, esse plano ampliará o buraco no Orçamento, e em outras frentes pressupõe uma tentativa de desconstrução da imagem do adversário e uma mobilização de aliados em praças estratégicas.
Flávio saiu na frente nesses Estados. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), têm mobilizado forças em prol do aliado. Avalia-se que o PT cometeu um equívoco ao não dar maior importância, no interior e no litoral, para o peso político do trio do PSB formado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e os ex-ministros Simone Tebet e Márcio França.
Em Minas Gerais, a esperança do PT era que o governador eleito, senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), ficasse neutro. Mas ele logo engajou-se na campanha bolsonarista. No Rio de Janeiro, onde a eleição para governador terminou no primeiro turno após decisão judicial, a campanha de Lula corre o risco de perder tração.
Ao fazerem o diagnóstico dos problemas ocorrido na primeira etapa do pleito, aliados de Lula também dizem que não poderia ter ocorrido tamanha divisão da base no Maranhão. No Pará, é grande a decepção com o resultado.
Alguns números sustentam essa avaliação. No primeiro turno de 2022, Lula venceu com ampla vantagem no Maranhão e obteve 68,84% dos votos válidos, contra 26,02% do então presidente Jair Bolsonaro (PL). Neste pleito, registrou 63,99% contra 30,90% de Flávio. No Pará, Lula obteve 49,91% contra 44,50% de Flávio, ante 52,2% a 40,3% somados no primeiro turno de 2022 contra Jair Bolsonaro.
No mundo virtual, a guerra está declarada contra os artistas que não estão se posicionando. E há disposição de ir até as últimas consequências para assegurar, na Justiça, que o canal de WhatsApp “Exército de Lula” seja mantido em operação.
Demorou, mas o partido acordou para o fato de que o engajamento nas redes precisa ir além dos “lulistas de carteirinha”. Diante da fragilidade da campanha neste campo, não é de se surpreender que um atrito relevante nos bastidores do comitê tenha ocorrido justamente em razão do controle do manejo das redes sociais e das verbas a elas reservadas.
O canal visa furar a bolha criada pelo algoritmo das redes sociais, com material produzido em formato específico e linguagem acessível. Um aliado diz que o povo não sabe o que são “terras raras”, mas pode ter interesse na mensagem se esta trouxer a informação de que os tais minerais serão fundamentais para a criação de novos empregos na indústria. Outro diz que o eleitor médio provavelmente nunca ouviu o que é o “caso Dark Horse”, porém pode ficar boquiaberto com a informação de que um candidato pediu dinheiro no “zap” para um banqueiro preso por fraude.
Com a ajuda do presidente do Senado, a agenda legislativa de interesse do Planalto também está em marcha. Lula conseguiu emparedar a oposição e Flávio Bolsonaro, antes crítico da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1, declarou voto a favor da medida. A PEC da Segurança Pública também deve ser colocada em apreciação.
Na tentativa de capturar para sua campanha os sentimentos de mudança e esperança, o presidente intensifica a agenda de anúncios voltados a segmentos específicos do eleitorado. Em um só dia, contemplou microempreendedores endividados e jovens estudantes. Tem sido aconselhado a dar mais atenção aos idosos e, mesmo aumentando o buraco nas contas públicas com essas novas medidas, atrair uma parcela do empresariado.
Lula tem, afinal, o desafio de transformar uma disputa que começou como um plebiscito sobre ele no julgamento de seu adversário. As próximas sabatinas e o último debate, este promovido pela TV Globo, têm tudo para ser eventos decisivos para o desfecho da eleição.
Fernando Exman é chefe da redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras
E-mail: fernando.exman@valor.com.br
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